A Sociedade – Parte III
Escritor: André Alves
Sílvia, você está ficando louca? Como pode fazer isso comigo?– perguntou a mulher, tentando, inutilmente, parecer confusa.
– Você que escolheu esse caminho! – Afirmou a outra, passando de um lado a outro da sala sem qualquer razão aparente. – Eu dei a você a opção de ser minha sócia, mas nun…
O som de vozes vinda da televisão foi interrompido pela campainha.
– Que merda! – resmungou a senhora, sentada de frente ao aparelho. – Quem é esse filho da mãe que vem aparecer na melhor hora? – a campainha foi tocada novamente, e dessa vez a mulher foi obrigada a levantar-se e ir atender.
Devia ter idade perto dos cinqüenta, pois as rugas já tomavam conta de seu rosto de nariz fino, bochechas caídas, queixo arredondado e olhos claros. Os cabelos, crespos e repletos de fios brancos, mostravam que a vaidade não era mais uma prioridade.
– Esse infeliz vem tocar essa merda na melhor parte da novela. Por que não arranjam um trabalho? – continuou resmungando.
A campainha deu mais um toque, deixando a mulher sem paciência.
– JÁ TÔ INDO! – gritou ela, pegando as chaves em cima da televisão.
Passou pela porta e saiu em direção ao portão. Não dava pra ver quem estava do outro lado, e o interfone estava quebrado, então:
– O que é que você quer? – perguntou a senhora, sem nenhum pouco de delicadeza, tentando projetar a voz por cima do portão.
– Eu gostaria de falar com Vítor Correia. – falou uma voz de homem, com um sotaque francês. – É um assunto importante.
– Quem é você? – perguntou ela, mais delicadamente agora. Pegou uma das chaves e enfiou na fechadura da porta de ferro.
– A senhora é o que dele? – perguntou o homem.
– Sou a mãe dele. – respondeu. Puxou a porta, revelando um homem esguio e de um sorriso gentil. – Qual é o seu nome?
Seu corpo comprido estava enfiado em um terno negro e calças e sapatos da mesma cor, faltando-lhe apenas uma gravata para ser um completo advogado. De barba bem-feita e cabelos ainda molhados, o homem abriu um largo sorriso para a mulher.
– Jacques Sardou. – respondeu ele, estirando a mão para a senhora. – Tenho assuntos a tratar com o seu filho. Ele está?
– No momento ele está na universidade. – respondeu ela, apertando a mão do homem. Parecia um pouco confusa. – Só chega lá pras dez horas. Mas que assuntos são esses? Ele está com algum problema? Você é da polícia? Ele não está encrencado, está?
– Não, não, senhora! – riu o homem. – É um assunto pessoal, mas eu posso te afirmar que não tem nada a ver com a polícia, pode ficar despreocupada.
– Ainda bem! – aliviou-se.
– Já que ele não se encontra, voltarei em outra hora. Muito obrigado pela atenção. – ele apertou novamente a mão da senhora. – Talvez amanhã.
– Como quiser.
O homem se afastou, andando calmamente pela calçada. Ouviu o portão bater e ser trancado por trás de si.
– Como eu pensava, ele não está em casa. – sussurrou o homem em francês, para si mesmo. Atravessou a rua, onde nenhum carro passava no momento. – Se estivesse, teria alguém do Vento o vigiando de perto, mas se eu for atrás dele na universidade terá uma enorme platéia. É melhor esperá-lo chegar em casa, terá menos perigo.
Ao chegar ao outro lado da rua, percebeu algo no topo de um dos postes. Perto da lâmpada, um pequeno objeto preto tentava passar despercebido aos seus olhos. Com certeza, uma câmera de vigilância.
– Não tinha reparado nisso. Mas se não me atacaram é porque ainda não sabem quem eu sou ou possuem pouca informação. – Riu, alisando a barba bem raspada. – Fiz um bom trabalho apagando meus rastros do computador. Até agora ainda não descobriram os arquivos, senão teria uma tropa me esperando.
O homem virou em uma esquina e andou alguns metros até um Logan estacionado na calçada. Tirou as chaves do bolso e apertou o alarme.
– Mas lembre-se, Jacques: ele é apenas o começo. Depois ainda terão mais oito.
…
Já passava das dez horas da noite. A lua cheia se escondia por trás das nuvens, no momento em que Jennifer e Vítor desciam a escadaria de mãos dadas.
Vinham calados, aparentemente sem nada para conversarem. Jennifer estava aliviada que o assunto que evitou no início da noite não estivesse passando pela cabeça do namorado.
Desceram o último degrau e pararam ao lado do carro de Jennifer. Encostaram os rostos e deram um longo beijo.
– Te vejo amanhã? – perguntou Vítor, terminando a aquecida despedida.
– Tenho certeza que sim. – sorriu ela, mas ao perceber algo por cima do ombro do jovem, acrescentou: – Aquele não é o seu ônibus?
Vítor virou o rosto e viu um ônibus descer veloz a rua por trás da universidade, distante, enquanto os estudantes na parada já se levantavam. Ao menos o nome da empresa batia com o ônibus que Vítor pegava.
– Deve ser ele mesmo. Se eu não for agora vai demorar uma eternidade pra passar outro. Tchau! – saiu correndo no meio do estacionamento em busca do ônibus que acabara de chegar à parada. Era uma corrida longa, mas o número de passageiros a embarcar iria ajudá-lo.
Jennifer sorriu até o namorado ser o último a subir no ônibus. Quando o automóvel desapareceu de sua vista, tirou as chaves do carro de dentro da bolsa e desligou o alarme. O sorriso desaparecia aos poucos
Sentou-se no banco do motorista e fechou a porta, abrindo a bolsa e revistando-a, já séria.
– Onde está esse celular? – tirou os olhos da bolsa e os passou pelo carro. Um pequeno aparelho negro estava jogado perto da marcha.
Pegou-o e, ao abrir, a tela mostrou vinte e oito chamadas não atendidas de um celular com código de área de Brasília. O nome do dono do celular não estava anotado em sua agenda, mas ela sabia exatamente quem era.
Discou o mesmo número e colocou o celular no ouvido. Não chegou a chamar três vezes até alguém atender:
– Jennifer? – perguntou uma voz masculina do outro lado da linha, percebia-se facilmente a preocupação.
– Identificação: 03-0874-35. – disse ela um pouco irritada.
– Identificação: 02-0001-01. Boa noite, senhorita Proud. Fico feliz que você tenha…
– Eu falo primeiro! – disse ela, ríspida, sem se importar com a autoridade de quem estava do outro lado. – Eu falei que apenas um implante de cabelos não ia encobrir completamente a cicatriz. Vítor a percebeu hoje e quase…
– Jennifer. – tentou interromper, mas em vão.
– …estragou o disfarce. Tive que inventar uma história sobre minha infância. Agora não dá pra voltar atrás. Ele tem certeza que eu não tinha a cicatriz. Já tive…
– Jennifer! – repetiu, com mais autoridade.
– …sorte por ele não ter se lembrado de tocar no assunto depois da aula. Eu falei que…
– Jennifer! – gritou o homem. Esperou por alguns instantes até ver que a jovem havia se calado, então falou: – Quero que você se acalme. Ele não vai desconfiar de nada.
– Não acho que…
– Faça silêncio e preste atenção, porque este é o menor dos nossos problemas. – afirmou. – A Casa da Terra foi invadida ontem à noite. Não sabemos quem era, apenas que era Clã da Água. Também não tínhamos certeza do que ele estava à procura, mas meus técnicos confirmaram que ele teve acesso ao banco de dados de Vítor. Imprimiu um arquivo, onde estava contido, dentre outras coisas, o endereço dele. – ao ouvir essas palavras, Jennifer sentiu um calafrio passar por seu corpo. – Nesse momento Vítor corre um enorme perigo. Onde ele está?
– Acabou de pegar o ônibus para casa! – afirmou Jennifer. A irritação dava agora lugar para a preocupação. – Mas ele antes desce no shopping para pegar um segundo ônibus. Se eu for rápida, posso pegá-lo lá. – afirmou decidida.
– Faça isso! Mantenha-o longe de casa até segunda ordem. Dê qualquer desculpa para levá-lo o mais longe de casa possível. – ordenou. – As câmeras colocadas na rua mostraram o traidor conversando com Jéssica Correia. Ele está por perto, talvez observando Vítor. Nenhum dos seus companheiros tem seu número de celular, não?
– Não, senhor.
– Melhor assim. Mantenha a atenção. Os reforços já chegaram e estão à disposição dos seus companheiros de Clã
– Sim, senhor! – desligou o celular e jogou-o sobre o banco do passageiro.
Ligou o carro e passou a marcha ré. Acelerou com violência, quase atropelando duas garotas que passavam pelo estacionamento. Então passou a primeira marcha e colocou o carro em linha reta, levantando as pedras do estacionamento.
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A estoria esta ficando cada vez mais interessante.
Agora vou ler a próxima parte