Uma ligação no escuro
Escritor: Augusto Arcano

Já era tarde quando o telefone tocou. Ele odiava aquele som quando já estava dormindo. Seus passos foram silenciosos, pois a meia branca que usava, uma mania que trazia de criança, abafava o som. Enquanto ele andava em direção ao telefone não notou o silêncio que mortificava o ambiente dentro da sua casa.
Em pensamento xingava o infeliz que não tinha mais o que fazer e ficava ligando para casa dos outros numa hora tão tarde como aquela. Por que tinha que ser com ele? Não havia uma pessoa mais bem humorada para se encher o saco? Obviamente não, as pessoas que ligavam normalmente não sabiam para quem ligavam. Aquele seria mais um trote da madrugada.
Chegou à mesinha do telefone e olhou a bina. Coçou os olhos limpando aquele embaçamento inoportuno e voltou a olhar para a luz piscante da caixinha preta ao lado do telefone. Aquele era um número que ele conhecia. Era o número do celular que dera para sua filha no último aniversário dela. Será que havia algum problema com ela?
- Alô! – disse ele e sua voz saiu estranha ao telefone, uma mistura de sono com preocupação.
Do outro lado da linha havia o som de uma respiração que parecia dolorosa e abafada por algo. Um breve instante depois o som mudou para algo gorgolejante.
- Alô! O que está havendo aí? Responda!
- Olá professor! – as palavras soaram lentamente, como se o interlocutor sentisse prazer ao pronunciar tais palavras.
- Quem é o engraçadinho? E o que está fazendo com o celular da minha filha? Anda, responda-me.
Do outro lado uma risada baixa, um som zombeteiro e a ligação foi fechada.
O homem deixou-se cair sentado na poltrona no canto da sala. O telefone ainda na mão, pensando: O que foi isso? Um sonho? E agora, o que fazer? Ligar para a polícia? Será que eles resolveriam isso? Não, creio que não.
Ele olhou para o telefone e ligou para o celular da filha.
O som o assustou tanto que o fez levantar da poltrona num pulo. Algo soava na cozinha. O mesmo som que saia do celular da filha. Uma irritante música que ela havia baixado da internet. Sentiu o coração acelerado como se quisesse sair pela boca, e isso o irritava. Aquilo provavelmente era uma piada, uma brincadeira de muito mal gosto de sua filha. Ele ficaria tão zangado com ela que a faria ouvir um tamanho sermão.
Seus passos continuavam silenciosos, mas então já notava a morbidez do ambiente. Ele caminhava com cautela ouvindo o som da chamada cada vez mais perto. Até que colocou o primeiro pé na cozinha. A mão foi para a parede onde ficava o comutador enquanto os olhos espreitavam o breu do lugar. Mas havia algum problema com a luz, ela não acendia. Tentou apertando para cima e para baixo várias vezes, mas não houve luz alguma.
No meio da cozinha havia uma mesa e do outro lado ficava a geladeira. Lembrou-se que dela saia uma luz tão boa que provavelmente iluminaria a cozinha toda. Ele foi pelo lado esquerdo da mesa, contando os passos dados, prestando atenção em qualquer coisa que pudesse se mexer. Porém nem o ar ali dentro circulava.
Estava a uns cinco passos da geladeira quando sentiu algo ensopar a sola da meia direita. Olhou para o chão mas nada conseguiu ver a não ser um brilho de algo líquido. O restante dos passos foram largos mas pareceram demorados. Ele abriu a porta da geladeira e a luz que saiu dela iluminou bem o ambiente. Levantou um de seus pés e viu que o que havia molhado suas meias era algo vermelho, tal como sangue. Olhou para o chão e viu uma poça desse mesmo líquido colorir de escuro o piso claro da cozinha. Do outro lado da mesa estava sua filha estirada no chão. O pescoço aberto e a faca que fizera o ferimento ainda estava lá, cravada no final de um grande corte.
Ele agachou-se sobre o corpo morto da filha que ainda estava quente, provavelmente o que ele ouvira gorgolejar no telefone era a garganta dela sendo aberta. Uma lágrima brotou em seu olho direito e escorreu pela face. Sua filha estava morta em seus braços e não havia nada o que pudesse fazer.
O telefone ainda estava em sua mão suja de sangue. Ele discou 190 e colocou o fone no ouvido. A linha estava muda, cortaram-lhe o telefone para que não pudesse pedir ajuda. Porém o celular da filha ainda estava ali jogado no chão da cozinha. Ele tomou do celular e tentou discar, mas sua mão trêmula o fez errar os números três vezes até que conseguiu fazer a chamada. No primeiro toque ele se levantou e escorou na cadeira. No segundo toque levantou os olhos e viu parado na entrada da cozinha o aluno. No terceiro toque alguém atendeu, o professor não conseguiu falar e o celular escorregou de sua mão ensangüentada e caiu no chão.
