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Aug
31
2011

Quando A Vida Se Resume A Uma Noite

Escritor: Pedro Almada

Ela decidiu, depois de muita insistência, dividir o táxi. Eu não a conhecia. Simplesmente saímos da mesma festa, na mesma hora, na mesma noite fria e promissora.

Talvez ela não tivesse percebido. Mas havia algo nas estrelas, uma promessa. Algo dizia que nossas vidas poderiam mudar se tomássemos as decisões certas. Deixei o ar fresco invadir meus pulmões e me lembrar de como eu estava vivo. O mesmo ar trouxe até mim o perfume doce que ela usava. Seus cabelos castanhos soltos sobre os ombros, uma franja lisa cobrindo parcialmente seu olho esquerdo, seus lábios cobertos por uma fina camada de batom grená. Uma sombra escura em seus olhos, destacando o tom azul que emanava de sua íris e se misturava com a luz natural das estrelas azuis. Seu vestido era branco e caía perfeitamente em seu corpo bem desenhado. Uma linda garota com seus aproximados vinte anos. Mas eu não a olhava com desejo, seria indelicadeza da minha parte. Ela era tão acima disso, de flertes infantis, trocas de olhares. Parecia ser o tipo de garota moldada para casar com um homem cheio de medalhas cravadas num paletó azul, uma espada emoldurada e um cavalo branco. Esse homem iria lhe trazer flores todos os dias e sair para a mais nobre das guerras, com a promessa de que voltaria.

Ela não parecia me notar, a princípio. Estava preocupada demais procurando seu celular na bolsa. Suas mãos tão ágeis e delicadas dançavam sobre o couro do banco traseiro, sentindo-se incomodada com a minha presença, agora notada. Não poderia esperar menos, ela não me conhecia e parecia ser tão íntegra. Decidi não chamar a atenção, nem bancar o idiota. Seria um erro. Tudo o que eu precisava era continuar sentindo aquele doce perfume por mais alguns minutos.

O táxi se moveu. Decidi apreciar o aroma e admirar a noite. Colei o meu rosto no vidro, tentando me manter o mais “invisível” possível. Era estranho ficar nervoso ao lado de alguém como ela. Sua beleza não era intimidadora, mas me deixava sem palavras, sem reações inteligentes.

Então eu ouvi um soluço. Hesitei, decidi ignorar, mas ela parecia estar chorando. Ouvi o som do zíper da bolsa se abrir e o som de papel se rasgando. Outro soluço, e silêncio. Não sabia, mas anjos também choram. Afinal, são perfeitos, e chorar é a mais perfeita ação, humana ou sobrenatural.

Deixei toda a minha atenção se prostrar diante das luzes da cidade, mas era impossível não ouvir os soluços. Fosse à dor que ela sentisse, eu quase podia sentir também. Lancei um rápido olhar ao taxista. Completamente indiferente à tristeza da jovem. Ignorei os dois. Ao taxista, por não fazer diferença. A ela, por se tratar de um sofrimento particular.

Subitamente, senti um dedo me tocar no ombro. Virei-me, surpreso, intimamente contente, mas me empenhei em não demonstrar a satisfação. Ela decidira conversar, talvez.

_ Tem isqueiro? – ela pediu.

Eu a observei por alguns segundos. Ela me lançou um olhar e, quando o silêncio se tornou constrangedor demais, eu balbuciei.

_ Você fuma?

Pergunta estúpida! “E daí, se ela fuma?” Era linda, de fato, mas não perfeita como desejava ser. Estava tão predisposta a vícios quanto eu. Mas ainda que eu tivesse um isqueiro, com certeza não daria. Não queria manchar aquela imagem perfeita com um cigarro sujo.

Ela revirou os olhos com a minha pergunta.

_ O que tem de errado nisso? É só um cigarro.

_ Eu não tenho. Sinto muito – dei de ombros, sorrindo feito bobo.

Ela parou por um momento, encarou o cigarro em sua mão, com uma expressão de indecisão, uma mescla de nojo e desejo. Finalmente, ela abriu o vidro e lançou o cigarro para fora do táxi.

_ Melhor assim – ela murmurou.

_ Boa escolha – respondi instintivamente.

Ela se virou para mim, levemente surpresa. “Quem falou com você?”, provavelmente foi seu pensamento. Serio o mais óbvio, afinal. Mas apenas sorriu educadamente e permaneceu em silêncio. Ela cruzou os braços e começou a encarar o céu, como eu fizera antes.

Parecia absorta, pensativa.

_ Está uma noite muito bonita – ela murmurou.

Eu a fitei mais uma vez. Sim, eu já sabia. Só agora você estava percebendo.

_ As estrelas estão sorrindo – eu murmurei em resposta.

Ela riu levemente, não como deboche. Realmente achara engraçado.

_ Como você sabe?

Eu dei de ombros.

_ Elas estão azuis. Quando elas estão felizes, ficam azuis… Tudo fica bem.

