Um Dia de Cão – Parte 1 de 4
Escritor: Dee
Cão olhava com espanto para o seu reflexo no espelho.
O sangue descia pela sua testa, cobria seus olhos e mantinha o delicioso gosto de ferro em sua boca constantemente, sua cabeça doía, e cão sentia dificuldade em organizar os últimos acontecimentos.
- Tudo por causa de um maldito café! – Murmurou ao vento, esquecendo da companhia da jovem garota que se encolhia tremendo e chorando em uma longa agonia no canto da sala – Tudo culpa do maldito café.
Cão sacudiu a cabeça, espantando os pensamentos intrusos, abaixou-se até as meias, pegou uma pistola prateada e uma adaga bem trabalhada, ambas guardadas nas pernas.
- Agora, vamos pegar aquele puto e aquela vadia! – Rosnou entre os dentes avermelhados pelo sangue que despertava nele certo instinto muito bem vindo.
Parte I – Bons Problemas começam em dias ainda melhores
O dia começava normal para Cão às 14h35min, o horário certo para se acordar. O forte sol já tinha se ido, o barulho de crianças resmungando sobre a escola já cessara, um bom café da manhã com calabresa crua, carne moída com limão e alguns copos da mais pura aguardente faria o dia ainda melhor. Essa realidade fez Cão sorrir do fundo do coração em seu quarto solitário, e finalmente sentir vontade de sair da cama, rumando direto e reto para a cozinha.
- Cão, traga um café para mim – Disse Jarede assim que percebeu a presença do assistente caminhando pela residência – Estou trabalhando naquele caso dos Moura, o roubo a residência deles foi muito estranho. Muito estranho mesmo.
Cão colocou a cabeça para dentro da biblioteca-escritório.
- Sim senhor, trago chefe, vou mijar primeiro e café depois.
Jarede assentiu com a cabeça, jogando de lado o pedido e se inserindo de novo na realidade do trabalho.
Jarede era detetive particular, enquanto estava em um caso, mal comia, dormia ou fazia qualquer coisa que não fosse o caso. E alem disso, cobrava honorários estranhos, Cão se lembra de ter visto seu chefe ser pago em lágrimas ou com um sorriso, não que isso importasse, afinal sempre pagava as contas em dia, e o aluguel de uma casa paralela a Avenida Paulista não é dos mais baratos, nem o estilo de vida que levavam.
Cão vestiu a velha calça jeans onde parecia ter uma coleção de manchas de gordura, colocou a jaqueta de courim preta, tão desgastada e rachada que um observador desatento pode achar que é um couro de crocodilo enegrecido, e partiu até o único boteco da região onde encontraria comida para o chefe. Jarede é uma fada autentica, pura, e não um hibrido como a grande esmagadora maioria das criaturas nesse tecido da realidade, e como tal, tem o dobro de frescuras que as hibridas sonham possuir. Comida mortal é fatal, o chefe só pode comer comida para fada, feita por fadas com material de fada cultivado por fadas com todas as viadagens que só as próprias fadas conhecem.
O rápido raciocínio de Cão sobre a comida do chefe embrulhou seu estomago, para ele comida boa é comida viva, ou o mais próximo disso possível.
Continuou o caminho pela movimentada e barulhenta Avenida Paulista, parando próximo de um monumento na entrada de um prédio comercial, e olhando para os lados entrou em uma esquina furtivamente, ou o mais furtivo que um jovem homem aparentando 25, 30 anos, sujo, cheirando mal, vestido com uma jaqueta que parece couro falso de crocodilo enegrecido, uma calça jeans verde escura, verde clara na verdade, mas obscurecida pelas manchas de sujeira e completamente descalço, mas acredite, você não o notaria a menos que Cão quisesse. Andou mais alguns metros rua adentro, parou em um pequeno, mal localizado e sujo bar em um pequeno beco próximo da rua Brigadeiro, entrou, ignorando o velho esbaldando decadência que jazia bêbado a pelo menos uma semana no bar e passando reto pela atendente gorda por traz do balcão com uma enorme pinta peluda no rosto redondo, ela o acompanhou com o olhar, ele deu de ombros e foi até a porta traseira do bar, que ao abrir dava para uma pequena, mas bonita área de limpeza, com um teto de vidro por onde o sol entrava, fechou a porta a traz de si, esperou alguns segundos bateu nela de forma ritmada e abriu novamente, o borbulhar de alegres conversas tocou seus ouvidos, acompanhado de perto pelos aromas mais exóticos possíveis. Atras daquela mesma porta, existia, em outra vibração/realidade/ou oque quer que seja, ficava a Taverna do Bardo, o bar das fadas, hora de pegar o café-boioloa do chefe.
