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Aug
11
2011

Fracas Memórias

Escritor: Otávio Caetano

- Minha memória está péssima…

Ouvindo-a reclamar da sua memória, ele se lembrou de como também estava esquecido das coisas… O silêncio da madrugada, o Sol nascendo através da neblina pela manhã, os sons da cidade acordando, o gosto da comida preparada pela tia, o sorriso rotineiro de um funcionário qualquer… Simples coisas pelas quais sentia indiferença, mas que na presença dela se tornavam vivas em sua memória, coisas pequenas que eram tão importantes e significativas.

E passava dias nesse estado sensível e alegre, apreciando as pequenas coisas que lhe aconteciam porque nessas pequenas coisas ele a enxergava e tinha motivos pra sorrir e se sentir bem. Como admirava ela. Aquela beleza o fascinava, o deixava embriagado e até impotente, pensava seriamente que Deus e Darwin trabalharam muito para reproduzir tal beleza e de que tudo a sua volta era uma homenagem. Ironicamente, atravessar ruas na companhia dela era sempre um ato seguro – dependendo do sexo do motorista.

- É normal esquecer coisas, poucos têm uma boa memória

- Mas é que eu me esqueço das coisas toda hora! Esses dias eu esqueci as chaves… No outro meu celular…

- Vai ver o alemão tem te pegado… – ele riu do rosto confuso dela.

- Que alemão?

- O Alzheimer.

- Não brinca! – uma das coisas que o deixava encantado era aquele tom ingênuo e infantil que a voz dela reproduzia às vezes, sentia-se desarmado e vulnerável… Nenhuma música que tinha escutado na vida era melhor que aquele timbre não-musical.

Nunca foi um poeta, mas duvidava que algum poeta pudesse por em versos aquele olhar, sempre distante, sempre o envolvendo, num dia nublado, a cor de seus olhos se mesclavam com a melancólica paisagem e se tornavam um mar cinza, indecifrável.

- Estou até tomando um remédio pra ver se isso melhora

- Não acredito em remédios, acho que a memória é uma questão de associação, afinal, ninguém se esquece de coisas que marcam de alguma forma… Coisas que merecem ser lembradas.

Olhou pra ela com um olhar deslumbrante, pensou em coisas que tinha esquecido e em coisas que não importavam e pensou nela. Segurou suas mãos.

- Que foi?

- Lembrei de uma coisa – e a beijou pela primeira vez.


Written by Otávio Caetano in: Agenda,Contos,Otávio Caetano |

5 Comments»

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    Bonito o texto. Porém, cuidado com a pontuação, há partes do texto que poderiam ser melhor detalhadas pra ficar entrelaçadas com o todo.

    Parabéns pelo texto.

  • Lélia says:

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    O amor percebido através das pequenas coisas do dia-a-dia. Escreva mais sob esta perspectiva, tua sensibilidade para isso é enorme.

    Parabéns!

    :)

  • Rafa says:

    Thumb up 1 Thumb down 0

    Muito bom o texto.

    Continua escrevendo que vais longe Otávio!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Este é o Otávio Caetano, aquele guri que eu conheci e cabia na palma da minha mão? Hehehe, brincadeiras à parte, estou imensamente feliz com este texto, que é sensacional e me surpreendeu. Parabéns, ao Otávio e à família Caetano, que é recheada de pessoas queridas e especiais.

  • Dirce says:

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    Tua sensibilidade me surpreende, até me fez voltar a um passado não muito distante,quando eu escrevia. Alguns trechos lembrei de mim, obrigada por me emocionar!

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