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Aug
31
2011

Lobo Marcado

Escritor: Lucas Martins

Universo de Dragões de Eter

Foi ali que Brooke conheceu as bruxas.
O professor falava sobre a Caçada de Bruxas do grande rei Branford. As palavras o apavoraram. Ouviu sobre bruxas canibais e rituais de magia negra que sugavam a vida de seres vivos para prolongar a das feiticeiras.

—… Mas Primo Branford liderou a Caçada e as bruxas foram exterminadas. — ele rosnou como quem se lembra com amargor de um passado horrível, e sussurrou — Malditas.
Um dos alunos observava mais curioso, talvez tenha sido o único a o praguejar
Depois da aula o garoto foi falar com o professor. Pediu para falar-lhe mais sobre as bruxas. O velho fitou o aluno por alguns segundos antes de falar.
— Essa não é uma história que eu goste de lembrar garoto, mas vocês crianças tem que saber do que esses demônios são capazes. Eu vi homens caírem mortos e seus corpos apodrecerem somente por pisar nas armadilhas preparadas por elas. Eu vi muitas delas serem queimadas… Que queimassem mais dez vezes… E mais cem vezes.
E ali o menino Brooke sentiu medo das bruxas.

Noutro dia na rua viu uma mulher de roupas velhas andando vagarosamente próxima a ele. Ela tinha um capuz cobrindo-lhe a cabeça. Achou que era uma mendiga. De bom coração, pôs a mão no bolso e tirou dele algumas moedas. Tentou aproximar-se dela, mas a mulher notou sua presença e apressou-se para esconder-se num beco escuro. O menino a seguiu.
— Espere só quero lhe ajudar com algum dinheiro. Não é muito, mas…
Seu coração acelerou. De repente foi como se não houvesse outro som no mundo além daquele choro eu vinha do fim do beco. Ele tentou, mas não viu ninguém. Pensou em ir embora, mas uma voz esganiçada o fez parar e arrepiar todos os pelos do seu corpo.
— Elas não eram más. Não, não eram. As de Bruja eram más, mas nós não. Nós só queríamos conhecer a natureza. Só isso, eu juro… Era só isso. Nem todas as bruxas são más.
E a velha veio da escuridão e tentou tocar o menino, mas ele recuou amedrontado e ela caiu. O choro parou e ela passou a falar num tom de raiva.
— Primo era insaciável. Ele queria todas. Brancas e Negras. Ele queimou todas. Minhas amigas… Minhas irmãs… ELE AS QUEIMOU. QUEIMOU TODAS. — A mulher levantou-se e, dessa vez, conseguiu tocar os ombros do garoto. Ele olhou seu rosto. Mesmo que fossem perceptíveis os primeiros traços da velhice, ele era inacreditavelmente belo. Exceto pelos olhos. Tinha os olhos cinzentos e desfocados e seu olhar se perdia no ar. Era cega.
— O Rei não é um herói… Não. É um assassino. Ele matou crianças, grávidas… Inocentes… Muitas inocentes. — A mulher o soltou, caminhou lentamente de volta à rua e começou a chorar novamente. — Elas não mereciam… Não mereciam…
O garoto estava chocado. Tremendo, as lágrimas desceram-lhe pelas bochechas.
E ali o menino Brooke sentiu pena das bruxas.

