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Oct
26
2011

Arrependimento

Escritor: Guilherme Sakuma

Eu não gostava muito do Hector. Ele era muito branco, tinha olhos muito azuis e seus lábios – vermelhos e carnudos demais – lembravam os de uma garota. Era magrelo e delicado como uma. Andava com os idiotas da sala e sempre parecia estar fugindo de alguma coisa. Parecia um rato assustado. Tirava notas bem melhores que as minhas. Além disso, eu achava “Hector” um nome extremamente estúpido.

Tudo aquilo simplesmente era demais pra mim…

Um dia, na saída da escola, chamei por ele. Perguntei se queria brigar.

“Não cara, não quero brigar com você não!”, respondeu, mais branco que o de costume.

Dei um empurrão que o fez cair de bunda no chão. Meus amigos deram risada.

Hector se levantou e saiu andando rápido. Então eu peguei uma pedra no chão, fiz mira em sua cabeça e joguei, acertando a nuca em cheio. Ele pôs a mão onde a pedra havia acertado e se virou, com os olhos azuis avermelhados e cheios de lágrimas. Dessa vez ninguém deu risada.

Depois daquele dia, Hector nunca mais voltou para a escola. Teve uma rara doença no sangue e acabou morrendo três meses depois daquele episódio, fiquei sabendo. E eu nunca pude dizer a ele o quanto eu me arrependi por ter feito aquilo.

 

 

Guilherme Sakuma – 19/04/2010

 

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OBSERVAÇÃO PARA OS CABEÇAS-DE-REPOLHO: Nem todos os textos escritos em primeira pessoa (tipo: “Eu amarrei o filho-da-puta numa cadeira e cortei sua língua, seu nariz, suas orelhas, seus braços, suas pernas e seus testículos; depois levantei vôo que nem o super-homem e assassinei Deus” ou até um simples “Ontem atropelei um mendigo e não prestei socorro”) são sobre a vida do próprio autor que os escreveu ou sobre as coisas nas quais este acredita.

 


Written by Guilherme Sakuma in: Agenda,Contos,Guilherme Sakuma |

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