A Sociedade – Parte IV
Escritor: André Alves
Raul Correia colocou o carro por cima da calçada de sua casa e apertou o controle do portão, deixado no painel.
Os postes iluminavam a rua deserta e o relógio de Raul já marcava 10h e 36mim. Em meio ao cansaço, descansou os olhos por debaixo das pálpebras enquanto o portão abria vagarosamente. A sua cama confortável enchia seus olhos de ansiedade…
– O senhor se chama Raul Correia?
Raul se sobressaltou, abrindo os olhos assustados para a janela do carro. Uma bela mulher, com idade próxima aos vinte e cinco anos, o abordou. O seu tom sério e calmo e o blazer negro davam a Raul a impressão de que se tratava de alguém do governo.
Raul suspirou aliviado por não ser nenhum ladrão e respondeu à mulher:
– Sou sim. Por quê?
– Meu nome é Cíntia Arruda, da Polícia Federal. – ela tirou do bolso sua identificação e a passou para o homem. – Nós temos assuntos importantes a resolver. É do seu interesse.
Raul examinou a identificação e o alívio tornou-se preocupação e nervosismo.
– Tudo… bem. – assentiu, engolindo em seco e devolvendo a identificação. – Vamos entrar para falarmos melhor sobre isso.
A mulher distanciou-se do carro, para deixar Raul sair de dentro dele. O homem trancou o automóvel e se dirigiu para dentro da casa, mas de um modo tão aturdido que não percebeu que a tal Cíntia havia ficado para trás.
Ela olhou para os dois lados da rua e viu o que Raul por causa do cansaço não notou: um garoto de dezesseis anos parado sobre uma bicicleta em uma das esquinas; um casal de jovens, mais a frente, recostados em uma árvore, em meio a beijos, mas sempre atentos ao movimento da rua; um senhor que subia a ladeira, pelo lado oposto aos outros três, com um saco de compras; e, alguns metros depois, uma mulher dentro de casa encostada ao portão de metal cruzado e de muro baixo, fumando um cigarro.
– Situação? – sussurrou Cíntia.
– Nada até agora! – disse a voz do senhor, através de um ponto eletrônico.
– Tudo limpo! – afirmou o garoto da bicicleta.
– O mesmo pra nós dois. – disse a jovem debaixo da árvore.
– Ninguém a vista, Cíntia. – Afirmou a fumante. E acrescentou: – Pode entrar!
Jéssica apareceu na entrada da sala, estranhando o marido não ter colocado o carro na garagem e, mais ainda, a mulher parada ao lado do carro.
– Raul, quem é? – perguntou ao marido.
– Ela é da polícia… – virou-se para trás para apresentar Cíntia à esposa, mas a percebeu longe demais, ainda na calçada. – Vamos entrar?
– Claro. – concordou Cíntia, passando pelo portão.
– Ah, mer… Vem chegando alguém! – informou o garoto. Sua voz agora estava nervosa. – Um Logan prateado de placa MXR-3077 vem na direção da nossa rua. Não dá pra ver quem vem dirigindo.
– Mantenha a calma, Ricardo. Obtenha confirmação visual antes de atacar. – ordenou a fumante. – Os outros fiquem em seus lugares até segunda ordem.
– Jéssica, fecha o portão, que eu esqueci o controle dentro do carro. – pediu Raul.
Jéssica pegou o controle do portão pendurado junto às chaves da casa e apertou um de seus botões.
O portão começou a se fechar por trás de Cíntia ao som do pequeno motor que o movimentava. Mesmo sendo de metal, não conseguiria protegê-los por muito tempo. Talvez nem todo aquele esquema conseguisse.
O inimigo é poderoso. Se ele conseguiu furar toda a segurança da Casa, o que faria com uma defesa montada às pressas?
– Quer alguma coisa pra tomar? – perguntou Jéssica à mulher que já passava da metade da garagem. – Café? Chá?
– Não, obrigado. – recusou, com um sorriso. Seria muito pedir um inimigo mais fraquinho?
…
As pernas de Ricardo começaram a tremer no momento em que o carro parou bem ao seu lado, na esquina das duas ruas. Suas mãos se fecharam com força contra a borracha dura do guidom até a circulação parar. Não tinha coragem de olhar diretamente para dentro do carro, se contentava apenas pelo canto do olho.
– Ricardo! – chamou uma voz alarmada, pelo aparelho escondido por trás do capuz. – A placa é de um carro roubado hoje a tarde, no aeroporto.
A porta do motorista se abriu devagar, fazendo o jovem engolir em seco.
– Essa é a nossa confirmação! Saia já daí, você não pode com ele sozinho! Venha onde eu estou e deixe os outros cuidarem dele.
Um homem alto de nariz avantajado saiu de dentro do carro vestido em um terno negro. Percebeu o jovem sobre a calçada, próximo a porta do passageiro, e sem demora um sorriso cresceu em seu rosto. Não gentil, mas um sorriso ameaçador.
– Está me ouvindo, garoto? Saia daí!
O jovem jogou os dois pés nos pedais e avançou na bicicleta. Com movimentos frenéticos, cruzou a esquina e desceu a rua na direção da casa.
– Aonde vai com tanta pressa? – riu o homem. Recolheu uma pedra do tamanho do seu punho do canto da calçada e a preparou na mão.
– É ele! – gritou o garoto pelo aparelho. – É o trai…!
