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Aug
03
2011

Conversa Intima

Escritor: Evandro Nash

O frio era cortante e eu segurava meu copo de café com as duas mãos para tentar me aquecer um pouco, não era tão tarde, mas as baixas temperaturas esvaziam as ruas fazendo com que somente os trabalhadores noturnos, os desabrigados e os solitários ocupassem as vias após as 23h. Eu sou escritor e tenho uma bela casa.

Confesso que não sabia muito bem para onde ia, sempre tive estas vontades súbitas de caminhar durante a noite, e agora que o fato de escrever algo que venda me deu a oportunidade de sair da casa dos meus pais, transformei o desejo em costume : caminhar durante a noite sem caminho certo. Antes eu tentava seguir rumos, fazer disso uma espécie de “caminhada noturna” porém a cada lugar que eu ia o tédio e a sensação de deslocamento me faziam mudar de ponto de chegada na outra noite. Até que eu percebi que para algumas pessoas simplesmente não há caminho certo.

Aquela era uma noite como qualquer outra tirando o fato de que eu estranhamente perdera a vontade de tomar café e senti a necessidade de beber algo mais forte. Andei mais duzentos metros e entrei em um bar que eu nunca havia frequentado.

O lugar parecia caro, bela iluminação, quadros na parede (uma grande coincidência, eram todos posters de filmes que eu já vi.) e móveis de madeira boa. Entrei sem olhar para ninguém, fui direto ao balcão para pedir uma…

  • Vodka dupla! Saindo em um minuto.

Antes que eu pudesse completar meu pedido o balconista o exclamou com entusiasmo, e o pior, o cretino acertou…

  • Como você sabe?

Ele continuava de cabeça baixa, com um chapéu panamá encobrindo seu rosto.

  • É a sua bebida favorita, você odeia Pilsen e não gosta de tomar cerveja no frio.

O balconista finalmente revelou a luz sua face dando assim a resposta mais óbvia a questão da minha bebida predileta…..

Atenção caro leitor, se você deseja continuar lendo este texto, peço que coloque seu assento na posição vertical… AGORA. Obrigado pela atenção.

Ele era eu.

Sim, eu compreendo se tu não compreendes e você compreende que usar todos os tempos do presente singular de um verbo numa mesma frase é uma baita babaquice.

O fato é que o balconista era eu, com roupas diferentes, uma barba que eu nunca usaria e um chapéu legal.

  • Você é algum irmão gêmeo bastardo ?

Perguntei tentando manter um minimo de raciocinio lógico. Ele fez um movimento com o braço como se apresentasse o bar a uma platéia.

  • Eu acho meio difícil você ter tantos irmãos g?meos.

Olhei para trás e percebi que todos os ocupantes do bar eram versões de mim! Um com uma roupa de atleta, outro parecia impaciente olhando para o relógio, o outro parecia drogado….

  • Como isso é possível? Estava usando agora o balconista (eu) como guia de realidade.
  • Nós somos você com algumas decisões diferentes.
  • Como naquele filme do Jared..
  • Isso, como naquele filme, inclusive tem uma versão de você que não viu nem esse, nem aquele filme do Jim Carrey, é o mais feliz ali do canto..

O cara estava realmente feliz, mas isolado, sentava numa mesa individual enquanto todo os outros eus estavam agora reunidos em uma grande mesa em frente a uma espécie de palco.

  • O que vocês estão fazendo aqui?
  • Nós estamos aqui para responder suas perguntas.
  • Perguntas?

Enquanto eu o questionava, o balconista me levou até o palco, formando um talk show onde eu era o apresentador e entrevistado ao mesmo tempo. Chegando ao topo a minha versão vestida de atleta de atleta me atirou a bola de basquete, agarrei com firmeza, lembrando dos velhos tempos de quadra.

  • Me diga um arrependimento seu.

Ainda brincando com a bola eu respondi que me arrependia de não ter continuado a treinar, tentar uma carreira no basquete. Ele me indagou de novo.

  • Seu joelho ainda dói

Afirmei que sim enquanto eu e ele alisávamos nossos respectivos joelhos direitos (fizemos isso ao mesmo tempo.)

  • Essa contusão, como você sabe, veio na semifinal do regional de 2008, a cesta da vitória que você fez mas foi empurrado no alto, caiu de mal jeito e torceu o joelho direito. Lembra que enquanto você saia mancando e comemorando um senhor de cabelos brancos queria falar com você? Ele era um olheiro espanhol, você não entendeu nada do que ele disse e por isso achou que o velho estava bêbado. A minha versão de você aceitou a oferta do curso de espanhol em promoção que a nossa mãe achou que era trote. Conversei com o velho e hoje eu sou um grande jogador de basquete.

Fiquei espantado, tudo era muito crível e eu me lembrava claramente da forma enrolada de falar daquele senhor.

  • Mas, paremos de enrolação, nós todos sabemos que não estamos aqui para falar de basquete.

