Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Sep
10
2011

Lógica Implacável

Escritor: Ramon Bacelar

Em uma fria e acinzentada tarde de outono, um homem em terno preto de andar desengonçado, adentrou um não menos gélido recinto e saudou polidamente:

-Bom tarde alguém…

A atendente retirou os fones antes de responder.

-Boa tarde meu senhor, o que deseja?

-Não é aqui a ótica Bons Olho?

-Ótica Bons Olhos, sim? – ressaltou com voz suave.

-Eu queria um óculo.

-Pode me dar a receita?   –arqueou as sobrancelhas e apontou para a vitrine. – Pelo formato do seu rosto acho que estes podem…

-Receita? Senhorita, não sou cozinheiro, só quero… – pausou coçando a cabeça. – Eu não pedi um par de óculos- olhou-a nos olhos. – Quero um… Óculo.

A moça emudeceu.

-Não entendeu?

Balançou a cabeça cautelosamente em sinal negativo.

-Por favor, estenda a mão senhorita.

-Como senhor?

-Por favor – falou ansioso.

-Obrigado. Gosto de atendentes atenciosas… Eu pedi para estender a mão…

-Aaaiii socorro, socorro o senhor é louco!!

O susto da atendente obrigou-o a resgatar o olho postiço que saltitava como uma bola de gude no vidro da vitrine.

-Me desculpe! – inseriu o postiço na cavidade esquerda observando-a com o outro – Na verdade… Não, senhorita; não é preciso limpar as mãos no guardanapo. Próteses oculares são bastante higiênicas. Não sangram e as umidades e resíduos lacrimais, o mingau das almas como vovó falava (hehehe), são menos densos e pegajosos que o pus de uma infecção retinal: num piscar de olhos ressecam como caroquinhas de nariz e se tornam inodoros e quebradiços, tão frágeis quanto giz escolar, empada de bacalhau ou cocada de côco – balançou a cabeça em tom pesaroso. – Que saudades das receitas da vovó! – salivou com as mãos na barriga.

A atendente tocou na garganta como se fosse vomitar, mas não reagiu.

-Permita-me aproximar para concluir meu raciocínio, minha lógica implacável? – ela petrificou como um bloco de gelo.

-Pois bem … Seria inadequado a senhorita me considerar um perneta ocular, pois este adjetivo já foi implantado e ocupa o lugar que lhe é de direito; na verdade uma posição de destaque em minha frágil constituição carnal, – suspendeu a perna de pau e continuou – muito menos um maneta visual pelos mesmos e tristes motivos. – não moveu o braço, mas abaixou a cabeça – Certamente (palavrinha que rima adequadamente com carente) minha pálbebra esquerda carece maior atenção de minha parte, devido às inúmeras privações que minha vida lhe impôs.– suspirou e fechou um olho, encarando-a com o vazio escuro da prótese. – Agora entende porque eu quero um óculo? Está claro? – fechou a prótese e abriu o outro. – Para mim agora está… Muito claro.

A atendente, concluindo que o pobre diabo não batia bem da bola, lhe acompanhou à cadeira, e com um suspiro de alívio tentou outra via de acesso.

-Entendo perfeitamente o que quer dizer, mas inteligente e sensato que é…  – pescou as palavras – Não seria mais adequado… um par de óculos?

O homem coçou a cabeça, mas não retorquiu.

-Sua prótese, muito bem feita, na verdade… – prosseguiu com cautela. –, “na verdade” não é uma prótese, a não ser para o senhor que “sabe”. Entende?

-Como? Entendo?!

Esbugalhou os olhos, acometido por um súbito insight; continuou:

-Sim, claro! E com apenas um óculo poderia gerar comentários e ressaltar aquilo que – apontou o indicador para o postiço – deveria ficar no “escuro”.

A atendente sorriu nervosamente.

-Minha querida; muito, muito, muitíssimo obrigado pela luz. Você acaba de me abrir os olh… o olho,  para outro furo de lógica que até então não tinha enxergado… Monomíope que sou! – Escancarou o direito.

-Como senhor?

-Obrigado!

Correu ao banheiro.

Dois minutos depois, um grito abismal a retirou de seu estado catatônico.

-Obrigado!! Aaaahhhhh…. Aaahhhhhh…. Ahahahahahaha!!!

Da porta do banheiro, um rosto lavado em sangue cambaleava em pernas de avestruz bêbada.

-O que… que… Meu Deus!!! – a moça engasgava com a saliva enquanto a cena de horror congelava sua capacidade de reação.

-Aaaahhhh…Obrigado!!! Aahahaha Se não fosse pela senhorita!!

-Senhor se acalme, estou indo buscar ajuda!

-Não!! Já fez muito por mim, você me mostrou o caminho da luz!!!

-Meu Deus, eu estou indo….

-Não, fique aqui!Você… está na minha frente? (aiii!!!), sim aqui é o balcão. Por favor, me escolha um sutil e elegante par de “óculos” e não esqueça, lentes escuras “sem” grau ( aahhh!!!)!

Foi a última coisa que falou, antes de lhe pedir para jogar a pulsante órbita direita na lixeira.

FIM


Written by Ramon Bacelar in: Agenda,Contos,Ramon Bacelar |

No Comments»

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério