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Aug
03
2011

O Despertar do Arcano – Prólogo

Escritor: A.L. Sullivan

— Nunca se esqueça… Sullivan.— disse com dificuldades Bruce em seus últimos momentos entre os vivos. Horário de óbito: 18:32.

Ele esteve certo desde o princípio, as coisas não iam acabar bem e Albert sempre soube, o destino cruel de Bruce foi selado pelo revólver de seu primeiro e melhor amigo em 1 de novembro de 1897.

Em 1904, mais de sete anos se foram desde que Albert Sullivan e Bruce Shinomori cruzaram a perigosa fronteira que os levaria rumo ao fim de suas vidas. Embora não tivesse sido um momento glorioso, pode-se dizer que aquele foi o dia em que os cinco pilares que regem a existência de tudo aquilo que o homem conhece finalmente entraram em seu último estágio de decomposição, e assim, como um homem louco certa vez previu, foi traçado o início do Requiem de Akasha, que ao chegar ao fim levaria consigo toda a existência.

Construída há mais de 200 anos pelo barão Foulstorn em homenagem a sua falecida esposa Victória, a estalagem V. Marine II – renomeada após um incêndio em 1666. – estava localizada na costa norte de Albion cercada em ambos os lados, seja pelo mar ou por montanhas. A única verdadeira forma de acesso era uma pequena trilha do lado sudoeste onde uma das montanhas, menor e menos íngreme que as outras, permitia passagem. Alguns dizem que a escolha do lugar foi um erro grosseiro de Foulstorn, já outros, mais sensacionalistas, afirmam que ele sempre soube que o mundo entraria em colapso e aquela seria uma tentativa de manter os seus descendentes e seus futuros hóspedes afastados da maldição que se espalharia por todo o horizonte.

Passavam das 00:00 quando o confortável som da chuva foi substituído por um grito abafado, no quarto 402 um homem urrava desesperado. O rapaz de cabelos negros e aparência incomum ofegava enquanto apertava o peito com o coração acelerado. Ele era alto, magro – cortesia de uma alimentação duvidosa. – e vestia uma camisa branca de mangas compridas e calças folgadas, que não pareciam lhe servir muito bem. Ele agora encontrava-se encostado na cabeceira, sentado tentando se recompor.

— Albert?! — disse a bela mulher que abrira a porta do quarto. Luna dormia no aposento ao lado quando ouviu o grito e correu temendo algo grave. Ela era uma linda jovem, com um belíssimo corpo e um rosto que mais parecia feito por seres divinos, sua pele era clara, seus olhos verdes e seu cabelo era preto, levemente ondulado descendo e se dividindo em seus ombros, a maior parte seguia até a metade das costas enquanto algumas mexas se curvavam para frente até os seios, que acentuavam a sua beleza, nessa noite ela vestia uma longa camisola de seda branca.

Mesmo após ver que estava tudo bem Luna não parecia estar em paz, e como de costume ela franzia as sobrancelhas e mordia os lábios ao desconfiar de algo, a sua aflição era tanta que a moça – que devia ter aproximadamente 28 anos – não se importava em deixar transparecer sua agonia, aparentemente estava mais assustada do que o próprio Albert.

— Teve uma nova lembrança? — disse angustiada ao se aproximar da cama.

— Não dessa vez… Foi apenas um pesadelo. — ele mentiu, Albert não queria deixar Luna preocupada, apesar de parecer uma tarefa difícil. — Desculpe por isso…

— Tudo bem, eu não conseguia mesmo pegar no sono… Mas… Precisa de alguma coisa? Água com açúcar talvez?

— Não se incomode, sua presença já me deixa mais calmo — Albert sorriu, algo em Luna realmente acalmava ele. Permanecia uma noite estranha, diferente das outras, os dois sabiam disso, mas Albert certamente preferia que Luna não fosse até o seu quarto, ele já tinha em mente o que ela diria a seguir.

— Não é estranho ter um pesadelo depois de tanto tempo? — ela dizia se aproximando. — Ainda mais… — ela segurou a voz por um instante.