O balconista parecia ser o líder dos eus.

  • Estamos aqui por que então ? Perguntei com um sorriso irônico.

O balconista tirou seu chapéu, ele já estava calvo, colocou na frente do seu tronco de forma solene e perguntou de forma calma, palavra por palavra :

  • Do que você realmente se arrepende?

Meu sorriso sumiu, e o mesmo aconteceu com a maioria de nós, até o Feliz já não parecia tão alegre…

  • Alguém que faz uma pergunta tão confiante provavelmente já sabe a resposta. Respondi de forma ríspida.
  • Claro que eu sei, eu sou você.
  • Então por que você quer me ouvir falar?
  • Porque enquanto você não falar, nem eu nem você poderemos responder. Esta resposta será só um pensamento vago.

O balconista era habilidoso e por um momento me perguntei em qual momento da minha vida eu adquiriria tal eloquência. Ele tinha razão, eu precisava responder e as palavras sairam de minha alma, mas em forma de cacos de vidro, dilacerando todo o caminho.

  • Eu tive a chance de tê-la e a perdi…

Todos pareciam estar numa espécie de silêncio respeitoso, até que o primeiro, o impaciente levantou a voz.

  • Você está falando sobre “Ela” ?
  • Sim, como é estar com ela ?

Todos responderam de maneira óbvia : positiva. Ela era uma grande mulher.

  • Sinto que esta é a decisão que separa quem eu sou hoje de vocês. Resmunguei, cabisbaixo.
  • Você lembra da época em que a conheceu? O balconista voltou a tomar as rédeas da conversa.
  • Claro, eu tinha quinze anos e queria ser jornalista, ela falava sobre bandas que eu não conhecia e filmes que eu nunca vi.
  • E você acha que você a perdeu?
  • Sim, conte-me como foi ficar com ela todo esse tempo.
  • Isso só uma pessoa aqui pode falar. O balconista virou-se para o feliz, que continuava a sorrir de forma continua e eu comecei a desconfiar da naturalidade de seu sorriso, ele saiu de sua mesa e se dirigiu até mim, ficando a poucos passos de onde eu estava.
  • Você foi o único que ficou com ela?
  • Eu fui o único que fiquei com ela quando a conheci, aos 15 anos. Foi uma decisões mais acertadas da minha vida, pelo menos eu pensava na época. Mas, nós começamos a trabalhar e a minha imaturidade somada com a distância desgastou pouco a pouco o que existia, tudo durou oito meses, depois disso, o máximo que conseguimos foi ser bons colegas.

Mais uma vez a credibilidade do depoimento me deixava atordoado, aquilo era extremamente crível, mas uma questão não saía de minha cabeça :

  • Mas se você a perdeu pra sempre, por que é o mais feliz de nós?
  • Nunca ouviu falar que rir de tudo é desespero?

 

O feliz soltou mais um sorriso, jogou uma moeda para o balconista e saiu andando calmamente com as duas mãos entrelaçadas na nuca, o mesmo gesto que eu fazia para fingir que não estava triste na minha infância.

  • Entendeu agora?
  • Acho que sim
  • Cada um de nós, balconista, jogador, impaciente, cada um a conheceu no mesmo tempo que você e foi o fato de não ter ficado com ela naquele momento que nos uniu. No final somos um só, você sabe disso.
  • Mas, vocês responderam quando eu perguntei como era estar com ela.
  • Sim, nós ficamos, cada um no seu tempo, eu depois que abri o bar, o jogador a encontrou na espanha, o impaciente é impaciente porque sua chefe é sua própria esposa, no caso : “ela.”. Assim como conhece-la é o ponto de inicio comum a todos nós, ficar com ela também o é, e tudo isso aconteceu porque você “perdeu” a chance no primeiro momento.

Tudo dentro daquela falta de sentido fazia uma grande lógica para mim agora, mas eu tinha uma ultima questão.

  • Uma ultima questão, por que vocês só apareceram agora?
  • Lembra da pergunta que nós fizemos?
  • Sim, sobre do que eu me arrependia. Enquanto as palavras saiam da minha boca e entendia o porquê de tudo acontecer naquele momento, mas deixei para o balconista a tacada final.
  • Nós não nos arrependemos das coisas e a única forma de você conquistá-la e não a enxergando como um fantasma ou uma derrota do passado e sim como a mulher que você deseja ter ao lado quando o futuro virar presente, como nós a enxergamos.

O balconista me serviu mais uma dose de vodka, dessa vez sem gelo, eu precisava, tomei em um gole só e quando percebi todas as outras versões de mim haviam desaparecido, só havia eu e o balconista que me acompanhou até a porta, dizendo que iria fechar o bar. Deixei o copo vazio no balcão e me despedi dele.

Caminhei lentamente até a minha casa, havia muita coisa para se pensar…

 


Written by evandronash in: Agenda,Contos,Evandro Nash | Tags:

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