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Aug
01
2011

Hálito putrefato

Escritor: Olavo de Farau

Hálito putrefato.

Sempre que imagino meu último suspiro acredito que sentirei um bafo quente podre encher-me o peito. Tudo se torará escuro, como se em um campo eu estivesse, sem estrelas sobre minha cabeça, sem luz distante e fraca para me guiar. O fim, de fato, seria a não existência de tudo. Apenas eu e o cheiro podre.

Apesar do horrível odor sentido eu não me incomodaria, não me sentiria enojado, meu nariz me surpreenderia e como que pregando-me uma peça diria “sempre estive preparado para esse cheiro; nasci para senti-lo”. Minha língua, ainda úmida, querendo secar, transformaria o cheiro em gosto e esse ficaria em minha boca. Seria depósito eterno para lembrar todo o lixo que a vida me evitou provar, de precisar para me alimentar. Seria eu, o cheiro e o gosto.

Não me moveria, não haveria para onde ir. Talvez nem mesmo houvesse chão sob meus pés. Como se meu espaço no mundo, finalmente, me fosse dado: aquele quadrado onde se confortava (inconfortáveis) meus pés. Nada mais.

Se andar eu caio?

Aliás, será que lá eu pensarei, assim como faço agora?

Não sei mais do que qualquer um sobre lá, apenas que existe frio e que me consumirá. Não haverá o que me aqueça.

Sempre me disseram que um corpo não se esfria, apenas lhe é roubado o calor. Mas não se pode dizer o mesmo desse frio, que me absorveria e se incrustaria sob minha tez, como se parte dela fosse. Assim seria eu, o cheiro, o gosto e o frio.

Não teria roupas, pois lá não há subterfúgios, não há máscaras ou disfarces, nada de aparências.  Da mesma forma falta pudor, moral, crime e castigo. Finalmente serei eu (me perguntou, para quem?). O que sou eu se não interação com alguém?

Lá todos os segredos serão ditos (se houver voz) e os gritos e o choro serão sentidos (se me derem lágrimas), mas os arrependimentos jamais me abandonarão, o perdão não virá, e toda a mágoa vai apodrecer junto com minha pele. Serei eu nú, o cheiro, o gosto, o frio e os arrependimentos.

Pergunto-me se, possuindo voz, haverá eco? Se nada a minha volta houver, nada ressoará. Minha lamúria expandiria baixa, sem ser ouvida. Se a voz faltar então o silêncio será o maior parceiro. Objeto de meu medo. Se nada escuto há de se temer? Há de se esperar algo?  Se sim o quê? Quando virá?

Silêncio seria reforço a solidão, para lembrar que serei só eu nú, o cheiro, o gosto, o frio e os arrependimentos.

Por fim o medo. O que há? O que virá? Como será? Aqui é o começo, aqui é o fim? Perguntas me abateriam e eu as sentiria me afrouxar. Quem poderia respondê-las? Assim pouco a pouco iria me definhar e minha cabeça se preencheria com o pavor, que me dominaria e manipularia. E aí não haveria eu nú, nem cheiro, gosto, frio ou arrependimentos, apenas medo e o silêncio infinito das respostas, do meu coração parado, do meu corpo estático, da minha boca muda e do meu não respirar.

 

Parabéns, digo a quem?

Parabéns para mim?

 

E assim assopro as velas, contando um ano a menos pro meu fim.

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Publicado por Olavo de Farau

– que publicou 4 textos no ONE.

Nascido e criado no CCBB, muito arredio na infância, passou muito tempo lendo e vendo filmes em preto e branco para poder gostar de outra coisa quando já estava na adolescência. Diz-se que estuda Direito, mas deve ser porque é sempre visto no bar em frente a faculdade. Ama todas as formas de amor e ama todos os amores e luta para defender o que pensa. Pois viver e não lutar seria o mesmo que existir e não ser feliz, não tem sentido.

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