A Criança que não era
Escritor: Ramon Bacelar
Não passava da meia noite quando ao sair de uma lanchonete, um som vago e indistinto me obrigou a examinar meus arredores, antes de retornar ao estacionamento.
Ocasionalmente sensível a ruídos e outras emanações sonoras, não era incomum me assustar com acontecimentos desta natureza, porém após um breve momento de conjetura e reflexão, concluí que o som do vento naquela ocasião não passava de um casulo protetor ou esconderijo sonoro para a real fonte do meu assombro: um lamento indistinto de sonoridade aguda e textura crespa, semelhante a uma estática lamentosa, inquietando minha audição como um insistente espectro sonoro.
Ponderei por uns instantes e prossegui sem me preocupar; beirei o meio fio quando senti o som ganhar corpo e solidez no mesmo instante que um vazio de escuridão dominou minha visão, e outro som minha audição.
-Ei!
Olhei para os lados e não vi nada, todavia identifiquei outros postes distantes à minha frente: só então me dei conta que tinha adentrado uma área sem iluminação.
-Ei moço!
Girei o pescoço, mas não consegui falar; de súbito uma gélida sensação de impotência e vulnerabilidade me paralisou: um náufrago sem remos em um oceano de escuridão, vigiado por uma rede sonora de vozes e lamentos me cercando como predadores aquáticos.
Suspirei fundo e fui em direção à claridade. Andei com passos curtos e por um momento identifiquei apenas o lamento, mas a meio passo da ilha de luz, senti um jato frio circundar minha cintura; foquei minha audição e percebi que entrecortado pela estática, na verdade abaixo dela, outro som, um pedido, clamava atenção:
-Moço, me dá um real?
De mão estendida, uma menina de uns 12 anos segurava um bebê desengonçadamente, como uma boneca desarticulada; e na esquerda, uma boneca desarticulada chorava com a intensidade de um bebê.
-Moço?
Fui envolvido por uma manta gélida que pareceu emanar de nossa proximidade; algo invisível, porém presente, de densidade e qualidade própria, independente da atmosfera e do vento.
Tentei falar e não consegui, mas distingui: o choro agora desprendido da proteção do casulo ventoso, tornado enfático pela minha proximidade, penetrava em meus tímpanos como a personificação sonora de uma angústia recém nascida, e mesmo sabendo se tratar de um mero artifício mecânico, o sentia como algo sólido e palpável, um visgo parasitário, aderente e pegajoso, sugando a atenção, aniquilando minha locução e capacidade de reação.
Tentei.
-Você… Está sozinha menina?
Gesticulou uma negativa abraçando a boneca; encarei a face de plástico e borracha e de imediato fui tomado por uma descarga de vertigem e estranheza; menos uma sensação de previsível inquietação mundanamente urbana, mas um momento epifânico de fugaz entendimento da mecânica, profundidade e paradoxo do puro horror e estranhamento; fechei os olhos tentando não ver – desejando esquecer – e mesmo sem querer, novamente contemplei: esferas de vidro brilhante como pupilas pulsantes: cabelos castanhos de aspecto e tintura brilhante: membros rosados engessados em movimentos de carência materna, e abaixo da pintura do nariz plástico, desenhado em uma boca de lábios finos, um ambíguo sorriso petrificado inquietava minha visão como a representação material de um estrangulado choro mecânico: preso que estava no paradoxo de sua própria e absurda condição, aquele conflituoso estado entre ser e não ser, vida e morte, que não é nem um, nem outro.
-Me dá um real?
A insistência me arrancou de um estado que naquele momento tinha tomado por um súbito devaneio. Abri a carteira observando-a sentar-se ao lado de um poste elétrico; estendi-lhe a moeda.
-Não me toque!
- Só quero te dar…
-Papai me falou que só ele pode… me tocar. – Abaixei a cabeça sem saber como agir; decidi não perguntar.
