Reflexos de uma infância – Parte 02
Escritor: Rafhael Marsigli
No caminho, aproveitou que ia demorar em média 15 minutos para chegar, acendeu mais um cigarro e continuou andando, seu vício começou com 16 anos, quando pegou escondido um cigarro do maço da mãe para ver como é, depois na escola começou a pegar emprestado dos amigos até que resolveu comprar para consumo próprio. Para sua surpresa, nem o pai e nem a mãe ficaram bravos com a revelação, o que misturou sentimentos de dúvida e tristeza em sua mente, mas nada que seja de importância para ser relevado.
Depois de quase uma hora para chegar, lá está, o Hell’s Club, um lugar aparentemente pequeno, com um letreiro vermelho antigo pendurado a um metro acima da porta de entrada, a letra “E” piscava em uma sequência quase padrão, que cobria os tijolos a vista do estabelecimento. Na entrada, um homem de dois metros de altura e muita massa muscular estava fazendo a segurança, o que era engraçado, pois a figura era quase do tamanho da porta de entrada, feita de ferro, com vidros pintados de cinza fosco, para bloquear a visão. Isa já era conhecida da casa, entrava sem pagar, um dos grandes benefícios de ser bonita, e saber usar sua beleza.
O interior da boate era grande, que espantava os novos visitantes, um grande espaço com espaço para DJ e banda no extremo esquerdo, e o bar no extremo direito, o meio do lugar era vazio para as pessoas dançarem e conversarem, com algumas mesas bistrô para sustentar as bebidas. Tanto as paredes quando o teto eram escuras e iluminadas apenas por velas e luzes fracas, dando uma intenção de calabouço, principalmente nas pilastras que sustentava o lugar, que foram colocadas quase aleatoriamente, dando uma impressão caótica. Na porta dos banheiros tinha uma enorme estátua de gárgula, que parecia estar viva dependendo do seu nível de alcoolismo ou drogas. Devido a acordos com a polícia, fumar era liberado no interior da boate, assim como consumo e venda de drogas, este último feito apenas por pessoas autorizadas no local, para não atrair qualquer laia, o preço para entrar não era baixo, o que filtrava muito bem quem frequentava o lugar.
Logo ao entrar, a casa estava quase cheia, o que era normal para sexta-feira, estava tocando uma mix da música Cold, de The Cure, o som entrou na cabeça de Isa como uma droga, ela sempre interpretou as músicas de uma forma diferenciada, sentindo a harmonia em sua alma e deixando-a em uma espécie de êxtase musical, com a melodia fúnebre e densa ecoando pelas paredes da boate, com cada beat do bumbo martelando seu peito.
Ainda está na memória a primeira vez que veio aqui, há mais ou menos seis meses atrás, usando um all star desamarrado, calças jeans e uma camisa larga do Cradle of Filth desbotada, que foi presente de aniversário do pessoal da escola, há uns dois anos atrás, mesmo sem conhecer a banda, gostou do presente e baixou algumas músicas pela internet, para evitar alguma vergonha em algum meio necro-social. Desde então começou a se dedicar e se envolver mais com este tipo de cultura, conheceu muitas pessoas, embora muito fechada, elas sempre se aproximavam, o que facilitava muitas coisas.
Hell’s Pub, conhecida como “porta do inferno” pelos clientes assíduos era um dos poucos lugares em que não se sentia excluída, bombardeada por maus olhares e comentários quase inaudíveis, indo direto ao bar, Isa sentou em um banco alto, fixo no chão, e ficou olhando o movimento do lugar, não tinha dinheiro para beber muito, mas sabia que acharia alguém. Os critérios de escolha não eram fáceis, tinha que ser alguém bem apresentado, que não cheirasse esgoto e que não ligasse para a quantidade de bebidas pedidas.
Depois de quase vinte minutos e três foras, seus olhos acharam uma vítima para a noite, assim pensava, um homem que aparentada seus vinte e poucos anos, cabelos curtos escuros e trajes típicos usados, mas sem logotipos ilegíveis de bandas em sua camisa preta, e nem correntes enroladas no pescoço ou na calça, algo intrigante, hora de arriscar.
– Oi… Está sozinho?
– Sim – respondeu, frio e misterioso.
– O que acha de terminar essa solidão, agora? – Apesar da fisionomia ninfa, nas horas que precisava, sabia exatamente como se transformar e parecer outra pessoa.
– Ok, sente-se, peça um drinque.
O primeiro, e único objetivo estava cumprido, ela só queria beber de graça, o que acontecesse depois, seria fruto do acaso e consequência de seu ato. São poucos casos de homens quietos e que não tentam passar cantadas ridículas ou perguntar sobre sua vida, intrigada, começou a puxar conversa e por alí ficaram por muito tempo, bebendo e ás vezes conversando.
– É, acho que vou embora, obrigado pela companhia – Disse o rapaz, nomes nunca eram importantes para Isa, não tinham a menor importância e ela esqueceria rápido, em poucos dias.
– Obrigado pela conversa interessante, mas… Estou com um problema, meu carro quebrou, teria como me dar uma carona?
– Claro, vamos até o carro então – Isso a deixou confortável, não tinha perguntado se ele estava de veículo ou não, seus olhos brilharam, uma noite fácil. Até agora.
Logo após de pagar a comanda, os dois foram até o carro, um Honda Civic preto, talvez o carro mais bonito que ela entrara até hoje. Guiando o caminho de volta para sua casa, foi interrompida na metade.
– Só vou passar em um lugar antes, depois te levo. – Essas palavras soaram estranhas, um sorriso de canto e perverso estava estampado em seu rosto.
Preocupada e com medo, se controlou, pensou que talvez ele queria mesmo buscar alguma coisa… Algo no mínimo estranho, às 3:37 da manhã, evitava o contato olho-a-olho, ficava avistando os prédios, os muros pichados, a rua vazia.
Continua…
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