Lógica Implacável
Escritor: Ramon Bacelar
Em uma fria e acinzentada tarde de outono, um homem em terno preto de andar desengonçado, adentrou um não menos gélido recinto e saudou polidamente:
-Bom tarde alguém…
A atendente retirou os fones antes de responder.
-Boa tarde meu senhor, o que deseja?
-Não é aqui a ótica Bons Olho?
-Ótica Bons Olhos, sim? – ressaltou com voz suave.
-Eu queria um óculo.
-Pode me dar a receita? –arqueou as sobrancelhas e apontou para a vitrine. – Pelo formato do seu rosto acho que estes podem…
-Receita? Senhorita, não sou cozinheiro, só quero… – pausou coçando a cabeça. – Eu não pedi um par de óculos- olhou-a nos olhos. – Quero um… Óculo.
A moça emudeceu.
-Não entendeu?
Balançou a cabeça cautelosamente em sinal negativo.
-Por favor, estenda a mão senhorita.
-Como senhor?
-Por favor – falou ansioso.
-Obrigado. Gosto de atendentes atenciosas… Eu pedi para estender a mão…
-Aaaiii socorro, socorro o senhor é louco!!
O susto da atendente obrigou-o a resgatar o olho postiço que saltitava como uma bola de gude no vidro da vitrine.
-Me desculpe! – inseriu o postiço na cavidade esquerda observando-a com o outro – Na verdade… Não, senhorita; não é preciso limpar as mãos no guardanapo. Próteses oculares são bastante higiênicas. Não sangram e as umidades e resíduos lacrimais, o mingau das almas como vovó falava (hehehe), são menos densos e pegajosos que o pus de uma infecção retinal: num piscar de olhos ressecam como caroquinhas de nariz e se tornam inodoros e quebradiços, tão frágeis quanto giz escolar, empada de bacalhau ou cocada de côco – balançou a cabeça em tom pesaroso. – Que saudades das receitas da vovó! – salivou com as mãos na barriga.
A atendente tocou na garganta como se fosse vomitar, mas não reagiu.
-Permita-me aproximar para concluir meu raciocínio, minha lógica implacável? – ela petrificou como um bloco de gelo.
-Pois bem … Seria inadequado a senhorita me considerar um perneta ocular, pois este adjetivo já foi implantado e ocupa o lugar que lhe é de direito; na verdade uma posição de destaque em minha frágil constituição carnal, – suspendeu a perna de pau e continuou – muito menos um maneta visual pelos mesmos e tristes motivos. – não moveu o braço, mas abaixou a cabeça – Certamente (palavrinha que rima adequadamente com carente) minha pálbebra esquerda carece maior atenção de minha parte, devido às inúmeras privações que minha vida lhe impôs.– suspirou e fechou um olho, encarando-a com o vazio escuro da prótese. – Agora entende porque eu quero um óculo? Está claro? – fechou a prótese e abriu o outro. – Para mim agora está… Muito claro.
A atendente, concluindo que o pobre diabo não batia bem da bola, lhe acompanhou à cadeira, e com um suspiro de alívio tentou outra via de acesso.
-Entendo perfeitamente o que quer dizer, mas inteligente e sensato que é… – pescou as palavras – Não seria mais adequado… um par de óculos?
O homem coçou a cabeça, mas não retorquiu.
-Sua prótese, muito bem feita, na verdade… – prosseguiu com cautela. –, “na verdade” não é uma prótese, a não ser para o senhor que “sabe”. Entende?
-Como? Entendo?!
Esbugalhou os olhos, acometido por um súbito insight; continuou:
-Sim, claro! E com apenas um óculo poderia gerar comentários e ressaltar aquilo que – apontou o indicador para o postiço – deveria ficar no “escuro”.
A atendente sorriu nervosamente.
-Minha querida; muito, muito, muitíssimo obrigado pela luz. Você acaba de me abrir os olh… o olho, para outro furo de lógica que até então não tinha enxergado… Monomíope que sou! – Escancarou o direito.
-Como senhor?
-Obrigado!
Correu ao banheiro.
Dois minutos depois, um grito abismal a retirou de seu estado catatônico.
-Obrigado!! Aaaahhhhh…. Aaahhhhhh…. Ahahahahahaha!!!
Da porta do banheiro, um rosto lavado em sangue cambaleava em pernas de avestruz bêbada.
-O que… que… Meu Deus!!! – a moça engasgava com a saliva enquanto a cena de horror congelava sua capacidade de reação.
-Aaaahhhh…Obrigado!!! Aahahaha Se não fosse pela senhorita!!
-Senhor se acalme, estou indo buscar ajuda!
-Não!! Já fez muito por mim, você me mostrou o caminho da luz!!!
-Meu Deus, eu estou indo….
-Não, fique aqui!Você… está na minha frente? (aiii!!!), sim aqui é o balcão. Por favor, me escolha um sutil e elegante par de “óculos” e não esqueça, lentes escuras “sem” grau ( aahhh!!!)!
Foi a última coisa que falou, antes de lhe pedir para jogar a pulsante órbita direita na lixeira.
FIM
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