Pus a moeda no meio fio olhando-a discretamente. Pela primeira vez enxerguei com clareza sua frágil constituição: uma profusão de inchaços, feridas e escoriações arroxeadas cobrindo suas coxas e região do umbigo como carapaças micóticas.
-Está com fome? Quem fez isso com você?
Retirei do bolso um pacote de amendoim e coloquei ao lado do dinheiro, mas ela não respondeu e para minha surpresa começou a alimentar a boneca.
- Eu lhe dei o amendoim …
- Gosto de brincar com ela, dá menos trabalho que a outra. - Sua voz era distante e pastosa.
Colocou o bebê dormente no chão, balançando-o.
-Vai machucá-lo menina. –Falei com certa irritação.
Senti um impulso de levá-lo, mas antes de agir uma pergunta me deteve.
-Não quer ver? – A voz saía opaca e o frio aumentava.
- O quê?
-Isso.
Acordou-o em um susto; o choro mesclou-se ao lamento mecânico da boneca. Não fosse meu cansaço, certamente teria fugido com a criança de colo.
Apontou o dedo para o bebê:
-Quieto barulhento! Cala boca que eu estou cansada, viu!
Virou para a boneca:
- Quietinho amor. Hoje mamãe está cansadinha, viu amorzinho do coração? – Acariciou a testa e os cabelos. Estendeu a mão e desligou-a atrás do pescoço.
-Tá vendo? – Olhou para mim. – Ela me obedece. – Continuou alimentando- a.
Se em algum momento em minha vida tenha me faltado palavras frente a um ato descabido, com tamanha subtaneidade e intensidade, não me recordo: se o choro mecânico antes pertubava, o real agora atormentava.
-Onde você mora?
-Depende.
-Depende? Dê-me o bebê. – Aguardei.
Segurou-o em um aparente gesto protetor, no mesmo instante que um objeto pontudo escorregou da manga do mijão. Olhei para baixo.
-Têm fogo moço?
Mesmo paralisado pelo horror do momento, peguei do meio fio um desgastado cachimbo de crack. Examinei-o e achei por bem devolvê-lo com a desculpa de tê-lo quebrado acidentalmente.
-Vamos.
Não respondeu, mas não insisti. Olhei-a de frente, por puro impulso… Estaquei: olhos de brasa vitrificados, vazios e carentes: abismos espiralados, incrustados em pupilas dilatadas, sugando inexoravelmente para seu vórtice meu temor e assombro: pérolas negras, pulsantes com vida artificial e caricaturas de vontade própria.
Por um momento achei encarar um sonambulismo em pele e osso.
-Não tem problema moço, quebram mesmo… Tenho de montão.
Sua resposta me mostrou a inutilidade do meu ato com a clareza de um raio na escuridão.
-Mas você… Quer dizer que você…
- Estou indo. – Interrompeu bruscamente.
Tentei não olhar: não consegui.
Levantou-se; acompanhei os passos cambaleantes alargarem nossa distância, enquanto a cortina de neblina a reduzia a um mero ponto cinza, um espectro solitário de transparência e vapor exalando na escuridão.
Fechei os olhos me sentindo confuso e indeciso, sem saber se retornava ao estacionamento ou seguia: uma corda puxada em direções contrárias, forças opostas clamando território e eu, encarcerado em minha prisão de incerteza, clamando para mim mesmo ação e compreensão.
Olhei para frente e não vi nada além da indefinição da escuridão umidificada pela neblina, manchada prata no brilho lunar, metamorfoseada veludo pela imperfeição da visão.
Decidi não decidir, preferi não pensar e quando dei por mim, me vi impulsionado pelo lamento, agora um quase indistinto farrapo sonoro estendido no espaço como uma ponte frágil – cordão umbilical?-, me levando para um destino ignorado, um rito de passagem para algo que eu não definia… Mas sentia.
