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Aug
03
2011

O Espantalho

Escritor: Antonio de Souza

Em memória de Matthew Shepard.

 

A dor havia já há muito se perdido dentro de si mesma, dentro de suas profundezas agonizantes, e dado lugar a um tipo obtuso de ausência, a uma dormência de proporções imensuráveis, jamais pelo jovem mesmo imaginada. A carne sublimava-se em nuvem de indiferença, o tato que a condicionava a si mesma e a moldava tornava-se apenas uma palavra qualquer esquecida por entre as páginas de um dicionário envelhecido em alguma estante ignota, coberta de poeira. A matéria tinha-se feito etérea, inexistente; era não muito mais que um sussurro da memória, uma lembrança do que podia ter sido algum momento antes daquele sonho sonâmbulo no qual vivia. O homem, que agora mal podia ser reconhecido como tal, era agora apenas um receptáculo sem vida, incapaz de emitir sons, de mover-se, de sentir o toque. Era apenas um corpo cansado ali dependurado, invisível e silente. Morto.

O sangue carmesim cobria o rosto antes angelical, agora macerado, mutilado, assaltado pelos animais que o abordaram tão amigavelmente algumas horas antes. Vieram com palavras de amizade e estima a confundir o silvo ofídio. Seus gestos gentis e olhares claros não passavam de subterfúgio para suas intenções mesquinhas e a chama de ódio que lhes servia de motor. As criaturas abismais gostavam de chamarem-se homens, mas eu as denominaria bestas, demônios. O sangue que sobre a pele macia escorria trazia em si a lembrança dos golpes repentinos e repetidos, do aço de suas armas chocando-se contra os ossos frágeis e do romper da carne em ferimentos abertos e tímidas lacerações. Escorrera a vida rubra que se escondia sob as camadas fúteis de sua carne e epiderme em cataratas de horror, tingindo-lhe a camisa alva, agora riscada com sua alma mesma. Foram lavados os espaços debaixo de seus olhos pelas lágrimas que lhe brotavam incessantes das pálpebras inchadas, confusas por não saberem o porquê de tamanha ira.

 

A garganta doía ainda; era possivelmente a única coisa em seu corpo ainda capaz de tanto, ainda viva o suficiente. Suas paredes ardiam de tanto urrar e suplicar por socorro ou clemência; queimavam com os pedidos surdos e questionamentos humilhantes. Brutalizadas foram por mãos intolerantes que as envolveram e apertaram, sufocantes e malditas. Jamais o homem poderia emitir o som claro e jovial de sua voz; jamais seriam ouvidas suas risadas amáveis e vívidas ou o canto baixo e monótono que costumava acompanhar as suas canções prediletas. Morreram para o mundo os seus conselhos, suas histórias. Desapareceram suas declarações de amor, suas bravatas infantis, seus sonhos de grandeza. Sua voz se fora, para sempre.

 

Seu peito fora estirado e seus antebraços dobrados por sobre a cerca de madeira crua, amarrados apertadamente a ela por cordas ásperas e cruéis, ali dispostas com o objetivo único de proporcionar-lhe maior desconforto, quiçá dor. Mas dor já não o podia sentir a carne. De tão castigada, acostumara-se às pancadas, ao ardor e ao incômodo. Suas pernas caíam triste e tolamente em direção ao chão, leves e inconspícuas, estáveis. Se não se moviam debilmente como os membros imprecisos dum enforcado, assim o era apenas pelo fato de que a cerca lhes dava alguma estabilidade, nada mais. A cabeça pendia para frente, à mercê das intempéries e da passagem vagarosa do tempo. Os cabelos loiros desarrumados, escurecidos pelo sangue que lhes cobria, moviam-se parcamente, seguindo uma lufada eventual de vento que porventura lhes soprasse. Era, para todos os efeitos, apenas um cadáver preso à madeira.

 

Uma caminhonete qualquer passou tranqüila e indiferente ao longo da estrada próxima. O som dos pneus e do motor foi capturado pelos ouvidos fracos. Todos os seus instintos urraram em uníssono, desesperados, mas não havia nele forças suficientes para um grito sequer por ajuda. Todos os berros e sussurros deixaram seus pulmões agora vazios e inabitáveis. Apenas outra lágrima ousou deixar o berço de seus olhos e deslizar, calma e displicentemente pela distância até seu queixo.

 

Uma onda fraca de calor começou a banhar sua mão esquerda, subindo devagar pelo seu braço. Adivinhava o nascer do sol a suas costas, desejando apenas que pudesse vê-lo pelo que sabia seria a última vez. Queria admirar o astro surgir além do milharal e subir por um céu claro e despido de nuvens, magnífico e triunfal em sua ascensão diária. Queria poder sentir o calor sobre seu rosto, sobre seu peito. Queria um último resquício de satisfação, de felicidade, mas não teria mais que frustração, que silêncio.

 

Ouviu penas negras moverem-se rapidamente em sua direção, dançando, alçadas pelo vento. Ouviu pequenas garras pousarem sobre a madeira próxima a seu braço direito e podia jurar que sentia pequenos olhos fixarem-se sobre sua figura patética. Eram em verdade os olhos de um corvo nigérrimo, dois pontos escuros no vazio de uma noite de penas. A ave aziaga examinou-o, estudou-o por alguns instantes, tocando seu braço suavemente com seu bico uma ou duas vezes.

 

“Que crime tu cometeste, ó desgraçado espantalho?” Gralhou com sua voz até então ininteligível. “Que fizeste para ser merecedor de tal sina, de tal castigo? Que signo ruim te caiu sobre o cenho ou que desgostosa maldição te foi rogada?”

 

Queria o homem poder revelar ao ouvido amigo o porquê de lhe ser colhida a vida de forma tão cruel, mas as palavras moribundas apenas degeneravam em cinzas no fundo de sua boca semimorta. Não podia dizer que o único crime que cometera fora deixar-se amar, deixar-se levar pelas estradas oníricas pelas quais Eros o arrastava ao invés de simplesmente orientar. Quisera poder divagar sobre a natureza dos sentimentos afáveis e de nada prejudiciais que foram cultivados dentro de seu peito, por mãos desconhecidas e claramente mais poderosas que sua volição tão humana.

 

Fora amor o seu crime, fora esse o selo de sua sentença. Caíra – que não há melhor vocábulo para demonstrar a força com que somos arremessados no poço do amor e da atração, sendo tolos hipócritas ou parvos os que pensam poder selecionar os alvos de seus arroubos – vítima das flechas tortuosas de Cupido, desejando assim outro semelhante a ele. Apaixonara-se então pelas formas mais firmes e retilíneas, pelos tons mais graves e de maior estabilidade, pelos afagos mais fortes, mais decididos. Sentira-se então acender pelos lábios masculinos e pelas mãos mais ásperas. Lutara, sim, contra tais sentimentos, mas afrontá-los era afrontar sua própria natureza, era afrontar seu cerne inabalável, seu “eu” imutável, então logo desistira do vão certame, que nada poderia trazer além de cansaço e depressão.

 

Seu crime fora ser ele mesmo, algo o que não podia mudar pelo querer dos demais ou pela simples vontade de fazê-lo. Seu crime fora não poder lutar contra a forma em que os Deuses esculpiram-no, contra aquilo que nos comanda o âmago e define o ser. Seu crime fora o mais insubstancial e metafísico, seu crime fora meramente existir…


Written by Antonio M. Souza in: Agenda,Antonio de Souza,Contos |

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