Culpa
Noite, escuridão, silêncio… Lucy Bugenhagen recolhe-se ao seu quarto e senta no chão. Quarto escuro… silêncio… Ela sorri. Mas algo no canto do quarto a faz tremer. A paz de Lucy se estraçalha. Uma boneca. Sentada ela a fita com olhos sem vida, olhos delatores que violentam a tranqüilidade da noite. Ela sorri um sorriso sádico, macabro, imune a segredos, que adentra intangível a mente sem o menor pudor, revela com escárnio infecções da alma e zomba dos aquerontes do destino. Lucy é tomada por uma agonia e reage por instinto, lançando um sapato contra o ser inanimado. A boneca se mexe e retorna para a mesma posição desafiadora, triunfante, olhando-a friamente, sem desviar o olhar. Lucy tenta gritar, mas não consegue. No quarto pisca uma luz vermelha incessantemente… Pisca,… pisca,… pisca… A face da boneca se esconde… e retorna… se cobre… e retorna… Lucy ergue-se subitamente e desce as escadas helicoidais, rodopiando e rodopiando, os degraus nunca acabam. A luz vermelha ainda pisca… E lhe enche de vertigem. Ela vomita sangue e pus. E então se acalma…Caminha até a mesa e acaricia seu gato morto no chão coberto por moscas. E come em sua tigela olhos humanos… E se acalma… Olhos… Mas os olhos a lembram o olhar da boneca. Ela larga a tigela aterrorizada novamente, corre para o canto da sala e observa encolhida os globos rolando pelas tábuas de madeira. Corvos observam pela janela enquanto seus cabelos caem. Vão caindo aos poucos, até que restam apenas alguns fios. Vermes saem de seu nariz e ouvidos… E de sua boca… E rastejam por sua pele…em silêncio… Agonia… As paredes sorriem, é o sorriso da boneca. Ela sabe tudo, ela está em tudo. Lucy corre apavorada e encontra milhões de portas fechadas e tortas… As bocas das paredes se abrem com dentes pontiagudos e uma longa língua, por onde escorre uma baba pegajosa que inunda a sala. Lucy tenta engolir a própria cabeça. Ela é agora um monstro de mil braços. Braços compridos… E com eles escala as paredes e o teto, tentando se esconder como uma aranha. No canto do teto ela se encolhe em silêncio. Agonia… Só de pensar nos olhos da boneca… Nunca mais quer ver aqueles olhos. Lucy teme voltar ao quarto e encontrá-los novamente. Com agulhas ela fura os próprios olhos. Cega, estará livre daquele rosto que lhe assombra a consciência… Nunca mais! Nunca mais tornará a vê-lo. Mas ele está lá! Dentro de sua cabeça! Está lá! Ela não a deixa em paz. Lucy solta um gemido de agonia enquanto dezenas de ganchos dilaceram sua carne. Depois amputam-lhe os membros… e a cabeça… Sua cabeça rola pelo chão. Silêncio novamente… Lentamente a cabeça sobe as escadas… até chegar no andar de cima. Uma voz ecoa lá dentro de seu crânio: Lucy… Lucy… Então todo o seu corpo se torna uma gosma pútrida e fétida e vai escorrendo escada acima até se recompor no patamar superior junto à cabeça. Os vermes gentilmente cobrem o seu corpo nu e se transformam em um vestido branco desbotado e sapatos velhos. Noite, escuridão, silêncio… Lucy Bugenhagen recolhe-se ao seu quarto e senta no chão. Quarto escuro… silêncio… Ela sorri.
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Acho q o título tem papel fundamental para a interpretação desse conto, não? Personagem extremamente transtornada pela culpa por ter feito algo, ou talvez por ter testemunhado sem algo e não ter reagido, há muitas menções a ‘olhos’ (ver tudo, saber de tudo, furar os olhos, não mais ver), ou talvez eu esteja extrapolando! O conto não parece terminar no ‘sorri’, deixa a impressão de que a toda aquela agonia é cíclica.
É verdade, o título é fundamental para a interpretação do texto. E acho que este conto tem efeitos diferentes em cada leitor: O que é culpa pra você? Em que partes você consegue se identificar com a personagem? Enfim, eu tenho um carinho muito especial por este conto. É um dos meus preferidos.