Escritor: Perpétuos
Últimos dias. Estava encostado no parapeito da janela e via aquela imensa bola de fogo incandescente. Eles nos avisaram, falaram de esperanças, falaram de garantias, falaram de sobrevivência, mas sentia em meu intimo que a mentira reconfortante seria melhor que a verdade. A verdade de que todos nós estaríamos condenados por essa força maior e incontrolável que vem sem avisar e destrói sem deixar rastros.
Era dia e aquela bola escarlate estava cada vez mais próxima de nós como uma bomba relógio avisando o fim. Da janela avistava várias singularidades, pessoas oravam aos céus, outras choravam desesperadas, algumas abraçavam desesperadamente seus familiares e entes queridos. O governo já tentará todas as formas possíveis de pará-lo, mas tudo em vão, sua força colossal fazia-o vir para nos julgar “O juízo final” era o que alguns falavam. Pessoas em sua insanidade ou instinto de sobrevivência subiram montes e montanhas a fim de proteger-se. Como eram tolas. Aquela bola escarlate aniquilaria tudo e a todos. Não adiantava onde estivesse na terra o sopro da morte chegaria até você mais cedo ou mais tarde.
Restava pouco tempo até a aniquilação, eu estava calmo, talvez tivesse aceitado tudo abertamente, de que o mundo que conheço deixaria de existir e tudo que faria daqui em diante não teria mais sentido nenhum. Minha vida, minhas lembranças, minha existência tudo isso agora era fútil e desnecessário para mim. Ou talvez ao invés de tudo isso estivesse ficando louco como muitos. Alguns muitos desses que também se mataram para evitar o sofrimento por mais tempo de perder tudo e todos.
Só uma coisa passava em minha mente nesses dias sombrios, o desejo de ver a única pessoa que amei em toda minha vida, uma última vez, um último olhar, um último toque, uma última palavra. Por que a perdi tão cedo? Deus, se ele existir não deve me amar de modo algum. E mesmo agora perto do fim meu desejo de vê-la é maior do que tudo. Pouco me importa o desespero dessas pessoas, pouco me importa Deus, pouco me importa o mundo! Só desejo aquele sentimento quente e confortável de volta.
Afastei-me um pouco da janela, fui à cama, onde a foto dela estava ao lado da mesma. Olhei-a observando cada detalhe da fotografia talvez receasse esquecer seu rosto nos momentos finais. Sentei-me na cama, as lágrimas caíram, há muito tempo não caiam, estava com esse sentimento engasgado e agora colocará tudo para fora.
Agora minha muralha caíra e finalmente esses sentimentos chegaram a mim. Deitei-me e deixei fluir, olhando para a foto adormeci torcendo para ver seu rosto angelical em meus sonhos.
Chegara o dia do juízo, aquilo estava perto demais. O céu escureceu, ouviram-se gritos, um grande barulho seguiu-se, um som de caos e destruição tomava forma, a terra começou a estremecer talvez esse fosse o sinal que a bíblia tanto fala no Livro de João “o soar da sétima trombeta” e a sétima estava para soar anunciando o fim de tudo na terra. Olhei para a janela e uma onda de morte e dor estava chegando, qualquer reação era inútil contra aquilo então aquele sopro escarlate de morte chegou até minha existência mortal e nesse momento ouve um lampejo em minha mente e assim disse para mim mesmo:
“Finalmente irei revê-la, talvez Deus não seja tão ruim”.