- Olá querido professor! Que feio isto o que o senhor fez. Matar a própria filha? Isso é insano. Não lhe parece?
Aquele indivíduo parado ali na entrada de sua cozinha era o exemplo de um maldito aluno. Na verdade o pior aluno desde que começara a lecionar. E olha que muitos lhe haviam trazido problemas. Porém uma coisa o intrigava, pois aquele rapaz, devia ter uns 17 anos, havia morrido há alguns meses atrás. Depois de ter sido denunciado pelo professor por um roubo que ele na verdade não havia cometido, foi levado pelos policiais que já não aturavam mais o seu gênio indomável até uma certa distância da cidade, dentro de um matagal não muito confortável. Este professor havia dado “permissão” para que fizessem isso. Lá ele foi amarrado a uma árvore e serviu de alvo para os cassetetes dos policiais. Até que ele não sentiu tanto pelas borrachadas que levou, pois já era acostumado a levar porrada do próprio pai, um bêbado e viciado. Porém os policiais frustrados por sua lição não estar dando tão certo quanto queriam, apelaram para cortes que iam desenhando no corpo liso do rapaz. Eles gostaram da sensação de ir vendo a pele do garoto abrindo e o sangue vazando em pequenos filetes.
- Surpreso em me ver? Caro professor! – na voz, ironia pura.
Ele entrou na cozinha e o professor conseguiu ver nele as marcas que os policiais haviam deixado. Os cortes abertos, já secos, estavam espalhados pelo corpo todo. O garoto tinha então um olhar brilhante, faiscante dentro da escuridão da cozinha.
E foi quando com a mesma voz vagarosa ele contou sua história:
- Enquanto eu levava os golpes de cassetete imaginava que depois poderia dar o troco, um policial por vez, claro. Mas de repente me surpreendi sendo retalhado. Aqueles morféticos rindo em seu sadismo e a dor sendo lancinante, eu pensava comigo: Vou matá-los! Vou matá-los e esquartejá-los. Eu vou resistir! E enquanto eles ficavam olhando para meu corpo moribundo achando que eu já estivesse inconsciente, disseram que foi você que havia dado essa chance a eles. O engraçado é que eles sabiam que eu não havia feito nada e mesmo assim fizeram o que fizeram. Aquele professor nos deu uma boa oportunidade, até forjou o roubo, ele sabe como dar uma lição nesses delinqüentes. – diz ele imitando a voz do policial. – E realmente todos vocês sabem. ELES ME MATARAM! Deixaram-me agonizando no meio daquele lugar sujo. E enquanto eu agonizava senti formigas rastejando sobre meu corpo, elas entraram nas feridas e me ferroavam. Essa sensação eu não posso lhe dar querido mestre.
O professor ouviu tudo aquilo sem ação. E foi como se ele visse um filme passando em sua cabeça mostrando as atrocidades que o aluno havia sofrido. Isso não era difícil, o resultado daquilo estava em sua frente. Mas agora era o aluno apodrecido e ressentido quem o encarava. Ele olhou o corpo da filha ao chão e teve uma idéia quando viu a faca ali ainda.
Abaixou-se rapidamente e puxou a faca. Nesse momento a cabeça da filha caiu de lado e ele gemeu diante da cena.
- Então venha garoto. Se você ainda não morreu, eu é que vou te matar. Miserável.
- Pobre professor! Sua mente anda fraca ultimamente. Eu já estou morto, quem vai morrer aqui é você – e deu uma risada alta.
O professor adiantou-se com a faca à frente mas atingiu a parede. Em um segundo o aluno estava do lado olhando para a tentativa frustrada do professor. Ele então passou uma rasteira naquele corpo velho fazendo-o cair no chão com um estrondo. Depois pulou em cima prendendo-lhe os braços debaixo de suas pernas. Tomou da faca e fez leves riscos na pele áspera do velho professor.
- Isso é bom. É uma sensação inigualável. Se o senhor tivesse tempo eu lhe recomendaria fazer isso em alguém. Mas agora chegou a hora de eu ir embora. Então vamos terminar nossa conversinha.
O aluno liberou o braço direito do professor e lhe deu a faca. Este a agarrou e a cravou no peito do aluno. Inútil, o aluno estava morto, ele já tinha dito isto. O podre aluno pegou a mão do professor e tirou a lâmina de si, virou a ponta da faca no meio do peito do velho e foi cravando a lâmina aos poucos. A boca do professor foi abrindo sem grito enquanto sentia seu coração sendo perfurado. A mão do professor foi perdendo a resistência até não se mexer mais.
