Cavalos alados ao Sol da meia noite…
Escritor: Leonardo Lazo

Era uma fria noite em Behurn. A luz que emanava das flores trazia paz ao ambiente. O deus sem asas observava tudo, ao longe, do alto da colina de Gibarta. Em seus olhos, o brilho das lágrimas que mareavam sua visão; em seu peito o coração batia descompassado numa nuance de velocidades fora do comum. Seus sentimentos se misturavam entre dor, ódio, amor e, como sempre, compreensão. O vento forte cortava seu rosto e Arcon, soberano no céu, iluminava sua face. Pequenos animais brincavam, pássaros sobrevoavam em torno da colina e logo abaixo uma tropilha de cavalos o observava. Um pequeno rato da planície circulou suas pernas enquanto roia uma noz, deixando ao lado outra e imaginando que as angústias do nobre deus seriam resolvidas com um pouco de alimento.
Uriel se manteve ausente de tudo que o cercava e só sentia seu corpo quando suspirava. Às vezes, sentia vontade de destruir a colina com tudo que havia ali, mas quando via uma criatura, sorria. Escutava os trovões vindos do sul, das montanhas congeladas de Narayama, lembrando do princípio dos tempos, mas era no Desfiladeiro da Bigorna que seus olhos se concentravam. Tudo agora parecia distante, mas não queria dizer que não fazia sentido. Não estava perdido – muito pelo contrário -, estava certo de sua partida. O deus neutro da compreensão passara por diversas mudanças nos últimos anos, entregando princípios e marcas que ele não imaginara um dia sair de sua personalidade; ele evoluiu.
Os cavalos continuavam parados observando e sentiam em seu coração o desespero e a decepção do seu senhor. Sabiam que ele não desistiria da vida, nem de sua forma de pensar. Ele aprendeu, naquele mesmo desfiladeiro que olhava fixamente, a ser único. Sua esperança de um mundo envolto em amor foi partida, porém, em sua alma, ele e seus cavalos sabiam que isso nunca morreria dentro dele. Sorriu ao lembrar das batalhas, dos ensinamentos e do melancolismo, pós horas de conversa. Pensou o quanto era dramático e às vezes infantil, sentiu raiva de seu comportamento agressivo e às vezes banal. Ele não estava triste, muito menos feliz; o vazio preenchia sua existência. O senhor de Ulrich nunca se sentiu tão impotente quanto agora.
O gosto de sangue foi atenuado com a dor da mordida em seus lábios. Pensava em retornar de seu sonho sofrido, causando em si uma dor física, mas o sentimento era maior que qualquer sensação. Nesse instante, Uriel não conteve as lágrimas e chorou tranquilo; as gotas escorreram por seu rosto e desceram a colina como cristais cintilantes refletindo a luz de Arcon. Quando as lágrimas chegaram até a tropilha, como uma chuva de prata exuberante, sem pestanejar ele concedeu um desejo aos cavalos, que se olharam, em um rápido instante e, como de imediato, desejaram todos a mesma coisa, voar. Lindas asas prateadas saíram das costas daqueles animais, que bufaram umas duas ou três vezes e rodearam a colina em um trote seguro, firme e libertador. Depois da volta completa, algo havia transformado o ambiente; uma energia mágica, que completava a paisagem, pairava no ar. E, em um instante depois, a tropilha impulsionou-se em passos largos e começaram a voar.
De volta ao real, admirado, Uriel observou seus cavalos flutuando pela colina, indo de encontro às nuvens como fadas aladas e trazendo de volta uma esperança e liberdade que há tempos não sentia, e sorriu. Em seu sorriso, lamentou a ideia do fútil, do argumento inútil e desejou que o sol voltasse a brilhar. Foi então que, com um movimento suave, ele passou a mão sobre Arcon e todos naquele dia sentiram Ulrich girar. Ao longe, a torre da Irmandade Eterna badalou os sinos da meia noite e o som foi tão forte que fez a todos despertar. O sol cobriu a paisagem e seus raios – refletidos no pelo de prata da tropilha – fizeram mais uma vez Uriel chorar.
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Essas palavras traçam linhas que vão em direção ao corredor do sucesso.
Eu jamais conseguiria escrever qualquer coisa tão profunda assim. Engraçado é eu não entender quase nada desse mundo de fantasia que você conhece tão bem mas imaginá-lo, ao ler seus textos.
Parabéns! Conto com cheiro de sucesso.
História envolvente e que realmente da pra ter uma visão desse mundo…muito bom, parabens!
Eu, pessoalmente, não gosto de contos que tratam tanto assim de emoção, de forma vaga e artística, sem um objetivo claramente definido.
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Porém, é inegável a qualidade da construção do seu conto. Nota-se que você escolheu bem as palavras e conseguiu descrever bem as sensações.
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Não fosse meu (des)gosto pessoal por esse estilo, provavelmente acharia o conto muito bom!
Parabéns
Ótimo conto!!!!! E que venha o próximo =D
O modo de focar a emoção e os desejos do personagem dá um ar sublime ao conto, penso que uma continuação aprofundando estes dois tópicos seria ideal. O mundo idealizado no enredo também é muito belo e, ao meu ver também merecia ser mais explorado. O conto em si teve ótima construção e condução. Parabéns
A Asami já disse tudo nem precisa ficar repetindo,parabéns.
Ótima história. Profunda, com significado oculto. Parabéns!!!
Incrível narrativa. Eu fiquei arrepiado pelo final deste texto. Achei também muito interessante o fato de você não mencionar a palavra “pégaso” no texto, adiciona ainda mais credibilidade em minha opinião. A fantasia contida aqui também me interessou bastante, apesar dos nomes não terem me impressionado da mesma forma.
Vai ter continuação este conto? Ou é parte de algum projeto maior? Eu estou trabalhando também numa fantasia relativamente complexa, adoraria saber mais sobre o seu trabalho.
Olá STW, tudo bom? Na realidade é um conto que faz parte de um projeto maior. “Solostarum”, é um livro perdido de contos de um mundo cheio de fantasia. Fico feliz sobre sua curiosidade a respeito do meu trabalho. Você pode encontrar mais contos no blog: http://solostarum.blogspot.com/ ou poesias no Blog: http://ilusorios.blogspot.com/
Fui enganada
pensava que era a continuação deste conto e nada dah!
Mas fico a aguardar o resto.
Construção de mundo e ideia sensacionais, gostei muito. Parabéns.
Gostei essencialmente da forma como você escreve e da utilização das metáforas, mas acho que falta um pouco mais de conteúdo e de acção, de resto acho que tem boas probabilidades de se tornar num escritor a sério.
Parabéns.
Simplesmente impressionante!