O garoto muito novo deixou a escola para ajudar o pai no trabalho de lenhador. Passava dias inteiros carregando pesadas toras que o faziam dormir com os braços doloridos e inchados.
Um dia seu pai mandou-lhe catar cipós na floresta para usá-las como cordas. Cansado ele adentrou a floresta chutando as folhas do chão e jogando sobre os ombros os cipós que serviriam. Depois de muitíssimos minutos estava com peso demais sobre os ombros. Andara demais também. Respirou fundo. Sentou-se à sombra de uma árvore e caiu em sono profundo.
Quando acordou já era noite. Ficou de pé num pulo agarrou os cipós que tinham caído e correu para o lado que devia ser o certo. Já passara muito da hora de voltar pra casa. Brooke correu por alguns minutos, mas não parecia que estava se aproximando de uma saída. Quis chorar. Era só uma criança afinal.
Então ouviu um ruído que o paralisou de susto. Não era só um ruído. Eram vários. Pareciam vir de todos os lados. Quando finalmente abriu os olhos, com o coração ainda palpitando violentamente, o garoto procurou de onde vinha o som. Acalmou-se e percebeu que os ruídos eram vozes. As vozes cantavam em uma linguagem estranha. E então as viu. Estavam todas encapuzadas, cerca de dez mulheres giravam em torno de uma fogueira. Alguns animais as acompanhavam: cachorros, esquilos, ursos… Metade deles sobre apenas duas patas.
A principio tudo lhe pareceu muito estranho, assustador até, porém algo naquela dança macabra o encantou. Se lhe perguntassem o que, o garoto não saberia responder. Sabia que as leis eram claras e tinha que denunciá-las. Mas a dança, as vozes, a magia…
E ali o menino Brooke se apaixonou pelas bruxas.

Sumir por tantas horas lhe custou uma surra naquele dia. Mas ele não se importou, pois valera a pena. Na madrugada do dia seguinte o garoto pulou a janela do quarto e correu para a floresta para procurar as bruxas. E as encontrou. Faziam um ritual. As canções eram diferentes das de antes, essas eram mais graves e mórbidas. Os animais desta vez estavam deitados. Ainda estavam vivos até que os cantos aumentaram de intensidade e algo luminoso e disforme saiu de cada um deles. Pareciam estar sofrendo. Eram almas.
Brooke tentou esquecer o que vira, mas quanto mais tentava mais as imagens atormentavam-lhe a mente. Passou a noite acordado. Decidiu que falaria com a Guarda Real assim que o sol nascesse. Mas algo aconteceu antes do amanhecer. Ouviu um grito. Era sua mãe. Correu para socorrê-la, mas ela não estava ferida, apenas desesperada.
— Minha filha. Onde está minha filha?
Sua irmã tinha sumido. Tinha apenas dois anos. Alguém a levara.
Em poucos minutos os vizinhos já estavam ajudando sua família. Perguntavam todos se alguém vira alguma coisa. Acionaram a Guarda Real e tomaram o rumo das estradas para parar qualquer desconhecido. Mas Brooke sabia que era perda de tempo. Algo lhe dizia que a culpa era das bruxas. Tinha certeza, mas não podia falar pra ninguém. O medo não deixava.
Horas depois, com o sol já a pino e nenhuma resposta, o garoto decidiu entrar na floresta. O medo não tinha diminuído, só não quis ter que explicar como sabia que a irmã estava no local de um ritual de magia negra. Caminhou receoso por alguns minutos e entrou no tuneis de árvores que certamente não tinham sido exploradas pela equipe de busca. Estava perto.
Então viu o que temia. No mesmo lugar em que se apaixonara pelas danças macabras das bruxas estavam ossos pequeninos cheios de carne e sangue. À volta estavam as roupas rasgadas da criança.
Ele ajoelhou-se em estado de choque. Sabia que a culpa era dele. Se tivesse as entregado antes… Se não tivesse se deixado enfeitiçar pela bruxaria…
O dor e a raiva eram grandes demais para serem liberadas apenas por lágrimas.
Malditas.
Gritou.
E ali o menino Brooke odiou as bruxas.

