Noites de Luar: Um adeus sob o luar
Escritor: Gustavo Martins
Parte 3: Um adeus sob o Luar
A noite estava fria e nublada. Havia mais luzes visíveis na cidade do que estrelas no céu. Não era por menos que chamavam essa cidade de “Cidade Luz”. Para onde quer que eu olhasse haviam lâmpadas piscando, mas havia um lugar que brilhava mais que todos. Uma enorme construção de ferro forrada por um tapete de estrelas de vidro. A grande torre de metal apontada como uma lança no meio daquela cidade. Ela estava lá a mais tempo do que eu vivi.
Eram oito horas quando ouvi alguém bater na porta. Aquilo era estranho já que eu não conhecia ninguém e não achava que alguém iria querer comprar algo num dia como aquele, ao menos não na minha mercearia.
Desci pelas escadas de madeira sem muita pressa. Quando abri a porta caí sentado.
Na minha frente, num vestido branco de várias camadas, cujo lado direito na altura da perna possuía um corte que deixava todo o membro à mostra. Seu cabelo longo estava preso por uma enorme fita vermelha que ia até as costas.
Nenhuma palavra que eu possa dizer conseguiria descrever tudo que senti ao vê-la naquele momento.
“Você está bem?”
Ela perguntou com uma voz estranhamente preocupada. Jamais antes ela havia mostrado um sentimento assim na voz.
A garota me estendeu a mão. Segurei firmemente nela para me levantar, sem precisar me preocupar em machucá-la já que a força dela superava em muito a minha.
“Obrigado.”
Disse enquanto limpava o pó da minha calça.
Tranquei a porta e juntos fomos em direção às barracas do festival. Enquanto passávamos pelas ruas os olhares de todos os homens se voltavam para nós. Apesar de incômodo para mim, ela parecia não ligar para aquilo.
Enfim chegamos às barracas. A mistura das vozes de todos que estavam lá junto com a música cantada pela voz de uma famosa cantora e ainda toda aquela luz tornavam a situação caótica. Tudo aquilo era um tanto estranho para mim, porém ela apenas corria de uma barraca para outra.
Lembrei-me da razão dela estar aqui. Talvez aquele fosse o mundo que ela buscou. Um mundo onde as pessoas só se importavam em ser felizes e fazer os outros felizes. Toda aquela alegria infantil fazia sentido, afinal ela finalmente encontrou o mundo que buscava.
Por um instante a perdi de vista. Olhei para todos os lados até vê-la numa barraca de doces. Quando ela se virou tinha em cada mão uma maçã caramelada. Esticando a mão direita ofereceu uma para mim.
“Obrigado.”
Foi o que disse pegando o doce e dando uma mordida.
Caminhamos até chegar a um parque onde sentamos num banco sob uma enorme laranjeira.
“É divertido.”
Ela disse enquanto olhava de um lado para o outro no céu.
“O que você está procurando?”
“A lua.”
Ela disse ainda procurando.
“Por que você sempre fica olhando para a lua?”
Não pude evitar de perguntar. Aquilo me martelava desde que nos conhecemos.
“Porque independente do que aconteça, independente de quanto te odeiem, a lua sempre vai sorrir para você.”
Acho que aquilo significava muito para ela.
“Achei!”
Ela disse enquanto apontava para a grande luz no céu.
Olhei para a mesma direção que ela e lá vi a lua crescente.
“O que é um beijo?”
Ela perguntou sem parar de olhar para a lua.
“O quê?”
Perguntei um tanto nervoso.
“Você me ouviu.”
“Bem… acho que a melhor maneira de explicar é mostrando.”
Foi tudo o que pensei em dizer.
“Pode ser agora?”
Meu rosto se aproximou do dela pouco-a-pouco até que nossos lábios se encontraram. A sensação macia correu por entre meu sistema nervoso e instintivamente fechei os meus olhos. A respiração leve fazia cócegas em mim. Abracei-a pelo resto do beijo até que não pude mais suportar:
“Então é isso?”
Ela disse calmamente.
“É. O que achou?”
“Eu gostei.”
De repente um som alto tomou conta de do local. Gritos vindos das barracas puderam ser ouvidos e uma fumaça negra se ergueu. Um som alto se destacou de todos mais. Um som que significava perigo, um som que significava morte. O som de um tiro.
A revolução havia começado.
Ha! Que belo dia eles escolheram para começar!
Eu não sabia o que fazer, estava irritado, assustado, preocupado e tantas outras coisas que eu mal podia me controlar.
“Droga, droga! Por que eles tinham que fazer isso justo hoje!”
Exclamei enquanto me levantava do banco e olhava para a cidade de onde vinham gritos que imploravam por ajuda.
“O que está acontecendo?”
Na hora achei que ela estivesse falando sobre a cidade, mas agora entendo que era de mim que ela queria saber.
“Guerra!”
Falei enquanto me colocava minhas mãos sobre a cabeça.
“Guerra?”
Ela perguntou num tom tão tranquilo que, naquela hora, me irritou.
“É, guerra” – gritei enquanto a colocava frente a frente para mim – “Guerra! Pessoas se matando! Tiros! Explosões! Sangue! Consegue entender?”
