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Aug
31
2011

Vol Augural – Pierre Alechinsky

Escritora: Trillium

vol-augural-pierre-alechinsky

O dia amanheceu cinzento, frio e húmido. Pairava no ar um cheiro acre de carne queimada. A terra chorava, formando lagos vermelhos. Os corpos mutilados, sem pudor, estavam aglutinados em pequenas montanhas. Ao longe, ainda se ouviam alguns tiros, como ecos da noite.

O dia foi avançando, o sol subiu no horizonte. Saí para a rua, pois tinha uma missão a cumprir, precisava de fazer um relato sobre o acontecimento.

Por vezes amaldiçoo o dia em que escolhi esta profissão, mas tenho de continuar, ser imparcial, informar, pôr de lado sentimentos e deixar a porta aberta para os sentidos. Costumo pensar que estou a ver um filme, em casa, confortavelmente instalado em frente à televisão. Não vai ser diferente!

Observo a rua ainda deserta, oiço uma voz de criança de tenra idade:

- Mamã? Mãe acorda! Tenho fome e também tenho frio, acorda, vá lá!

Ela está ao lado de uma mulher, esta tem um ar muito pálido, um olhar vítreo e um ferimento na cabeça.

As sirenes começam a tocar. Alguém grita:

- Fujam para os abrigos!

Iço a pequenita, ela protesta:

- Quero a minha mamã!

Eu tento tranquiliza-la:

- A mamã já vai para o abrigo.

A voz não me sai muito segura, mas a menina ficou convencida, enquanto isso, penso numa forma de a fazer compreender que está só. É duro! Finalmente vejo que esta é a realidade, não é um filme, não existem duplos para as cenas mais perigosas, e também eu choro a perda destas vidas, tão pequenas e tão sofridas.

Vejo o clarão de um flash, oiço o som característico de uma máquina fotográfica, não me importo. O meu parceiro regista o momento, talvez receba um Pulitzer pela foto, mas sou eu quem ganha mais, recebo um sorriso da menina que se aninha nos meus braços e adormece feliz.

(Isabel Andrade)


Written by Trillium in: Contos,Trillium | Tags: , ,

29 Comments»

  • Trillium says:

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    Finalmente!!! Uff …:D

    Agora fico a aguardar as criticas, sejam elas quais forem.

  • Trillium says:

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    Alguém me disse uma vez para escrever sobre qualquer coisa que tivesse vontade, uma paisagem, uma imagem qualquer, etc…bem ou mal, o importante é escrever sobre algo, o resto vem com a prática, neste caso para treinar a descrição de locais ou outros.
    Essa pessoa tem sempre um caderninho pronto para qualquer eventualidade.

  • Trillium says:

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    …A caminho da 1.ª página :P ou de outro lado qualquer.

  • Shado Mador says:

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    Gostei do lado pessoal , do entendimento da realidade que despenca na cabeça da personagem.È um daqueles contos que nos fazem pensar , construir um historia por nós mesmos.Me fez pensar de modo semlhante ao que pensei quando li um conto aqui no ONE que mostrava a verdadeira face da guerra, o lado dos perdedores.O personagem principal me deixou na espectativa( tambem fiquei pensando se ele realmente era o personagem principal ou se era possível que a situação a desolação , é que fosse a “personagem” principal- seria um caso um pouco raro em que a personagem principal não é o narrador que narra em 1ª pessoa-) fiquei pensando, o que ele é?Um oficial?Um mensageiro?Um estrategista?Um assassino? – por favor nos responda autora.

    -

    Gostei das analogias , recursos linguisticos que aos poucos aprendemos a refinar.Você já comecou seu treinamento , eu deveria fazer o mesmo XD apesar de eu ler muito , a maioria de ideias para historias ficam so na cabeça.

    -

    ” oiço uma voz de criança “–”acorda, vá lá!”–”não existem duplos para as cenas mais perigosas” kkkkk,
    estamos a falar com uma portugaja? XD aqui no brasil dizemos dublê=duplos( eu suponho)

    -

    Agora não pare mais de escrever! (eu deveria criar verbgonha na cara e começar de vez tambem :D )

  • Alex Tzimisce says:

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    Que sofrido…

    Adoro contos curtos que passam bastante sentimento seja raiva ou tristeza… Não importa.
    Preste atenção nos erros ortográficos, isso é importante.
    Muito bem! Continue a escrever!

  • Trillium says:

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    Bem…agora e a pedido de muitas famílias :D vou esclarecer umas coisas:

    1.º A personagem principal é um quadro chamado “Vol Augural” e pintado por Pierre Alechinsky e que podem ver aqui:
    http://artfair.louislannoo.com/buy-art/p/art/vol-augural

    2.º O conto é a descrição do que eu vejo nesse quadro (com a mente e não só).

    3.º Foi um exercício proposto num mini-curso de escrita que frequentei há muito tempo :) para desenvolver-mos as nossas capacidades de descrever.

