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Aug
03
2011

Por que o teletransporte não pode ser inventado

Escritor: Andre Roberto Doreto Santos

Se perguntarmos para dez pessoas qual a invenção mais importante ainda a ser feita, pelo menos nove irão responder que é o teletransporte. A outra vai responder que é a lata de cerveja que vem até você quando você chama (igual a um cachorro, sabe?). Afinal, quem é que gosta de ficar preso no transito nessa vida? Mas as pessoas só estão vendo a questão imediatista e não estão pensando no lado prejudicial que esta tão desejada invenção vai trazer para a humanidade.

Vamos analisar algumas questões básicas.
Imaginemos que a máquina de teletransporte exista é que seja um dispositivo que se tem em casa. Então, para ir para qualquer lugar, você só precisa entrar na máquina e apertar uns números (muito cuidado para não digitar errado) para dizer qual outra máquina no planeta você gostaria de ir e pronto, já está lá. Um verdadeiro sonho de consumo.
Obviamente, as primeiras indústrias a morrer serão as de transporte: avião, navios, trens, carros, bicicletas, pedalinhos, patinetes, carrinhos de golfe, charretes, lombo de mula e afins deixarão de existir. Quem nessa vida vai querer andar no lombo de uma mula se dá para ir de um lugar para o outro de uma forma muito mais eficiente? Por tabela, a indústria petroleira vem a baixo e a siderúrgica será seriamente afetada. Hotelaria então, nem se fala. Para que reservar um hotel se você pode voltar para dormir na sua casa todos os dias durante a sua viagem para a Disney? Colapso econômico na certa.
Além disso, quem é que iria querer morar em uma grande cidade? Não faz sentido todo mundo ir morar em uma praia bonita e paradisíaca em algum lugar no Caribe? Toda a população da Terra iria querer morar nos melhores lugares do mundo. O mercado imobiliário em São Paulo, Tókio, Nova York, Cidade do México, etc. iriam à ruína da noite para o dia. Em contra partida, um imóvel em Cozumel passaria a valer muito mais do que vale hoje na Champs Elise. Mais problemas econômicos.
E quê Argentino iria querer trabalhar para ganhar em Pesos sendo que se pode trabalhar na Europa para ganhar em Euros? Ganhar em Euros e gastar em Pesos parece ser um bom negócio, mesmo que você seja um Neozelandês. Todo mundo iria querer trabalhar nos países ricos, mas só faríamos compras nos países pobres. Só que isso duraria algum tempo, até que estes países ficassem ricos (já que todo mundo ia gastar seu dinheiro lá) e os preços subiriam. Todo mundo iria comprar as coisas em outro lugar e o país volta a ficar pobre. Os preços caem de novo e o ciclo se repete. Ou seja, uma zona (sim, é um trocadilho) econômica realmente instável.
Mas tem mais. Esse negócio de pagar impostos como é hoje iria acabar. Os impostos de importação e exportação seria os primeiros. Ou você acha que na porta de cada máquina de teletransporte iria ter um fiscal da receita federal para verificar o que você está trazendo muamba? Claro que não. Impostos sobre a produção também tendem a zero, pois todos os produtos iriam ser montados nos países que optarem por não cobrar impostos. E por fim, só vão arrecadar impostos os países que tiverem praias realmente bonitas, pois será lá que todo mundo vai morar. Países como Bolívia, Suíça, Mongólia, Zâmbia, e outros que nem praia tem, irão quebrar em questão de meses e deixarão de existir. Já Saint Martin e Porto Rico iriam ser um dos países mais ricos e populosos do mundo. Conclusão: uma reviravolta no equilíbrio político e econômico mundial.
E localmente os problemas seriam ainda maiores. Qual inglês iria querer comer “fish n’chips” no seu restaurante local se ele pode ir almoçar em qualquer lugar do mundo e comer algo decente? Certamente a os restaurantes ingleses quebrariam. E se depender do meu paladar, os indianos também. Está com vontade de comer um bacalhau português? Vamos jantar lá hoje à noite. Quer uma macarronada? Combinado naquele restaurante de Milão amanhã então. Está com vontade de comer um sushi? Em Okinawa tem um ótimo, vamos almoçar lá e voltamos para trabalhar. Está certo que o sistema de reservas de restaurantes teria que ser muito melhor do que é hoje, se não poderia aparecer metade da polução da Terra para almoçar em Paris de uma hora para outra e não iria ter espaço suficiente para todo mundo lá. Além disso, todos os restaurantes do mundo teriam que funcionar 24hs por dia, 7 dias por semana. Vai que um Chinês quer comer aquela feijoada tradicional da quarta-feira?
Agora, sem dúvida alguma, o que mais mudaria no mundo seria o marketing. Já pensou como seria o mundo dos spams com um teletransporte na porta da sua casa? Ah sim, eles iram existir sem dúvida. Aquele vendedor de seguros ia aparecer na porta da sua casa na hora mais inconveniente possível (até porque ele provavelmente iria trabalhar para uma empresa inglesa para ganhar em Libra e por ser pontual ia chegar na sua casa as 4am). E se você estivesse visitando o site da Amazon e clicasse em um banner sem querer, automaticamente um produto ia chegar na sua casa (“1-Click Order” vai ter um significado completamente diferente).
Eu também queria um teletransporte. E não foi nenhum dos argumentos acima que me convenceu que não seria bom ter um. Mas depois que parei para pensar que minha mãe iria provavelmente me visitar todo dia para ver se eu me alimentei bem e não estou sem agasalhos (mesmo que estivesse 40 graus), que meu cunhado iria dar uma passada para jantar sempre que possível e que eu não teria mais desculpas para dar para o meu chefe quando chegar atrasado no trabalho, eu reconsiderei meu desejo.

Written by andredoreto in: Agenda,Andre Roberto Doreto Santos,Contos | Tags: ,

1 Comment»

  • Lucas M. de Freitas says:

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    Cara, eu como fã de Star Trek, já tinha pensado em algumas consequências da invenção do teletransporte, mas não tão a fundo assim. Como é um conto sem enredo, o fim ficou legalzinho. Parabéns.

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