Dia de Pesadelo
Escritor: Vanderlei Verdegay
Era um dia normal de trabalho, um dia qualquer, desses que tudo funciona naturalmente no escritório: contas a pagar, telefonemas indesejáveis, etc., enfim, tudo normal.
Na sala do Roberval “Tempo Fechado” (apelido por causa do “ótimo humor” que tinha), estava tudo na maior calma, e não era para menos, como sempre, estava atrasado; não era coisa de cinco ou dez minutos. No dia anterior havia chegado uma hora e meio do habitual. Como não sou nenhuma barata morta, passei-lhe o maior sermão; aí sim o tempo fechou: trovões nos colegas, raios pelo telefone e faíscas até na própria sombra. Dessa vez, o atraso já era de duas horas. Já estava subindo pelas paredes de raiva. Não o demitia, pois era um grande colaborador. Até que chegou Boni, o boy, no maior desespero:
- Roberval está armado!
- Calma, me conte essa história direito! Que papo é esse de que o Roberval está armado?
- Verdade patrão, o Roberval chegou com um revólver à cintura, eu vi, não é mentira não.
Depois que terminou de falar, saiu gritando pelo pátio, alarmando todos os funcionários. Confesso que não sabia o que fazer: se ligava na delegacia, se saia correndo, se me escondia, enfim, na hora fiquei paralisado; então resolvi investigar o assunto na íntegra. Tudo bem, o Roberval não tinha um bom humor, mas trazer uma arma para o escritório, só se estivesse muito louco. Um homem de família, pai de dois lindos meninos, não podia ser verdade. Então saí, óbvio com um pouco de receio, porém fui. À medida que caminhava, vi que a confusão já estava armada. Todos estavam em pânico, com medo do Roberval e da arma do Roberval.
Mônica, minha secretária, quando viu, jogou-se sobre mim, abraçou-me, chorando e dizendo que não queria morrer.
Dona Joana, a copeira, quando viu aquela cena, só faltou entrar dendtro da garrafa térmica, PIS pensou que Roberval estivesse na copa.
Lorran, o contador, saiu gritando:
- Agora tudo está perdido, ele vai nos matar!
Pobre Lorran, enfiou o rosto dentro da copiadora e tirou várias expressões faciais.
Chamei, então, aos berros o causador daquela desordem, o Office-boy Boni.
Boni entrou correndo e gritando:
- Patrão, acho melhor o senhor evaporar-se, o Roberval vem aí e não está com cara de bom amigo.
Foi difícil me acalmar. Eu que sempre fui metido a machão, não sabia o que fazer: se me enfiava dentro da gaveta, não caberia; se pedisse um copro de água com açúcar, a minha diabete subiria a mil; enviar dentro do arquivo, jamais, tenho fobia a lugares fechados e escuros; enfim não sabia o que fazer. Com muito cuidado, Lorran, o contador com o rosto todo vermelho, aconselhou-me a se esconder dentro do banheiro dos funcionários, pois Roberval nunca passaria por lá.
Roberval nesse instante estava sendo tratado como um príncipe e não sabia a mudança radical dos súditos que só faltaram estender o tapete para ele caminhar.
Que sufoco! Que pesadelo! Se ele me pega, estaria morto! Pra ser franco, eu já me sentia um morto-vivo! Um Zumbi, que não sabia que direção tomar.
Enquanto isso, no andar de Roberval, estava a maior confusão; gente tomando mais que a metade do café, gente fumando um cigarro atrás do outro, gente arrancando a roupa pela cabeça, gente gritando palavrões, gente cortando o coco no meio, enfim a maior confusão já registrada depois do suposto “Fim do Mundo”.
Pensei muito e vi que não podia pôr em risco a vida dos meus funcionários. Resolvi enfrentar a situação de cabeça erguida, com o coração saltando a mil por horas, com as pernas tremendo mais que vara verde; enfim, ergui a cabeça e fui enfrentar o Roberval e sua arma. Eu era ou não era o chefe daquela indústria?
Fui rezando um Pai Nosso, uma Ave Maria, um Credo; enfim tudo o que era oração; e eu, que até aquele momento não sabia à qual religião pertencia, ou até mesmo se seu fosse um ateu enrustido.
Com um lenço à mão, parava um pouco, enxugava a testa, tornava a caminhar, parava de novo, enxugava a testa… Foi assim até chegar a vinte metros da sala do Roberval. Meu lenço já estava ensopado, meu coração quase parando… Se não fosse o incentivo dos funcionários, e o olhar penetrante da minha secretária Mônica, confesso que sairia correndo sem rumo.
Cheguei à porta, bati e gaguejando perguntei se podia entrar, e ele respondeu:
- Claro patrãozinho, à indústria é sua!
Não gostei nenhum pouco do modo com que ele me chamou. Trêmulo, entrei. Ao entrar percebi que ele estava branco como sulfite e trêmulo como eu. Olhei sobre sua mesa, um objeto grande, prata, com cabo preto e cano longo; era um revólver. Cai sentado e não vi mais nada. Ao abrir os olhos, Mônica, Boni, Lorran, Dona Joana e alguns funcionários me rodeavam e eu fiquei sem entender. Contudo, tudo ficou esclarecido e a única coisa que pude fazer foi soltar um suspiro e colocar um sorriso nos lábios, depois que fiquei sabendo que o pesadelo chamado “revólver” era um brinquedo, que Roberval tinha comprado para seu filho que teve febre à noite inteira e por isso havia chegado atrasado e estava trêmulo também, pois teve receio de que eu fosse despedi-lo.
Depois de tudo esclarecido, as coisas voltaram à rotina habitual, de um dia normal de trabalho, um dia qualquer, desses que tudo funciona naturalmente no escritório.
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