Invasão
Escritor: Rodolfo Bertoli
Colecionada em seu quarto muitos objetos que remetiam a sua fascinação pela vida extraterrena, havia em seus artigos de pesquisas a certeza que dentro em breve eles chegariam aqui, por mais que falasse e tentasse alertar as pessoas nem sua família levava essa possibilidade a sério.
Pelo seu entusiasmo e constante insistencia no assunto, ganhou no bairro o apelido de ET sendo muito querido pelos vizinhos e amigos, recebia em sua casa quem quisesse para explicar o tema e mostrar suas coleções curiosas espalhadas pela casa, haviam greys, reptilianos, humanóides com chifres, olhos grandes, braços longos, alguns aracnídeos e os mais diversos meios de tranportes, discos voadores ovais, elipsais, redondons, enfim, todas as possíveis formas de chegada a Terra.
Por morar em um bairro alto, costumava fazer suas vigílias dalí mesmo, principalmente no verão. Numa dessas noites via as estrelas um pouco apagadas, cobertas pelas nuvens de poluição da cidade e cercado por prédios, sonhava esperançoso em receber algum sinal, uma mensagem e assim ficava mais uma noite acordado esperando a hora, o dia que Homem iria encontrar a resposta para seu destino, seja lá qual fosse o resultado, para o bem ou mal de sua existência.
No porão, reformado pela sua mãe especialmente para suas melhores acomodações, incluía um telescópio o qual vivia olhando para céu. Em uma noite típica de sua vigília resmungava a si mesmo:
- Parece que hoje vai ser uma noite como tantas outras, cheia de pernilongos e refrigerante.
Ligou os monitores de seu computador, as câmeras e uma TV onde via pela centésima vez mais um filme sobre invasão extraterrestre, havia escolhido O Dia em que Terra Parou na versão origianal de 1951.
A noite seguiu calma, soilenciosa, com o som da cidade lá em baixo, Afonso não resistiu e pegou no sono, acordou ao amanhecer ao som do carro do vizinho que chegava da balada, para ele, a sensação era como se não tivesse dormido e ao olhar em volta, tudo estava como havia deixado.
Voltou-se aos monitores onde gravou imagens do telescópio durante a noite, salvou o arquivo, rapidamente foi até o pequeno banheiro adjacente a sala, jogou uma água no rosto, resmungou novamente:
- Que estranho, posso jurar que vi alguma coisa, eu vi, não foi um sonho – encarando-se no espelho repetiu em voz alta – Eu vi! Eu Vi! – dizia si mesmo, num movimento desesperado por auto-afirmação.
Voltou à sala onde estava, abriu a porta, para o cachorro sair, jogou-se na cadeira e passou lentamente a gravação vendo cada imagem daquela noite, até finalmente encontrar, um risco, um ponto, aproximou o zoom e repetiu a cena, viu o ponto se mover de forma irregular, alternando cores e intensidade de luz, comentou a descoberta como se estivesse acompanhado por mais dez pessoas.
- Ali! Eu vi! Veja Benjamim – dizia ao gato que descansava preguisosamente em cima da escrivaninha – Você pode ver? – Apontava para o monitor.
Em mais cinco minutos de análise, recordou completamente de seu sonho, empalideceu, sentou no sofá, colocou as mãos na cabeça:
- Droga! Eles tão vindo!
Enquanto isso, sua família tomava café da manhã, era sexta-feira e o final de semana estava começando, seria como muitos outros, sua mãe faria compras na feira, sua irmã receberia os amigos para jogar videogame quando Afonso apareceu na cozinha desesperado.
- Vocês precisam saber! Eles estão vindo!
- Já sabemos disso desde o dia que você começou a juntar aquele monte de livros no seu quarto. – Disse seu pai sem ter esboçado a menor surpresa.
- Não! É sério! Eu ví! Eles me avisaram por sonho!
- Ah Afonsinho, dá um tempo! – falou a irmã que terminava de arrumar a manteiga no pão – Com bilhões de pessoas na Terra, você acha que seria você a pessoa que eles informariam? Que bobagem… – sacudindo a cabeça.