Apertei o passo furando a incerteza, tentando definir o indefinido, e distinguir, o que no momento, me pareceu ser a voz da garota, mas cercado que estava pela monotonia do vazio e mesmice monocromática, só quando alcancei o meio fio pude reconhecer abaixo de um poste distante, o mesmo ponto cinza ascendendo os degraus de uma estrutura alta e angular, semelhante a um depósito.
-Garota, o bebê!
Uma descarga de adrenalina me possuiu; desci o meio fio como que atraído por uma espiral imantada de vontade e mistério, porém alcançando os degraus, percebi que o que tomava por um ponto cinza móvel no espaço, não passava de um ponto cinza móvel: uma caixa postal sustentada em uma frágil base de ferro: inquietada pelo vento, tornada luminosa pela emanação lunar na superfície acinzentada.
Olhei para cima e percebi que meu opaco abrigo de luz agora operava como a lembrança de minha condição:a certeza de estar cercado por algo etéreo e indefinido, além de sombra e neblina.
O vento sibilou; senti um som solidificar, e da periferia de minha perplexidade, uma imagem mental cristalizou com a nitidez de uma fotografia em alta definição: uma criança de boca petrificada pendurada em uma cruz, lamentando para o nada com lágrimas de óleo e resina: a vertigem que não era: um pesadelo tornado carne pela insistência do real.
“Moço?”
Toquei as têmporas buscando foco, e racionalizando o irracionalizável, concluí que o chamado, diferente da imagem, emanava de fora para dentro, ou melhor: de fora da casa para dentro de mim: “Moço?”
-Cadê você? – Olhei para os lados, mas não distingui.
Examinei a fachada do depósito como se contemplasse uma pintura decadente parcamente iluminada: uma aglomeração de mofo aqui, uma emanação fungóide ali, um reboco caído acolá: rachaduras esverdeadas entrecortando tufos de matos e ervas daninha como varizes rebeldes; janelas de olhos cansados e madeira bolorenta revelando na carência de vidros e vitrais, interiores de realidade e substância penumbrosa; tintas descascadas esparramadas na calçada como resquícios de maquiagem vencida e máscaras de gesso; fluorescências lunares colocando em parco relevo rugas de chapisco e feridas abertas de cimento úmido; pinceladas de sombra e escuridão como excessos de ausência em um canvas branco: por um momento não soube se olhava para uma matéria envolta em mistério, ou uma vertigem recém-nascida: o vazio que não era: minha dúvida sólida… Viva, vívida e pulsante.
Fechei os olhos, suspirei. Subi os degraus de cabeça baixa medindo minhas pisadas como se explorasse um campo minado; adentrando o umbral, um feixe de prata lunar da janela lateral feriu minha visão com uma fileira irregular de sacos de estopa dispostos no chão como peças de xadrez. À frente deles, onde a luz não tocava o piso, refulgências de formas e tamanhos distintos decoravam a escuridão aleatoriamente como pontos brilhantes e pulsantes: se eu vivesse o suficiente para presenciar algum apocalipse, ou a descida do firmamento estrelado em solo terrestre, certamente me lembraria do efeito.
-Garota?
Um som me retornou como a personificação sonora de uma língua extinta: se era meu chamado retornado como um eco raquítico, ou um espectro ruidoso proveniente de outra fonte sonora, não sabia.
Andei uns dois metros e examinei o feixe de luz do umbral ao teto; percebi uma movimentação na parede semelhante a uma dança brusca e espasmódica, como um teatro de sombras silencioso e convulsivo.
-Onde está o seu pai! Está me ouvindo?! – Insisti.
“Moço, só o papai… Só ele viu?”
-Cadê você?
