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Oct
26
2011

A noite do lobisomem

Escritor: Guilherme Sakuma

Foi quando eles começaram a falar da trilogia do Senhor dos Pastéis, que Robson (garoto meio pobre, muito preto, esforçado na escola, meio psicopata, amigo de alguns caras que tinham papai rico, péssimo jogador de futebol mas bom de briga e de garfo, não muito bonito, não exatamente a personificação do “Ébano” da música que a Alcione canta), viu que a coisa estava ficando preta/negra/afro-descendente, ou melhor: braba.

Depois resolveram “discutir” Precoces e Furicosos 5, o que foi a gota d’água.

Daí que ele nem deu tchau para essa turma quando foi saindo à francesa da festa da molecadinha bacana, babaca, pau na lomba, etc. Ninguém o deteve pelo caminho; ninguém disse “Já vai? Nossa, mas ainda tá tão ceeedooo!”, “Fica mais, vai! Fica! FICA!!”, ou “… só porque eu tava a fim de DAR pra você antes do fim da festa…”, ninguém disse nada.

“Melhor assim”, ele falou baixinho para si mesmo, bem sabendo que não era porcaria nenhuma melhor.

Ia ladeira abaixo, fazendo o caminho de volta para o buraco de merda de onde tinha saído, quando foi abordado por oito caras maus, sujos e sórdidos. Queriam sua grana, sua calça jeans, sua camiseta e até seu tênis furado – e depois disso tudo talvez até o arrastassem para um beco escuro, onde fariam fila para comer seu rabo até fazê-lo cagar as tripas para fora…

Diante daquela situação Robson viu que ia ter de tomar alguma atitude. E foi isso que fez.

Primeiro largou uma benção (golpe de capoeira) no que vinha mais a frente, o fazendo voar pra trás levando junto consigo mais dois, rolando ladeira abaixo. Na sequência, empurrou outro deles para fora da calçada, bem quando uma Jamanta estava passando. Aproveitou-se de um que estava em choque diante da cena e o empurrou em frente a uma perua de lotação clandestina que vinha a mil por hora.

Daí ficaram sobrando três.

“Seu filho da puta, você vai pagar!”, disse o mais afoito, que veio correndo e escorregou num pedaço de pizza, sofrendo na hora um traumatismo craniano.

Agora eram dois.

Um desses saiu correndo, nunca mais se ouviu falar dele e de seu rabo covarde.

Ficaram apenas Robson e o último cara. Cheio de confiança, ele (Robson) partiu pra cima, com a guarda fechada mas ao mesmo tempo desferindo uma chuva de socos enlouquecidos – dos quais acertou cinquenta e sete (contando os trinta que deu quando o sujeito já estava caído no chão e inconsciente).

Umas pessoas que passavam na calçada vieram querer o segurar, ao que ele disse que se algum deles se aproximasse ele ia tirar a faca e abrir uma buceta na cara de alguém.

Resolveram “fechar o cu”, se afastar e fingir que não tinham visto nada, e Robson deu mais umas porradas no cara. Depois continuou o caminho ladeira abaixo em direção a estação de metrô, onde pegou o trem que o levou de volta para o buraco de merda de onde ele tinha saído.

Chegando em casa, sentiu-se tão agitado/com o diabo no corpo/virado no capeta/com fogo no rabo, que teve de sair de novo…

Novamente nas ruas, pegou o metrô e refez todo o caminho ladeira acima, fazendo questão de passar por aquele mesmo local onde todo o rololô tinha acontecido. Haviam policiais, curiosos, imprensa e o escambau por lá, mas ele passou incólume, meio que disfarçado pela escuridão, meio que tão nem aí que ninguém ficou nem aí pra ele.

De volta para a festa, vieram querer saber dele: “Porra, onde cê tava?” (Quem perguntou foi o Batata, menininho da vovó rica; otário-idiota mas mão aberta com quem Robson tinha curtido algumas noites selvagens regadas a cocaína, suco de laranja e pôquer Texas hold’em).

“Man, cê não viu o que aconteceu; bateram no Perninha!”, ele continuou. (Perninha era amigo dos dois e tinha esse apelido porque tinha uma perna menor que a outra.)

“Puta que pariu!”, soltou Robson. “Cadê ele?”

“Tá lá no banheiro, lavando o nariz sangrento.”

Tomado de fúria, coragem e vibrações tubaronísticas Robson perguntou com voz grossa de negão: “Quem foi?!”

Apontaram prum babaquinha bombado (na verdade um babacão…) que usava uma camisa rosa da Lacoste e uma larga corrente de prata que provavelmente valia uns 890 contos na praça.