- Não! Não é bobagem! – caminhou para fora da cozinha, na laje descoberta próximo as escadas. Olhou para céus, aguardou alguns minutos e exclamou novamente:
- Olha lá! Há! Eu disse! Tomem essa todos vocês! – Riu um misto de euforia e medo que começou a tomar conta dele.
Via no céu pequenos pontos surgirem de diversas cores: azuis, verdes, amarelas, pouco a pouco iam tornado-se extremamente brilhantes, alguns riscavam o céu numa espécie de triangulo giratório e sem rumo contínuo, como se estivessem dançando.
- Oh meu Deus! Parece mesmo algo estranho! – Comentou a mãe, a primeira a dar crédito para as palavras do filho.
Logo a irmã que descreditava veio atrás dele:
- Olha outros pontos daquele lado!
- Quem diria outros ali também – disse o pai apontando em outra direção querendo não acreditar.
Um grupo após outro começou a aparecer e logo todo o céu estava tomado por incontáveis naves alienígenas!
- Ráa! – deu um tapa com as mãos como se batesse uma palma – Fala pra mim que não são reais e isso é coisa da minha cabeça! Me diz! Me diz agora! – dizia Afonsinho a todos como se tentando arrancar um pedido de desculpas pela falta de crédito mas caindo em si, olhou pavorosamente para a mãe:
- Mãe! Preciso fugir. Eles vão vir atrás de mim! Eu sei demais! Eles me diesseram no sonho!
Assim que acabou de falar tocaram a campainha, seu pai foi até a janela viu um homem de terno preto, óculos escuro e falava em um rádio com um fone em seu ouvido.
- Ora mais… Como assim? – resmungou seu pai olhando por detrás da cortina.
- Não! Agora não! – Afonso caminhou para perto de seu pai – Ainda falta algo maior! – Foi até a outra janela e também olhou por trás da cortina e exclamou:
- Estes não são verdadeiros! Droga!
- Como não meu filho? Estes não são o que vinham? Você precisa atendê-los – caminhando em sua direção e com um olhar estranho.
- Não pai! Não de vazão a estes pensamentos! – Recuou até para a porta, virou-se e desceu correndo ao porão.
- Não filho! Não entre mais ai – dizia sua mãe com os olhos estranhos, iguais a de seu pai, pareciam emanar um luz verde da cor dos triângulos cruzantes no céu.
- Você não vai mais poder falar – dizia a irmã em cima do sofá, pronta para pular em sua direção.
- Vocês estão loucos! – Correu em direção a rua se deparando com o homem que havia tocado a campanhia. Havia outros que esperavam mais acima e não via de onde poderiam ter aparecido, não havia nenhum carro parado próximo ao portão.
Enquanto tentava correr, percebia que os homens sorriam ironicamente, um deles falou com a voz de sua mãe:
- Olá Afonsinho! Não precisa ter medo, sempre estivemos aqui te vigiando. Venha, vamos te levar pra casa.
- Não! Eu preciso emitir o alerta! Não… – Aos poucos, sentia seus movimentos ficarem difíceis, tentava correr, mas se sentia dentro de um sonho como se não conseguisse cordenar seus membros
Pouco a pouco foi sentido sua pressão cair, sentiu alguém apertar seu braço esquerdo, um dos homens o havia segurado, foi inevitável, caiu no chão de costas, viu uma grande nave em formato trinagular emanando uma luz verde reuluzente com círculos que se moviam em anéis de luzes diversas em movimentos inversos pousando sobre o quarteirão.
Uma porta se abriu, segurado por dois homens de preto, viu seus pais dentro da nave sentados como se descançasem numa sala de estar usando óculos escuros.
Não conseguia se concentrar, sua pressão o fez desmaiar como se visse apenas aquela imagem.
Enquanto isso, um dos homens de preto, caminhou para o interior da casa, ficou impressionado com a quantidade de figuras e bonecos que encontrou, no porão de Afonso olhava curiosamente para cada uma até chegar a uma que valeu tirar os óculos, era pequeno e engraçado, parecia um cachorro feito de espuma cinza mal recortada, tinha um pequeno botão na base que o homem apertou, os olhos acenderam emitindo uma luz branca e uma frase alarmista, dizia “Que busquem conhecimento”.
Riu, colocou o objeto no bolso e partiu com os demais.
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