O menino virou homem. Tornou-se um homem triste e amargurado. Não constituiu família. Pelo contrário. Viu a sua ficar para trás um por um, mesmo que não tivessem muitos para deixar para trás. A primeira foi sua mãe que morreu de desgosto pela morte da filha. Fato que só agravou a profunda culpa que Brooke sentia.
Anos depois, angustiado, contou ao pai envelhecido pelo trabalho pesado tudo o que acontecera naquela noite terrível. O velho nada disse. Apenas olhou-o nos olhos e continuou em silencio pelo mês seguinte. O mesmo que antecedeu sua morte.
A vida de Brooke se resumia a trabalhar exaustivamente durante o dia. Chorar antes de dormir. E acordar todas as noites de pesadelos com as mesmas bruxas. De novo. E de novo. E de novo.
Se não fosse aquelas bruxas… Malditas.
Por anos ele entrava na floresta durante as madrugadas para ir à mesma clareira em que sua irmã foi achada rezando para encontrar as bruxas e ter sua sede de vingança saciada, mas só encontrava mato emaranhado em pedras e musgo. Parou de ir. Percebeu que as bruxas tinham ido para sempre levando a alma de sua irmã e até a dele próprio.
Mas certa noite acordou suado de mais um pesadelo quando ouviu um ruído. Ele conhecia aquele ruído. Levantou rápido, pegou o primeiro machado que conseguiu encontrar e correu para dentro da floresta. Era noite de lua cheia e a estava tudo muito claro. Conseguiu encontrar o local com muita facilidade. Fizera aquele caminho centenas de vezes. Novamente as mulheres cantavam e giravam em volta de uma fogueira.
Desta vez sem animais. Elas entoavam um canto diferente de tudo o que Brooke já ouvira antes.
Desta vez não tinham capuzes. Tinham rostos decrépitos e verruguentos que expeliam gosmas multicoloridas e repugnantes.
Desta vez não o encantaram. Com a lâmina nas mãos só pensava em cortar a cabeça de cada uma delas.
Finalmente!
Enlouquecido ele pulou das trevas para o centro do círculo, mas o máximo que conseguiu foi muito violentamente rasgar o ar. Seu corpo congelou imediatamente e parou estático no ar.
As bruxas olharam-no com espanto. Uma delas pegou uma faca em algum lugar e colocou-a no pescoço dele que se debatia mentalmente, mas não movia um músculo.
— Ora, ora… Um Intruso… Que tal a morte meu queridinho?
— Mate-o logo! — gritou uma delas.
Brooke, com toda a força de seu ser conseguiu mover o machado por um segundo e gritou “Malditas”, mas logo congelou novamente e sua arma lhe foi tirada.
— Não! — disse a que devia ser a líder. — Ele é muito forte.
— E daí?
—… Ele nos era útil.
A líder disse algumas palavras estranhas e algo ocorreu. Pelos negros e espessos começaram a nascer na pele dele. Sua coluna se curvou e todo seu corpo entrou em metamorfose.
Malditas!
Perdeu a consciência. Não controlava mais aquilo que tinha sido seu corpo. Não era mais humano.
—Queremos que mate alguém… Uma menina do chapéu branco.
O menino Brooke era agora um lobo.

Comentem por favor.


Categorias: Agenda,Contos | Tags: , ,

1 Comment»

  • Priscilla Rubia says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Gostei do conto, a narrativa é boa, porém algumas vezes pode ficar confuso devido a pequenos erros, como a troca de “ela” por “ele” como aqui:
    “A mulher levantou-se e, dessa vez, conseguiu tocar os ombros do garoto. Ele olhou seu rosto. Mesmo que fossem perceptíveis os primeiros traços da velhice, ele era inacreditavelmente belo. Exceto pelos olhos. Tinha os olhos cinzentos e desfocados e seu olhar se perdia no ar. Era cega.”
    Pelo que eu entendi era pra ser “ela era inacreditavalmente bela”, não?
    E a “comida” de algumas letras pode causar confusão também, como aqui: “—… Ele nos era útil.”
    Ele nos era ou ele nos será?
    Porém isso é facilmente reparado, só dar uma revisão antes da postagem. Eu aconselho você a pedir alguém para fazê-lo. Muitas das vezes leio um conto que escrevi diversas vezes e mesmo assim não reparo em pequenos erros como esses.
    Vai ter continuação né? Fico no aguardo!

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