— Ainda mais?…

— Não se lembra mesmo que dia é hoje? — com uma das mãos Luna agarrou com força o lençol aos pés da cama, enquanto com a outra ela praticamente esmagava o pingente de seu colar. Aquele momento já era esperado, mas ver Luna assim era doloroso, até mesmo para alguém como Albert. Mas tentando passar certa confiança, ele respirou fundo para responder com um tom firme.

— Sim.

— Mesmo? — por um momento seus olhos quase se afogaram em lágrimas. Albert não sabia bem o que dizer ou fazer, a única coisa que sua mente confusa conseguiu ordenar foi a verdade.

— Essa é a data em que Bruce morreu…

Toda a recuperação espiritual e psicológica pela qual Luna havia se submetido ano após ano sempre se esvaia naquela data. Albert realmente não tinha mais nada para dizer, Luna estava de pé, mas ele sabia que por dentro ela desmoronava completamente.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes. Apesar de tudo, a imagem de Bruce sendo morto foi compartilhada involuntariamente naquela noite, os três sempre souberam dos riscos, a diferença é que cada um nunca pensou que o outro fosse ser a vítima, no fundo eles acreditaram que poderiam solucionar qualquer problema com maestria, mas não foi o que aconteceu e Luna não sabia mais o que responder, então apenas largou o lençol amassado, se virou e foi até a porta.

— Errado, acho que esse é o dia em que nós três morremos… – ela afirmou, pouco antes de sair.

Apesar de ter uma voz serena, suas palavras entravam pelos ouvidos de Albert rasgando as células de seu corpo. Ele ficou parado alguns minutos, refletindo sem saber como agir.  ”Se Bruce estivesse aqui a situação seria outra, ele ao menos saberia ampará-la”, pensou irritado.

— Mas que diabos Albert… – disse para si mesmo. – Até parece que se Shinomori estivesse aqui alguém daria por sua falta.

Algum tempo depois ele se levantou e foi até o banheiro, o quarto era uma suíte pequena, apenas alguns metros quadrados. Além da cama estavam ali uma mesa e uma cadeira também de vime, bem embaixo da única janela do aposento. O quarto apesar de ser pequeno era bem fresco graças as telhas sem forro, que batucavam e cantavam melodiosamente com a chuva caindo e escorrendo rumo a calha. Ao entrar no banheiro, lá estavam um chuveiro, um vaso de cerâmica, uma pia com um espelho simples preso na parede.

“Maldição…”, pensava. Ele foi até a pia, abriu a torneira para a água cair em sua força máxima e em vinte segundos depois mergulhou a cabeça até onde conseguiu, ele ficou ali por pelo menos dois minutos, sua mente estava bagunçada, muitos pensamentos incoerentes lhe castigavam, desde coisas estúpidas até outras mais insanas. Quando se levantou, deu de cara com o próprio reflexo no espelho, seu rosto e cabelos estavam completamente molhados, assim como a sua camisa.

— Covarde… — dizia o reflexo zombeteiro.

— O que você quer de mim? — Albert retrucou olhando para a água que agora fluía da torneira direto para o ralo. O problema de falar com você mesmo é que provavelmente não conseguirá encontrar respostas logo de cara e nem sempre isso funciona. Mesmo assim, foi nesse momento que ele tomou uma decisão, talvez a mais importante da qual ele conseguia recordar.

— Deixe-a para trás e siga com a sua vida! — continuava o reflexo sorridente.

— Luna?… Não posso fazer isso…

— Vê?! Covarde!

— Não sou covarde… Não é covardia proteger alguém que gostamos e admiramos, é?

— Mesmo assim, você me deixou matar Bruce! — berrou o reflexo, que em seguida deu de ombros, debochando.

— Foi necessário, não foi? – Albert dizia inclinando a cabeça, ele já estava praticamente segurando o espelho com as mãos.

— Talvez… Mas quem lhe garante que não havia outra saída?

— Não… Era a única coisa que podia ser feita!