A roda da bicicleta cambaleou no momento em que a pedra chocou-se com violência contra ela, fazendo o garoto perder o equilíbrio. Suas mãos soltaram o guidom, deixando-o se inclinar. A bicicleta virou para o lado esquerdo, enquanto o jovem continuou o trajeto em velocidade.
Caiu com o rosto no chão. O som do seu grito se juntou com o do quebrar do nariz e da mandíbula. Rolou algumas vezes até parar inconsciente, deixando um rastro de sangue pelo asfalto.
Gargalhando baixo, Jaques desceu a rua na direção do garoto inconsciente.
– Você tem muito sangue, criança. – se agachou perto da cabeça adormecida e pegou o aparelho preso a sua orelha. – Não se importa se eu pegar isso emprestado, se importa?
Levantou-se novamente e enfiou o dispositivo no próprio ouvido.
– Parece que vocês chegaram primeiro que eu. – afirmou, parado na rua. – Vamos fazer um acordo: vocês me entregam Vítor Correia e eu deixo vocês irem sem nenhum arranhão. – vistoriou a rua de cima a baixo, a procura de seus adversários.
– A gente não é igual a você, traidor! Nós somos leais ao nosso Clã! – bufou o velho, largando as compras no chão. Sem hesitar, correu na direção de Jaques, com uma forma física estranha à sua idade.
– Eu não quero fazer isso. – afirmou o francês. – É perda de tempo.
O velho tirou uma pistola Taurus PT-92 por debaixo da camisa e continuou a avançar. A arma tinha um prolongamento na ponta, um silenciador, para não chamar a atenção da vizinhança.
– Você vai pagar pelo o que fez a Ricardo, seu desgraçado! – insultou a voz de um jovem, que o francês logo reconheceu como sendo de um dos namorados mais em baixo na rua.
Ao olhar para eles, Jacques os viu tirar cada um uma pistola semelhante a do velho e se distanciarem da árvore, correndo em sua direção.
– Então assim será! – exclamou Jaques, tirando dois revólveres Mugnum 357 debaixo da jaqueta – Prometo não matá-los!
O jovem ultrapassou o velho na corrida e, a trinta metros do alvo, puxou o gatilho. A bala saiu da arma sem seu comum estrondo e passou a poucos centímetros do braço direito de Jacques.
– Você precisa de mais treino, rapaz. – disparou.
Com os dois estrondos que ecoaram pelos muros das casas, os dois projéteis atingiram o rapaz em cada um dos ombros. Ele caiu de costas, com sangue jorrando de cada ferida e soltando a pistola que carregava sobre o asfalto negro.
A garota, ao ouvir os tiros, se jogou por trás da árvore mais próxima, enquanto que Jaques se dirigia para trás de um poste.
O velho, imerso em fúria, parou na subida e resolveu atirar tudo o que tinha. As balas saíram, uma atrás da outra, na direção do francês.
O último passo de Jacques foi crucial para mantê-lo vivo, conseguindo colocá-lo por trás do poste e deixando-o protegido.
Alguns dos projéteis nem mesmo passaram próximo ao francês, mas a maioria chocou-se contra o concreto do poste com força tremenda, arrancando pedaços e fincando-se o mais fundo possível.
Ao som do último tiro da seqüência, o francês se animou:
– Não devia ter feito isso, velho. – Colocou uma das armas para fora da proteção do poste e desferiu um único tiro, que atingiu a barriga do idoso.
O homem caiu de joelhos entre gemidos de dor, levando as mãos à barriga. A arma escorregou de seus dedos para o chão e, em segundos, seu dono já estava debruçado no asfalto.
– Merda… – sussurrou a jovem, por trás da árvore.
O francês alargou um sorriso ao ouvir a palavra pelo comunicador. Não conseguia ver a jovem por trás da árvore, mas sabia que ela estava lá, tremendo de medo.
– Vamos lá, garotinha, se renda. – aconselhou Jaques.
– Nunca! – gritou a jovem, jogando a mão que carregava a pistola e o rosto para fora da proteção da árvore e desferindo seus primeiros tiros na noite.
O francês entrou também no jogo atirando com cautela. A chuva de balas continuou de um lado a outro da rua por quase um minuto.
– Sarah. Sarah! Fale comigo! – chamou alguém, que aparentemente não estava na rua.
Enquanto atirava mais duas vezes, o francês percebeu algo familiar na voz que chegava aos seus ouvidos.
– Eu acho que eu te conheço de algum lugar… – afirmou, recostando-se no poste. – Sua voz me é familiar…
– Phill, continue dentro da casa e tente entrar em contato com o Ancião. E não me passe nenhuma informação pelo comunicador. – ordenou outra mulher, em inglês, e depois em bom português: – Cíntia pegue todos que estiver dentro de casa, coloque dentro do carro e vá embora. Quero vocês o mais longe possível daqui.
O francês viu uma segunda mulher subir pela rua, trazendo consigo a mesma pistola Taurus dos outros inimigos. No entanto, esta era mais decidida que os outros quatro e, sem dúvida, a mais perigosa.
– Olá, chefe…
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Nossa,tô curiosa pra caramba pra saber o que vai acontecer.
Sua estória esta muito boa,e só uma pergunta:são quantas partes????
Olha, não faço ideia! Faz um tempo q eu escrevi, ainda tem mais algumas partes, acho q menos de dez não dá xD