Robson pensou “Depois que eu cuidar desse tipo, levarei essa estúpida corrente como troféu e conseguirei pelos menos uns trezentinhos na praça com ela”.

O sujeito conversava no meio de uma rodinha de amigos quando Robson chegou por trás e o atacou com uma fenomenal e sonora cotovelada na nuca…

Mas não foi o bastante; o playboy no mínimo devia lutar jiu-jitsu ou alguma merda assim, pois tinha o pescoço duro como um poste construído na época em que as coisas eram construídas para durar.

… e Robson ficou apanhando até fazer o sinal universal de “Tempo! Tempo!”.

“Ô, meu brother, acho que agora chega né?”, disse Robson, com os olhos cheios de sangue e um enorme galo na testa digno de uma cotovelada ou joelhada levada em luta de vale-tudo, tentando fazer voz de menino branco.

“Chega porra nenhuma, macaco filho da puta!”, disse a criatura da ameaçadora camisa pólo rosa com um jacarezinho bordado.

Vendo que não ia ter outro jeito, Robson deu um jeito de se livrar do mata-dragão que o outro lhe aplicava, e saiu no pinote.

Em corrida ele era realmente bom; num movimento ninja fez seu perseguidor contornar a piscina e cair.

Com essa, a galera foi a loucura… Gritos de “IÉÉÉÉÉÉ!” e “VIXXXIIIIII!” enfeitaram o ar como fogos de artifício explodindo enlouquecidos.

Camisa Rosa tomou impulso para subir de volta, mas Robson – que estava disfarçadamente fanfarroneando com a galera, só esperando uma brecha para tirar o cara de circulação – correu para lá e enfiou-lhe uma botinada – que emitiu um “SPOC!” surdo – nos dentinhos brancos, fortes e arrumadinhos de quem tinha tomado leitinho desde criança.

A turma do deixa disso logo apareceu – e todos então deixaram “daquilo” e se abraçaram e foram cheirar farinha, tomar cerveja, comer coxinha e estuprar coletivamente alguma bêbada dentro do carro de alguém.

O cara da camisa com cor de frauda foi embora, mas Robson continuou na festa. Antes de ir pra casa, encheu bem o cu de cachaça…

Não, peraí! Porque eu já estou falando de voltar pra casa? Nada disso. Tem mais um lance que eu tenho que contar: Robson beijou na boca de um cara só para ver uma garota beijando a outra de língua (era uma aposta). (Depois de American Pie toda festa de pré-adolescentes/adolescentes com merda na cabeça tem que ter dessas…)

Um pouco depois, levou uma garota de treze anos para o sofá (ele tendo dezoito) e deu uns amassos nervosos com ela – que deve ter achado que ele andava com um guarda-chuva fechado dentro do bolso da calça…

“E aí, como foi?”, ele perguntou ao final do melecado, desentupidor e salamandrico beijo de 13 minutos.

“Foi bom…”, respondeu a garota toda gatinha ronronante e safadinha. “Sempre quis saber como era te beijar. Sempre tive essa curiosidade.”

Tinha sido uma noite com tudo para dar errado, mas no fim tinha dado tudo certo. Até beijo da mocinha tinha rolado no final.

“Às vezes a vida não é uma merda completa”, Robson disse para si mesmo, caminhando de volta pra casa e admirando a lua que naquela noite tinha uma cor amarelada e estava envolta em nuvens.            Emanando mais vibrações coringuísticas do que nunca, agachou-se e uivou para a coisa agourenta.

“AUUUUUUUUUUUUUU….”

E em algum lugar Nuit e Aquele Que Jamais Se Revelará dançavam satisfeitos, rodopiando bêbados de sangue e outras drogas em torno da fogueira que nunca se apaga.

 

 

Guilherme Sakuma – 12/05/2011

 

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OBSERVAÇÃO PARA OS CABEÇAS-DE-REPOLHO: Nem todos os textos escritos em primeira pessoa (tipo: “Eu amarrei o filho-da-puta numa cadeira e cortei sua língua, seu nariz, suas orelhas, seus braços, suas pernas e seus testículos; depois levantei vôo que nem o super-homem e assassinei Deus” ou até um simples “Ontem atropelei um mendigo e não prestei socorro”) são sobre a vida do próprio autor que os escreveu ou sobre as coisas nas quais este acredita.

 


Written by Guilherme Sakuma in: Agenda,Contos,Guilherme Sakuma |

1 Comment»

  • Priscilla Rubia says:

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    Conto muito bom, bem-humorado. Gostei dos nomes dos filmes no início. A vida levada por Robson também foi descrita de uma forma interessante e humorada.
    Parabéns Guilherme! E, se os contos que escrevo em primeira pessoa fossem casos da minha própria vida, estaria completamente fudida.
    Abraços!

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