O velório de Abílio Dinis
Escritor: Thiago Vieira
— E-Ele se-sempre foi um ótimo ma-ma-marido! – Os soluços impediam uma frase coesa, mas – ainda assim – insistia a senhora Dinis em dizer em meio a todos. O vestido negro esforçava-se para não estourar por entre as banhas que se amontoavam em diversas camadas ao longo do tronco da viúva. Os óculos escuros escondiam as lágrimas e tinham a companhia de um lenço de papel que limpava as olheiras fartas e escuras de seu rosto repuxado pelo botox.
Abílio Dinis, um empresário de sucesso do ramo de automóveis, morreu em casa ao lado de seus familiares. “Uma morte precoce”, muitos falavam, no alto dos trinta e nove anos. Deixou para trás a esposa, dois filhos, uma filha e um casal de poodles. Teve um AVC, seja lá que diabos esta sigla inventada pelos médicos signifique. Na verdade, pouco significava agora. Estava morto e isto bastava. E a tristeza se abatia sobre todos.
A tia Maria, aquela velha rabugenta que nunca participava das reuniões em família, debulhava em lágrimas abraçada ao caixão. O tio Paulo, que nunca falava, discursava como um verdadeiro orador sobre as qualidades do morto. E as amigas da esposa choravam e esqueciam momentaneamente de suas bolsas e sapatos que seriam comprados amanhã, na liquidação da C&A.
É engraçado como a morte, que é um evento de partida, une e transforma as pessoas; mesmo que seja por apenas um dia. Juarez, o filho mais velho, recebia o afago de sua namorada, Isabela, enquanto twittava sua tristeza pelo celular. Os amigos de Lipe, o caçula, corriam para cima e para baixo como se tudo não passasse de uma grande festa, rodopiando pelo salão e se intrometendo no meio das rodas que se formavam. Rodas. Como um grande ciclo a morte é um recomeço. Não para o pobre Abílio, ou talvez não mais aqui.
— Queria tanto que ele estivesse aqui conosco! – Gritava a filha do meio, Joana, quase arrancando os cabelos. Dois tios a seguravam num abraço caridoso. Um abraço muito mais verdadeiro do que aqueles de ano novo – que também é um ciclo de recomeço, diga-se de passagem.
— Queria poder dizer que o amo! – Soluçava a esposa novamente, deixando uma rosa sobre o caixão. E uma série de outros querias surgiram um após o outro, numa verdadeira cascata de desejos não realizados.
Sentados sobre um balcão de mármore ao lado das comidas dois homens conversavam. Um deles muito alto e magro, trajava um smoking e fumava um cigarro. O outro, gordo e com a barba farta, trajava uma roupa semelhante – que ficava apertando-lhe a barriga que despontava para a metade das coxas.
— Não deveria fumar aqui. – Comentou o barbudo.
— Bobagem, ninguém liga para essas coisas em lugares como este.
— Tem razão, só foram ligar para mim depois de fui desta para uma melhor. – Quem tivesse a possibilidade de vê-lo, saberia que se tratava do falecido Abílio ali, vendo o seu próprio velório. Coitado, parecia não acreditar em toda aquela união. — Nunca tiveram a coragem de dizer tudo que disseram aqui, no meu velório.
— É, Abílio, os seres humanos são assim… só sabem dar valor as coisas que perdem. Talvez por isso eu seja tão importante neste mundo. – O fumante sorriu e podia ver que entre os lábios havia pequenas linhas negras que costuravam seus lábios, escondendo os dentes amarelados e pontiagudos. Prontamente ele apagou o cigarro na bancada de mármore, ficando de pé. — ‘Vambora?
Perguntou, jogando por cima do smoking um capuz que lhe cobriu todo o corpo e a cabeça, escondendo-o em sua verdadeira forma. O toco do cigarro alongou-se e se transformou em uma grande foice, duas vezes maior que seu tronco. Abílio balançou a cabeça positivamente e o seguiu. Precisava recomeçar. Só não sabia como…
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Olha só, saiu ontem e eu nem tinha visto!
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Vamos gente, quero ouvir os comentários e as críticas de vocês!
Muito interessante, mas devo dizer que esse final me desagradou para valer ~acho que eu esperava mais (algo diferente, inovador, supreendente) ou menos (algo simples, um pensamento comum que fechasse essa gostosa crônica de maneira realmente cotidiana e narural).
Do jeito que está ficou previsível e sem efeito.
Oi Samila!
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Antes de tudo, muito obrigado pelo comentário. Já tinha lido ontem, mas fiquei refletindo e remoendo a sua crítica. E concordo plenamente contigo. Acabei fazendo o mais pífio, o mais esperado, dentro do contexto que apresentei. E tinha um potencial muito bom para construir algo inusitado. Inclusive, tive uma ideia para um novo conto ou uma reescrita deste conto.
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Muito obrigado pelo comentário Samila, pois é de críticas assim que estava precisando!
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Abraços!
É que eu gostei muito da construção do início e vi um enorme potencial nessa crônica. Eu sugiro você reescrever esse final – de uma forma mais inesperada ou mais simples, sei que você fará um bom trabalho.
Abraços e sucesso!