A Taverna do Bardo é um dos pontos de encontro das fadas dessa realidade, sua entrada fica em muitos lugares, e sua localização exata em lugar nenhum. A Taverna existe desde que Cão se lembra, e o Bardo sempre esteve à frente dela, sempre sorrindo, e sendo assessorada por Graciele, uma moça calada e a única atendente – fora o Bardo – a trabalhar ali. Cão não gostava do ambiente da Taverna, havia fadas demais por metro quadrado. Não que tivesse algo contra fadas, só não gostava delas, mas não as odiava, afinal era metade uma também. Mas sempre confessava para si mesmo, o quão frescas elas eram.
Encostou no balcão, feito de madeira antiga e mármore cinza, e logo a figura do Bardo o atendeu, um jovem magro, vestido em roupas de couro marrom, enfeitadas com detalhes em ouro, de olhos vendados e com um gigantesco sorriso agora dirigido à Cão.
- Olha só o que os Ventos Latinos me trazem! O velho Cão em pessoa! O que o seu mestre deseja meu caro amigo ofensor de olfato? – O sorriso do Bardo era tão largo, sua voz tão energética e contagiante que Cão resolveu ignorar a leve ofensa, mesmo sem ter se ofendido, afinal não tomava banho com freqüência mesmo.
- Me vê um néctar de ardória, lemba na luz lunar, e uma garrafa de 51, o néctar e a lemba para viagem, a 51 eu quero com canudo – O Bardo fez um sinal com a mão, uma jovem de cabelos presos levemente arroxeados vestida em couro azulado, levantou a cabeça e fez um sinal de “já vou”.
- Graciele vai colher o néctar, a 51 eu mesmo pego, por favor aguarde um pouco caríssimo amigo, vejo que seu paladar continua extremamente refinado, já aprendeu a cozinhar o que come? -
Cão resolveu ignorar de novo.
Logo o café-boiola do chefe estava em suas mãos, e Cão já acabara com metade da 51, juntou as coisas, e se dirigiu à porta, feliz por estar saindo da Taverna, mais 15 minutos ali ouvindo as papagaiadas das fadas e quebraria a garrafa na cabeça, mandaria todos a merda, furaria os próprios tímpanos e cortaria a garganta por fim. A poucos metros da porta Cão ouviu um “click” da porta sendo aberta por fora, uma garota entrou desesperada esbarrou em Cão o derrubando, voou lemba, néctar e 51 a até 10 metros do ponto de impacto. No chão Cão sentiu o peso da garota, que ótimo, ele amortecera o impacto para ela. Sentiu um formigamento tomar seu corpo, um cheiro característico alcançou suas narinas, lembrava ferro, mas era mais doce, esse em especial era muito mais doce.
- Sangue! – diz a si mesmo com os olhos arregalados.
A boca da garota estava sangrando com a queda, ou talvez já carregava esse ferimento antes. Cão se levantou, os olhos saltados e lambendo os lábios que tremiam, se aproximou do rosto da garota, aparentemente apagada pela inesperada colisão, segurou a cabeça com uma das mãos, lambeu o canto da boca onde o sangue dela escorria, e beijou sua boca, buscando o gosto do sangue com a língua. A garota abriu os olhos assustada empurrando Cão para trás.
- O que você ta fazendo?! Seu louco! – gritou a jovem cuspindo e limpando a boca ao longo do braço, se arrependeu ao olhar o rosto do agressor, um jovem sujo e louco, seu corpo tremia, e os lábios estavam doentiamente vermelhos.
- Esse… Sangue… – Resmunga Cão lambendo os lábios e envergando o corpo – Humana! você é humana! Como entrou aqui?! – Gritou retomando o controle, esticou o dedo em sinal de acusação para a jovem garota, que agora parecia ainda mais jovem.
O Bardo saltou do balcão, pousando elegantemente no meio exato entre os dois, uma mão levantada e a outra na espada em sua cintura.
- Silêncio temos outros clientes no recinto! – Disse com seu habitual sorriso, mas no mesmo tom que se diz “passa!” a um cachorro vira-lata – Graciele já esta colhendo outro néctar pra você Cão, e garota, Denize é o seu nome certo? sente-se, a primeira bebida é por conta da casa.
A garota olhou com espanto para o Bardo que acabara de dizer seu nome.
- Como sabe meu nome? Agente se conhece? Ou… – O rosto de Denize se retorce em dor – Ou você também trabalha para ele? – Gritou a garota começando a chorar. Essa é a atitude correta dos humanos frente a qualquer coisa que quebre sua frágil concepção de real – Como sabe meu nome moço…
- Sei o que tenho que saber garota – Disse o Bardo de uma forma que Cão poderia jurar ser a bronca de um pai a uma filha – Sei que esta sendo perseguida, que entrou aqui por engano, que estava fugindo de dois homens e um em especial, sei sobre sua irmã. E que precisa de proteção – O Bardo puxou uma cadeira – Venha, sente-se.
Graciele trazia as coisas de Cão, ele agradeceu, não com um obrigado, mas com algo próximo de um grunhido e se dirigiu à porta.
O Bardo sussurrou algo para Graciele e voltou o olhar vendado para onde cão se dirigia.