- Foi bom para você, maldito professor? – deu um suspiro, virou o corpo do ex-professor e sumiu na escuridão.
Seu trato havia acabado, e agora ele iria pagar sua dívida.
Algum tempo depois uma viatura da polícia estacionou na frente da casa. O guarda, depois de insistir e ninguém abrir, arrombou a porta achando na cozinha dois corpos.
- Ei Flávio, chame a central, há um assassinato seguido de suicídio aqui.
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Esse conto foi escrito já há algum tempo, mas antes de colocar aqui eu fiz uma revisão nele, espero que os leitores daqui gostem.
Augusto, vou ler e comentar o mais breve possível. Espero que se anime e lance novos trabalhos e também comente os que já estão publicados.
Abraços.
opa Franz, espero que goste do texto, e sobre contos sou animado sim, tenho vários já escritos, se o pessoal daqui gostar do meu estilo daí vou lançando mais depois… abraço e t mais.
Que medo… hehehe.. Muito legal esse conto heim.. Abraços.
Medo? hahah…
É um dos textos antigos meu, preciso dar uma revisada, se alguém tiver mais dicas pra melhorar ele, fique a vontade pra dizer.
amigo Arcanoooo mt bom, assim como outros contos seus que já tive o prazer de ler… “cenas” fortes, interessante e misterioso
O seu texto deixa as pessoas vidradas querendo ler mais e mais, parabéns a história é muito boa, lendo consegui imaginar cada cena da história.
eu acho muito legal quando meus amigos me dizem que conseguem visualizar as cenas das coisas que escrevo.
muito bom o texto assim como todos os outros.. bem escrito e fascinante.. Parabéns
abraços
vixe, muito bom esse texto… bem elaborado e destrinchado… faz você pensar enquanto lê… e eu gosto dessas coisas psicóticas!
muito bom…
Adivinha sóóó….Muitoo medoo…Assustador. :S
Mas muito bem elaborado, bem escrito…não sei como consegue ser tão mal…!! rsrs
Muito bem escrita, claro que o medo toma conta, quando que vai imaginar que no final “aluno morto” vai matar o professor e ainda vai ser julgado como o assassino da própria filha em seguida um suicídio, pior de tudo é saber que o menino tá morto, ai cada um tira suas conclusões!
Parabéns, suas palavras souberam me envolver até o final desse texto intrigante. Situações bem detalhadas, ora cobertas de mistério ora carregadas de emoção. Realmente, um texto muito bom.
parabéns, muito bom e perturbador, faz imaginar cada cena como num filme de suspense. sucessos
Concordo 100% com o André, eu também consegui visualizar tudo, menos as caras dos intervenientes, talvez porque falta um pouco mais de detalhes sobre as personagens,de resto está óptimo.
Muito foda
Perfeito, sem mais. Uma história trágica, mas muito bem escrita. Adorei.
Vou crer que as pessoas que comentaram neste contam trabalham ou estudam com o autor. Pq a grande maioria vem do mesmo endereço IP. Bom, confiarei.
na verdade a grande maioria dos comentários são de pessoas que conheço sim. amigos que pedi para ler e comentar e outros que já tinham lido e pedi para que deixassem comentário aqui para que o conto ganhasse um pouco de destaque. Como coloquei o link em minhas redes sociais e msns, inclusive do trabalho, as pessoas do meu trabalho entraram e comentaram. Não sabia que não era permitido. Favor considerar todos os comentários do mesmo ip como um só. Agradeço pelo toque e espero que tenha lido o conto pelo menos, da próxima vez pode deixar um comentário sobre ele tb.
Beleza. É quando vejo os mesmos IPs fico desconfiado. Mas achei mesmo que os seus eram verdadeiros.
Bem legal o texto. Achei meio clichê essa coisa de voltar dos mortos, mas tá valendo.
Parabéns!
…como disse o Winchester está mesmo muuito clichê sua proposta. Mas, não está de todo ruim. Achei legal a meneira como conduziu as ações.
opa, muito obrigado pelos comentários.
Mas quando vocês dizem clichê o que querem dizer? Porque eu vejo as opções de o aluno estar vivo e depois de ser torturado voltar pra se vingar do professor, ou ele estar morto e arranjar um meio de se vingar. Ou não só esse o fato que ficou indigesto? Críticas construtivas são sempre bem-vindas, vallew.
A coisa do clichê é que essa história dele estar morto, ou não, já foi muito usada, é uma coisa “batida”. Claro que é impossível criar algo totalmente original, mas falta um toque especial do autor, um diferencial.
Como eu disse antes, tá bacana! =D
Interessante, gostei do texto. Parabéns