Até quando?
Escritor: Olavo de Farau
Abriu a ventosa e, delicadamente, pôs se ao trabalho ordenado. Sentia-se gélida, tristonha, morta. Morta era a melhor palavra. Sua boca provava da insipidez de tudo, não havia algo que a cativasse. Não havia gosto que aprovasse, nem mesmo os sentia. Suas mãos moviam-se num trabalho programado, se as perdesse acreditaria que continuava com o ofício. Não dedicava qualquer atenção, tudo a vista eram vultos, borrões feitos por um olho cansado, desinteressado, distraído. Sentia-se feliz por não ter que lembrar de respirar, não se esforçar para fazê-lo, por isso ser inerente a sua vontade. Talvez, se dependesse da moça, nem o faria. Seria, de um grande modo, um adorado conforto. Sempre imaginou que uma morte tranquila seria como um pesado sono, maior que sua resistência, mais forte que suas pálpebras e reconfortante. Da mesma forma como um bom sono o é para quem está há muito acordado, há bastante cansado. Esse estado de sossego, onde a pedra é macia cama e o barulho é canção de ninar. Não poderia se queixar da cama onde deitava-se ou das cobertas que a circulavam. Apenas não podia dormir, tinha que se mexer, tinha que fingir, enquanto o outro também o fazia, e fingia que com ela se importava. Era mais do que deveria exigir, era mais do que poderia pedir, ou se pedisse, era o máximo que poderia receber. Ele não a merecia, nem o tanto que ela cedia. Sessenta anos e nenhum prazer, isto guarda-se para os homens, diziam, o gozo.
Então assim o era. Corpo vazio. Pedaço de carne. Objeto de uso. Mulher.
Até quando?
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