- Hum… Cão! Humanos não podem entrar sozinhos no bar, você deixou a porta entre as realidades abertas?! – Disse em tom bem menos de pergunta e muito mais como um inquisidor.
- Eu não fiz nada, a humana entrou sozinha! – Cão falou “humana” como quem diz “pulgas” ao descobrir as penetras em seu animal de estimação – Não é minha culpa, se ela entrou aqui, é porque você não sabe esconder essa espelunca direito! – Espeluncas estavam no topo da lista de lugares que Cão gostava de frequentar, mas sabia que a palavra iria ofender o Bardo – E outra, não te devo satisfação nenhuma, nem nada a você! – E continuou o caminho até a porta com o peito estufado a passos largos.
Denize soluçava e chorava, bebendo com vontade uma H2Oh trazida por Graciele, enquanto a jovem atendente ouvia os murmúrios da humana.
O rosto do bardo exalava ódio pelo imundo cliente, analisou rapidamente a situação, voando por sobre os acontecidos, vendo coisas que mais ninguém viu, ou que ainda vão ver e reprisando tudo em dua mente diversas vezes, isso durou cerca de meio segundo.
- Na verdade, você deve – Disse calmamente, passando a mão nos cabelos de Denize.
Cão parou sua marcha de triunfo rumo a porta e se virou para o Bardo.
- Devo a quem? – Rosnou.
- A Denize.
Cão franziu a testa.
- Afinal, você bebeu do sangue dela, e ainda roubou um beijo da donzela, sem autorização ou troca. Cão que coisa mais feia… – Disse virando-se para a garota – Você precisa de ajuda não é mesmo?
- Sim… – Completou Denize, e desabou em mais lágrimas. Bardo sorriu por dentro.
O rosto de cão se contorceu em fúria, queria estripar o Bardo, que por sua vez o fitava com a venda em deboche.
- Ó! é mesmo que indecência a minha! – rompeu o Bardo batendo as mãos como quem se lembra de algo importante, voltou seus olhos escondidos sob a faixa na direção de Denize e prosseguiu – Eu sou o Bardo, proprietário da Taverna aonde você indevida e inadvertidamente adentrou, essa moça quieta e sorridente que te atendeu e te ouve é Graciele e esse cavalheiro – Apontou o dedo precisamente posicionado em arco para o sujo Cão furioso – Que nomeio como cavalheiro por pura educação, que ele alias não possui é Cão, com seu nome auto-explicativo.
Denize olhou para os três que a rodeavam, Graciele a seus pés, o Bardo ao seu lado voltando a acariciar seus cabelos e Cão mais perto da porta que dela, respirou se acalmando e tomou um grande gole de sua bebida. Com mais calma percebeu o silencio e a atenção que se formava ao seu redor.
- O senhor… é cego? – Emendou Denize, questionando o Bardo vendado, mais para falar algo, que por dúvida real.
- Sim na estética, mas não no seu conceito da palavra. – O Bardo sorriu e beijou a mão de Denize.
- O senhor falava sobre me ajudar… eu quero, preciso… – Disse em um triste miado, falando finalmente o que a consumia.
- Ótimo! Quer ajuda? Então vamos sem demora, o meu amigo Cão vai ajuda-la, certo Cão? – E sorriu para Cão, que estava posicionado ainda mais perto da porta, com rosto visivelmente tomado por uma fúria ainda mais profunda e querendo ainda mais, muito mais, estripar o Bardo, que por sua vez adorava a situação. – Então, repita comigo mocinha – Disse pegando um cálice dourado como que do ar e despejando o restante de H2Oh nele – “Pelas leis imutáveis do Arco, cobro o valor que me foi tomado, exigindo lealdade, até que a divida a sanar não mais seja verdade…”.
Denize respirou uma ultima vez, piscou de leve, e confiante no sorriso do Bardo repetiu com força, mas logo voltou a choramingar.
- “Pelas leis imutáveis do Arco… cobro o valor que me foi tomado, exigindo lealdade… até que a dívida a sanar não mais seja… verdade…”.
- “E que o Fosso cobre o preço pelo ato, se Denize ou Cão quebrar o contrato”. – Finalizou o Bardo, seu olhar de deboche para com Cão se multiplicou por doze.
- “E que o Fosso cobre o preço pelo ato… se Denize… ou Cão… quebrar o contrato…” – Completou Denize voltando a ficar oscilante.
O Bardo entrega o cálice dourado com H2Oh para Denize beber – Só um gole menina – Diz com carinho. Caminha até Cão poucos passos da porta, e entrega o cálice ao sujo, enraivecido e leal jovem, que o bebe sem dizer uma palavra. Joga a comida do chefe no chão com fúria, caminha até a jovem garota, com a cabeça baixa, a pega sem o mínimo de cuidado pelo braço e sai da Taverna batendo a porta, sentindo o olhar triunfante do Bardo as suas costas.
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