Senti sua proximidade pela intensidade pastosa de sua voz enquanto me aproximava do feixe luminoso; ouvi o lamento seguido do mesmo choro e abaixo dos meus pés outro som me obrigou ajoelhar. Antes de tatear por completo distingui a forma de uma seringa; à minha direita o que tinha tomado por pontos luminosos como estrelas, na verdade se tratava do brilho de agulhas usadas e papelotes laminados entrecortados por cachimbos de crack, estiletes e outras seringas. Levantei-me e fui aos sons que pareciam emanar à minha esquerda: andei, olhei, atentei… Petrifiquei: uma onda de medo me dominou quando distingui sacos de estopa como cobertores abrigando movimentos abstinentes e convulsivos, refletidos na parede como atores de sombra em um drama real de vício, abandono e pobreza. Preferi não olhar para os mendigos, mas eles retornaram com olhos de vidro e abstinências insistentes; minha proximidade ao som lembrou-me que a manta fria era do mesmo teor da garota: se eu tivesse dado mais dois passos morreria congelado.
Neste momento tive a certeza que não apenas viveria o suficiente para presenciar um apocalipse, como estava no meio dele: silencioso, convulsivo e real.
Os sons intensificaram e distingui o choro da boneca à minha direita; girei o pescoço: onde antes pairava um aglomerado de incerteza e escuridão, ao lado do último mendigo, agora refulgia uma moldura luminosa; dentro dela, a garota me olhava com olhos lânguidos e boca cerrada, como se encarcerada em um castigo de silêncio opressor.
-De onde vem essa luz? Este é o seu pai? –Apontei para o mendigo.
-Me dê o bebê… Venha comigo, quero te ajudar. – Insisti.
O frio intensificava na medida em que sua boca se perdia em espasmos e ondulações musculares como que impactada por ondas de choque elétrico.
-De onde vem esse frio?
Silêncio.
-Porque que não responde?
Observei-a por um momento e olhei para o mendigo, agora tão imóvel quanto ela; decidi não abordá-lo.
-Este é o seu pai?
O silêncio da garota começava a pesar em meus nervos.
-Venha comigo… Garota… Pelo menos me dê a criança. Vamos! – Gritei.
O bebê disparou a chorar no mesmo instante que os lamentos intensificaram; fui envolvido em uma cacofonia sonora que me obrigou a proteger os ouvidos; tentei me mover… Não me movi, gritar e não consegui, mas senti, ouvi e senti: gritos, lamentos, estáticas, espasmos e abstinências me imobilizando em um iceberg de incerteza, temor e assombro, uma prisão de paredes úmidas e grades de gelo, sustentada pelos alicerces da realidade.
Respirei fundo de olhos fechados e com um último resquício de energia avancei de braços estendidos para a garota:
- Não me toque !!!
Um jato frio me envolveu quando senti o toque de sua pele (ou o que tomava por pele) em minhas mãos: fui tomado, acho eu, por uma série de espasmos e convulsões como se agulhas afiadas e lâminas de vento frio penetrassem em meus ouvidos e narinas; vi-me momentaneamente imobilizado em um casulo de vapor congelante no mesmo instante que um fugaz entendimento lampejou em minha mente: a sensação de ter atravessado uma densa cortina de fumaça gélida.
A última coisa que me lembro foi o sangue aderindo em minha face como um verniz pegajoso, produto do trauma provocado pelo meu impacto na parede chapiscada.
E agora, depois de vinte anos, ainda hoje lamentos me assombram e perseguem. Levanto-me da cama, e da janela no primeiro andar observo-a abaixo de um poste com uma mão estendida: os mesmos olhos, pedidos, bonecas (reais e imaginárias), sons e ausências, os mesmos…
Desço as escadas de pijamas para me encontrar com minha… Lidar mais uma vez com meu assombro e incerteza: meu gélido espectro de vapor e obsessão, um fantasma possessor, mas um fantasma vivo, vívido e real: feito de dor, choro, carne e abandono.
FIM
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Achei demais, intenso e muito bem escrito! Me admiro que este conto esteja afundado aqui embaixo =)
Thanks! Não sei como eles arranjam os contos aqui no ONE, mas acredito que seja pelo número de comentários.
Abraço!
É sim. Se bem que de uns dias pra cá o topo tá meio estranho…