A Penitência
Escritora: Priscilla Rubia
A dor em suas costas incomodava.
Mas essa era a menor de suas preocupações.
Era para estar arrependido, para a penitência mostrar isso. Mas não estava. Estava incomodado, exausto. Mas não arrependido.
Valia a pena. Apesar do cheiro. Apesar do calor, valia a pena.
Ele o matara. Sabia que era errado, mas ele mereceu. Não devia ter lhe dirigido a palavra. Quem era ele? Ninguém! Ele mereceu. Realmente tinha merecido. E agora ele estava ali pagando, com aquele peso em suas costas.
Ficaria o carregando, até a morte.
O homem que matara jazia em suas costas, amarrado. Fora-lhe ordenado que não soltasse e suas mãos foram fortemente amarradas para garantir isso. Era obrigado a andar na rua principal da cidade, para que todos soubessem de seu crime.
Estava andando há sete dias. Era lhe fornecido quantidades pequenas de água e comida, só o suficiente para que não morresse e pudesse continuar andando.
O cheiro do cadáver era insuportável. O contato de sua pele na dele era nauseante. Ele podia sentir, podia até escutar a pele do morto secando, morrendo, apodrecendo. E sabia, sabia que não demoraria para sentir a mesma coisa em sua própria pele.
Teria de andar com ele, amarrado em suas costas até que os vermes aparecessem. Até que consumissem todo o corpo da vítima. Até que, insaciados, eles procurassem comida em sua pele.
E ele andaria e morreria. Até que agüentasse, até que o sol ou o cansaço o matasse. Mas sabia que teria muita sorte se essa fosse à causa de sua morte.
Ele morreria em penitência ao crime que cometera. Tirar uma vida humana. O homem que matara teria sua vingança. Ali morto em suas costas ele apodreceria e levaria consigo o seu assassino.
Como a dor em suas costas o incomodava.
Mas ele tinha muito mais com que se preocupar.
7 Comments»
RSS feed for comments on this post.








Espírito do Século. Novo RPG Pulp da RetroPunk já entrou em pré-venda!
Editora UNZA RPG estreia com suplemento GOBLINS em campanha para OLD DRAGON!
Alan Moore pede que leitores de Before Watchmen nunca mais leiam obras de Alan Moore
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
Papo na Estante 33 – Literatura de Entretenimento
Show, Don’t Tell ou Mostre, Não Diga.
Occupy Comics: Alan Moore e David Lloyd colaboram
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"
Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida 


Meu primeiro mini-conto, espero que gostem *-*
Caraca, este é um castigo que eu ainda não havia imaginado. Morrer aos poucos já é algo péssimo, mas nestas condições a coisa fica pior, insuportável.
Bom conto, Priscilla.
Franz! Valeu pelo comentário! Muito obrigada!
Abraços.
Muito bom Priscilla, também nunca tinha pensado nessa penitência.
Lembrei logo de um livro do Kafka chamado Na Colônia Penal, que também virou HQ, onde o diretor da prisão emprega um método de punição bem anormal: ele coloca o preso numa máquina que vai tatuando nele seus crimes até a morte para que ele sinta na pele o peso dos seus crimes.
Bastante interessante a punição mesmo =o Que bom que gostou do conto Renan =D
Obrigada pelo comentário, abraços!
Muito boa a maneira como você imagina o peso da culpa e descreve isso. Nota dez!
Mto obrigada Cyber *-*