Ela fez um breve silêncio.

_ Não está azul para todos nós. – ela disse.

_ A noite ainda não acabou – eu arrisquei um flerte. Mas, estranhamente, eu queria confortá-la, dizer algo que pudesse lhe dar esperança. Por que eu estava tão preocupado com uma estranha?

_ Talvez tenha razão – ela disse.

O táxi continuou seu trajeto, enquanto o silêncio se restaurava aos poucos, até não restar nada a não ser os ruídos da grande cidade iluminada.

Seu olhar se perdeu na imensidão negra coalhada de um anil reluzente. Senti uma estranha vontade de lhe dizer que estaria ali para o que ela precisasse, mas temi a forma como ela me interpretaria.

Não sou esse tipo de pessoa. Minha timidez sempre foi um empecilho para avançar em qualquer relacionamento. Naquele momento, no entanto, nem mesmo eu sabia o que queria.

_ Você… Gostou da festa? – arrisquei a pergunta.

Eu a fitei rapidamente. O olhar dela em minha direção varreu a pergunta para fora do táxi. Simplesmente sorri, percebendo que tocara no ponto que a machucava. Alguma coisa naquela festa lhe trouxera uma profunda angústia, agora estampada em seu rosto. Desejei não ter perguntado nada. Odeio tentar consertar as coisas e piorar tudo.

Finalmente, ela suspirou, como se preparasse para responder.

_ Não gosto de festas. – ela disse.

Não era apenas isso, óbvio. Mas não insisti.

_ Estava mesmo muito caída. – respondi, tentando parecer natural.

Ela me encarou, levemente frustrada.

_ O que você quer? Queria dividir o táxi só para ter uma companhia? Não conseguiu cortejar ninguém na festa? Por acaso eu sou sua última opção.

Eu a encarei, atordoado, sentindo aquela explosão de palavras me acertarem como brasa. Fiquei rubro, senti minhas orelhas esquentarem, mas simplesmente não consegui encontrar uma resposta. Eu não era esse tipo de pessoa. Mas como convencê-la disso? Não. Seria impossível.

Fiquei calado, e voltei a admirar o céu. Ela continuou me encarando com aqueles olhos azuis e penetrantes por mais alguns segundos. Por fim, enfiou a mão na bolsa e falou com o taxista.

_ Por favor, pode me deixar aqui.

O Taxista reduziu, mas não parou.

_ Ainda não chegamos onde a senhorita queria, madame. – ele falou educadamente – falta um bocado ainda.

_ Não importa, posso caminhar até minha casa.

Ela me lançou um olhar de ultimato, como se me culpasse por todos os seus problemas. Aquilo me deixou furioso, a ponto de berrar contra ela e despejar minhas frustrações sobre ela também. Mas eu me controlei. Decidi entender o lado dela e aceitar seu olhar rude, pronto para oferecer a outra face, se assim fosse preciso. Tudo para tornar suportável o seu dia.

Ela abriu a porta do carro, pronta para sair.

_ Boa noite – eu sussurrei – espero que as coisas melhorem pra você.

Ela parou por um breve segundo, mas, dessa vez, não dirigiu seu olhar a mim.

A garota se levantou, depositou o dinheiro nas mãos do taxista e, sem me dirigir uma única palavra, virou-se, em direção ao outro lado da rua, atravessando o sinal vermelho. Caminhou pela calçada, com passos lentos e pensativos. Estava para virar a esquina, quando lançou um último olhar ao táxi. Ela me encarou mais uma vez, seus olhos tão inexprimíveis, confidentes. Então voltou ao seu trajeto, sumindo do meu campo de visão.

_ Moça estranha – murmurou o motorista.

_ Não – eu respondi – Ela é normal, como todas as outras… Talvez seja esse o problema.

_ Pode ser… – dizendo isso, o taxista virou o volante e voltou para o asfalto, enquanto as luzes amarelas dos postes refletiam no insul-film.


Categorias: Agenda,Contos |

1 Comment»

  • Vinicius Maboni says:

    Thumb up 2 Thumb down 0

    Texto fluente, uma cronica certo? Final realista, gostei do fato do problema ser ela ser igual, foje do esperado e isso é bom. Parabens!

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Publicado por Pedro Almada

– que publicou 2 textos no ONE.

Nasci em Goiânia – GO no ano de 1991. Mudei-me para Minas Gerais e, desde então, vivo nesce maravilhoso lugar. O primeiro livro que li foi com sete anos, “Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcellos. A partir de então, comecei a ler compulsivamente. Com dez anos comecei a escrever e logo descobri que, assim como a escrita, desenhar era um grande prazer. Não sei falar formalmente, gosto de trocadilhos e piadinhas ácidas. O que sempre me chamou a atenção foram as histórias fantasiosas com personagens e criaturas fantásticas, mas gosto de um romance policial e um bom livro de suspense. Costumo dizer que sou um “aspirante a escritor”.

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