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Aug
10
2011

Hymenoptera

Escritora: Nandinha

“A culpa é uma sensação que costuma sufocar quem a possui. É uma reação natural do corpo, como uma formiga carregadora de grãos de feijão. Seus bracinhos que não passam de rabiscos, tremem ao peso do infame grão, e arquejando, a pobre formiga acredita que a única forma de viver livre do alimento é carregá-lo obstinadamente até o formigueiro.”

Formigas me mordam no mais alto nível de canibalismo possível.

Passei a tarde fazendo relatórios inútis para pessoas que nunca terminariam de lê-los com atenção. Sai da repartição apressado, não havia programado nada com alguém, mas desejava fazer uma parada antes de chegar em casa.

Sim, no bar. Tomei a “branquinha” e joguei um pouco de conversa fora com o dono do balcão… Falamos sobre nada, normalmente. Cheguei em casa exausto, me esparramei na cama e dormi. Dormi como um porco.

Há alguns dias nada passa de concreto em minha mente, sonho sempre o mesmo sonho todas as noites e desejo ardentemente que você pare de rondar minhas lembranças.

Suado de uma noite mal dormida, fui tomar uma ducha… E os meus passos sapateando na chuva voltaram a minha mente cada vez que eu tentei esquecer. Como chovera aquele dia, como chovera.

Sorri. Estava em frente ao espelho mirando os novos sinais que despertavam em meu rosto, e pensava com barulho – “Espero não ficar parecido!”

Nunca deixei crescer barba, nunca pedalei mais que umas voltas no quarteirão e jurei a mim mesmo que jamais teria filhos. Não aguentava imaginar nossa herança vagando em outro corpo.

Esqueci. Não fui trabalhar, a mente oca de ideias se humilhava diante das recordações… Eis que decidi pelo mais facil, comprimidos. Era só tomar alguns tantos e aguardar.

Fui na farmácia, comprei um frasquinho médio, deveria ser o suficiente. Na pia de casa encontrei um copo, preenchi ele com água. Caminhei até o quarto, seria fácil, afinal.

Um último relance me veio a mente, tinha dezesseis anos e olhava fixamente para um frasquinho de comprimidos azuis, chovia muito. Era para ser apenas uma brincadeira, pena que minha “troça” virara uma arapuca ardilosa. Permaneci um bom tempo sentado nas escadarias tomando chuva e olhando para os comprimidos azuis.

“Deveria ser assim? Azul, o céu? ”

Aquela pergunta boba me fizera dessistir em nome de uma simples ilusão… Solucionei o caso aos vinte e um anos, quando a física me apresentou um quadro suficientemente científico para eu parar de olhar para o céu cheio de esperanças.

Seria fácil, afinal, não seria? Diferente de você, eu tomaria a iniciativa…

Escutei um barulho irritante. Nervoso, decidi olhar pela janela o responsável: um pivete brincando de aviãozinho de papel no pátio.

Deixei o frasco em cima da cabeceira e fui até a gaveta do guarda-roupa buscar aquela foto. Era eu, moleque, e você ao meu lado segurando o trenzinho.

Um cheiro amarelado e forte tomou o ar do meu quarto. Odiaria roseiras por toda vida.

“Não será uma desistência, fique claro!”

Deixei a foto em cima da cabeceira.

- Amanhã, papai… Amanhã, sem arrependimentos.


Written by Nandinha in: Agenda,Contos,Nandinha |

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