“Você está bem?”
Foi o que ela me respondeu. Não consegui me controlar.
“Como posso estar bem? Está acontecendo uma guerra, droga!” Lágrimas começaram a sair dos meus olhos. Caí no chão, chorando. Não conseguia pensar, não conseguia me mover, só conseguia ficar lá chorando.
De repente um homem armado com uma arma que nunca tinha visto chegou onde estávamos.
“Parados!”
Foi o que ele gritou enquanto apontava a arma em nossa direção.
“Acabou, ele vai nos matar…”
Foi tudo que pude dizer. Sentia que aquele era o fim. Não havia salvação. Independente do que eu fizesse nós morreríamos ali.
Nós…
Morreríamos…?
…
Não…
Não me importava em morrer mas não podia permitir que o mesmo acontecesse com ela!
Passei a mão pelo bolso procurando a velha faca que meu avô um dia havia me dado. Ela estava lá. Peguei-a de um jeito que achei o homem não poderia perceber. E então esperei. Esperei um momento no qual eu pudesse agir. O homem se aproximou de nós e apontou aquela estranha arma para mim.
“Levante.”
Foi o que ele me ordenou.
Hesitei por um segundo.
“Já disse para levantar!”
Ele gritou enquanto balançava a arma.
Era isso! Aquela era a chance de que eu precisava! Movi-me o mais rápido que pude e…
Senti algo quente em mim. No instante seguinte estava deitado no chão com um líquido vermelho me cercando.
Minha visão começou a escurecer. Não conseguia mover um músculo sequer.
E então tudo ficou preto.
…
…
…
…
No meio da escuridão vi aquela garota. O vestido branco tinha diversas manchas vermelhas e os olhos pareciam tristes. Olhei para o lado e vi que estávamos no telhado onde nos conhecemos. A lua cheia brilhava no céu e tudo estava em silêncio.
“Isso é real?”
Eu perguntei.
“Em parte.”
Ela disse, direta como sempre.
Não consegui dizer nada. Não conseguia nem mesmo entender o que estava acontecendo.
“Foi divertido.”
Foi tudo o que ela disse.
“O que foi divertido?”
“Tudo.”
“Acha mesmo?”
“Foi o que eu disse, não foi?”
Não resisti e comecei a rir. Nunca havia visto ninguém dar uma resposta daquelas. Ela era realmente uma garota única. Mas notei que ela estava triste.
“Qual o problema?”
A pergunta saiu meio que por instinto.
“Não queria que isso terminasse.”
Foi estranho ela perguntar aquilo.
“Terminasse?”
“Assim que essa noite acabar não vamos nos ver nunca mais.”
A voz dela estava chorosa.
“Mas… por quê?”
“Porque duas vidas iguais não podem existir num mesmo mundo.”
“Duas vidas iguais não podem existir num mesmo mundo”? Não entendia o que aquilo significava. Não fazia sentido nenhum! Que tipo de loucura era aquela?
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Pelo minutos mais longos da minha vida.
Ela começou a chorar. Não consegui resistir e também comecei a chorar, pois bem lá no fundo eu sabia exatamente do que ela estava falando. Não queria aceitar, porém sabia que aquele era o fim da linha.
“Por favor, não chore. Quero lembrar de você sorrindo e não chorando!”
Eu disse enquanto me virava para ela como uma criança.
Ela continuou chorando… Eu não queria aquilo. Não queria de maneira nenhuma. Olhei para a lua e vi que pouco-a-pouco ela desaparecia do céu noturno. O tempo estava acabando.
“Obrigado.”
Eu disse.
“O quê?”
Ela perguntou com a voz um pouco menos triste.
“Os dias que passamos foram os melhores da minha vida. E devo tudo isso a você.”
Ela parou de chorar e se virou para a lua que naquele momento já estava quase invisível.
“Não queria que acabasse assim.”
Aquelas palavras doeram em mim. Senti vontade de me entregar ao desespero e me jogar ao chão, chorando desesperadamente. Mas eu não podia. Ao menos uma vez na minha vida eu tinha de fazer algo direito.
“Nem eu. Mas não tem como mudar isso, tem?”
Foi o eu falei fingindo estar confiante.
Ela balançou a cabeça em sinal de negativa.
“Bem… foi bom enquanto durou.”, menti.
“Foi sim.”
Mais alguns minutos de silêncio se seguiram. A lua estava quase desaparecendo quando ela disse algo que fez tudo valer a pena.
“Também tenho que te agradecer. Por sua causa encontrei o mundo que procurava.”
Os últimos raios de luar estavam chegando até nós. Era minha última chance de dizer algo. Aquela seria nossa última conversa. Eu tinha que dizer algo! Mas… o quê? O que eu poderia dizer? O quê?
…
“Então… é adeus?”
Aquilo foi tudo no que consegui pensar.
“É.”
“Por favor, não me esqueça.”
“Eu não conseguiria nem que quisesse, porque… você foi meu primeiro amor.”
Naquele momento ela sorriu de um modo que jamais tinha feito antes. Ela sorriu com todo o coração. Pela primeira vez ela mostrou o verdadeiro sorriso.
E naquele momento a lua desapareceu.
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