    • Shado Mador says:

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      Minha filha eu vi o quadro…. QU ERVA TU FUMOU PRA CONSGUIR TIRAR UMA HISTORIA DALI? eu olhei olhei e vi que o quadro não da para entender merd@ nenhuma.Ou voce tem um senso de elaboração fantastico, ou minha capacidade de analise é muito incapaz :D (XD acho que as duas hipoteses juntas)

      -

      Eu deswconfiei que quem narra não era a personagem principal.Me fez pensar muito o teu conto

      • Trillium says:

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        Eu garanto que só fumei uns cigarrinhos e bebi leite com bolachas :D

        Eu estava inspirada, e pareceu-me ver uns montes e aviões.

  • Trillium says:

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    é agora…será? :D

    • Priscilla Rubia says:

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      Trillium, o conto vai para a primeira página por nº de comentários, como o Gunslinger disse.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Achei o conto interessante. A eloquência com que o personagem principal se comunica com o leitor me fez ter a impressão que se tratava de um sentimento ou pensamento narrando a história, algo imaterial. Mas o conto é tocante, se comunica muito bem com o leitor.
    Minhas ressalvas ao conto não me parecem muito válidas, mas aqui estão: Um cuidado com a ortografia para adaptá-la ao leitor é interessante, observando que o site é brasileiro, e a predominância de seus leitores também.
    As emoções e sensações foram fantasticamente passadas. Mas nenhuma idéia do ambiente foi. A cena portanto, perde um pouco de identidade visual (não conseguimos visualizar os objetos dentro da história, por que simplesmente não são citados). Nessa história não há problema nesse fato, mas gostaria de saber como você constrói suas ambientações, necessárias em histórias maiores.
    No caso foi justamente essa falta de identidade visual que me confundiu em saber se a história se tratava de um ser ou de uma entidade (uma pessoa ou um sentimento, por exemplo.)
    Mas o conto ficou soberbo =)

    • Trillium says:

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      Realmente eu sou muito resumida, estou agora a tentar escrever um conto e já estou sentindo essa dificuldade de fazer “render o peixe”, ou seja de me alongar em pormenores, que muitas vezes quando leio um livro acho aborrecido, mas se for bem escrito já gosto, mas também acho que é importante deixar espaço para a imaginação do leitor, logo acho que não nos devemos alongar na descrição de pormenores ou cenas, nem de mais nem de menos.
      Percebi o seu comentário e para mim faz todo o sentido, terei que tentar reescrever várias vezes o mesmo conto de forma a ir acrescentando sempre mais qualquer coisa, mas sem o tornar massudo e desinteressante :)

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        Concordo com você. Se prender demais a uma descrição pode criar uma passagem macante na história, mas não perder tempo com ela cria um ambiente tão etérico que não pode ser bem visualizado. No ponto certo, a identidade visual da trama deve ser abordada pelo autor. Um bom exercíxcio, na minha opinião, é treinar descrevendo paisagens de diversos pontos de vistas e maneiras diferentes, o que te ajuda a entender que uma cena pode ser trabalhada de várias maneiras diferentes para a história, além de ser uma boa prática para pegar o ponto certo da descrição.

        Vou aproveitar e vender meu peixe aqui também. O meu conto aqui no ONE é o “Rainmaker”. Agradeceria qualquer opinião e comentário, para que eu possa melhorar também! Obrigado, e até mais!

  • André Alves says:

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    Vou deixar meu comentário para o conto alcançar o topo da listinha aqui de baixo, porque ele merece! 8D

    E já que a propaganda tá rolando solta por aqui, peço licença pra deixar o meu: leiam A sociedade ali em baixo e dêem uma forcinha pra Forja da Justiça.

    Ps: só depois de ler os comentários é que eu fui entender a razão dos “oiço”.

  • Leo Debacco says:

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    Oiço? Acho que ficou meio estranho, alguns erros também cortaram a narrativa, mas no geral, o texto passou uma realidade obscura e sinistra. Não saberia o que fazer se visse uma menininha gritando para a mãe morta acordar.

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    Também achei o “Oiço” estranho.

    Boa narração, a história de um jornalista/fotógrafo que esta em meio uma guerra e deixa de registrar o evento para proteger uma criança. :)

    • Vinicius Maboni says:

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      O Oiço realmente parece estranho. Mas o conto é muito bom. É tocante.

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        Achei meio curto para ser tocante. Mas, se fosse mais detalhada, se a escritora re-escrevesse para colocar em uma coletânea, dando mais vida ao personagem e ao ambiente, e escrevendo mais algumas páginas, com certeza poderia ser uma história bem emocionante. :)

        • Vinicius Maboni says:

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          Verdade, o conto merece uma incrementada. Mas é uma ideia muito boa. Não deixa de despertar coisas, haha.

        • Hreter says:

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          Hmmmm, será que precisaria? Essa personagem, essa situação… Acho que encaixam bem num relato curto como este.

  • Hreter says:

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    Forte. Estilizado, um tema recorrente, porém forte o suficiente. Gostei =)

  • Renan MacSan says:

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    Gostei, embora quisesse que a história fosse um pouco mais desenvolvida.
    Lembrei logo da graphic novel Marvels em que vemos o mundo dos superheróis dos quadrinhos através dos olhos de um único jornalista, ele está lá em todos os eventos mas não participa.

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