— Será?

— S-Sim! Era! Não era?…

— Veja só! Nem você mesmo acredita.

— Você está errado, apenas fiz o que foi preciso… Pelo bem de Luna!

— Como não percebe? Ficar com a garota será um problema, para ambos! Além disso, você sabe que não faz o tipo dela, se é que me entende…

— O que quer dizer?

— Você sabe… No fundo você também percebe… Ela gosta mais do tipo heróico, principalmente os que tem uma razão para viver.

Albert parou por alguns instantes, apenas olhava a si mesmo, o seu reflexo permanecia rindo vigorosamente.

— Não… Você está errado! — ele disse.

— Viu? É um covarde!

— Não me chame de covarde!

— Covarde…

— Maldito!… Já mandei parar!

— Covarde! Covarde!! Covarde!!! — o reflexo começava a aumentar o próprio tom de voz e Albert ficava furioso consigo mesmo, até que ele disse enraivado:

— Você é o covarde!

Em seguida, ele se viu realizando um furioso soco no espelho, que se partiu em vários pedaços, vidro ensangüentado caiu no chão. Albert ofegava novamente, ele estava nervoso e ao mesmo tempo irritado, mas parecia finalmente ter tomado uma atitude. Ele correu para a porta do quarto, trancando-a em seguida.

— Eu não sou covarde… — dizia com os punhos fechados. O sangue de sua mão direita estava escorrendo por todo o assoalho de madeira, e a própria maçaneta se estava tingida de vermelho.

— Albert?! — uma voz familiar surgia do outro lado batendo e tentando abrir porta, era Luna novamente. Ignorando-a no começo, ele se encostou na porta, e em um tom de voz aparentemente mais calmo, ele disse:

— Luna…

— Albert! — ela respondeu aliviada, mas ainda nervosa. — O que está acontecendo? Por quê trancou a porta?

— Luna… Me perdoe… Não vou mais lhe causar problemas…

— Problemas? Do que está falando? Por favor, me deixe entrar e explique tudo com calma!

— A situação é simples, sempre foi — ele dizia enquanto se afastava, indo em direção da mesa.

— Mal consigo lhe escutar! Não me assuste assim!

— Luna… Se eu prometer que trarei o Bruce de volta, você me perdoaria?

Por um momento a sacerdotisa ficou em silêncio, mas logo ela entendeu o que estava acontecendo e não tardou para a sua voz tremular.

—Não diga besteiras assim! Sabe que não aprovo esse tipo de brincadeira!

Dentro do aposento, Albert olhava para os seus pertences sobre a mesa com certa frieza, ali estavam o seu longo casaco, alguns papéis, uma espingarda e claro, o seu revólver. A torneira aberta no banheiro aos poucos fazia a água transbordar e escorrer pelo chão, alagando o quarto, limpando parcialmente o sangue do chão e saindo pela porta, deixando Luna cada vez mais desesperada. Vozes masculinas eram ouvidas no corredor, alguém agora tentava arrombar o quarto.

— Albert? Não me deixe falando sozinha! O que significa essa água?!

— Vou trazer Bruce de volta… Eu prometo que trarei! — Albert agora estava sentado na cadeira, sorrindo e forçando o revólver contra a própria cabeça.

Instantes depois um grande disparo ocorreu.

— ALBERT! — Luna gritou em desespero.

Quando finalmente conseguiram entrar no quarto, ali estava um homem com um tiro no lado direito da cabeça, um espelho quebrado no banheiro e um revólver no chão. Alguns disseram que foi possível ouvir Albert falando o nome de Luna – a mulher que amava. – mesmo após a bala atravessar sua cabeça, outros dizem que foi o seu espírito recém saído do corpo tentando se despedir. A única coisa que todos concordavam é que aquele foi o dia em que um homem jovem conhecido de nome Albert Sullivan se suicidou, deixando uma nova mancha negra na história da pacata estalagem V. Marine II, que jamais foi a mesma.


Categorias: Agenda,Contos |

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