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: Antropoceno: Ação humana coloca planeta em nova época geológica -
Oct
30
2011
Conto em Série

Buraco Negro – Parte 3

Escritor: Pablo Grilo

Sua respiração acalmou com o tempo. Estava no futuro de acordo com o jornal, mas era engraçado, pois aparentemente, a rua pelo menos, era muito parecida como antes. Para se certificar, Jonas catou outras partes de jornais e checou as datas e notou poucos com datas diferentes, mas todos muitos anos no futuro. Nenhum carro voador, rua asfaltada de forma diferente, nada… Olhava os veículos estacionados, tinha alguns modelos diferentes que ele desconhecia, mas nada também de anormal.

De repente, um clarão no céu escuro e ele foi ao chão, sentindo dor de barriga. Vomitou, saindo água e suco gástrico. Depois de poucos minutos se recompôs e ficou de pé, novamente.

Suspirou e lembrou-se da “missão” que o professor havia lhe passado. Retirou o bilhete do bolso, e o leu: era um endereço desconhecido. Tateou os outros bolsos da calça jeans e viu dinheiro, ainda era o real, mas as notas eram diferentes. O guardou novamente e começou a andar pela rua para tentar descobrir onde estava da cidade, parando em frente a esquina daquela rua com uma que parecia a principal.

Olhou para a placa que indicava o nome e cep e coçou a cabeça. Reconhecia aquela rua de algum lugar. Mas de onde? Lembrou-se que havia visto aqueles sobrenomes há pouco tempo. De repente, sua expressão mudou, parece que havia se tocado de algo extraordinário.

- A rua do professor! Mas… Mas… Engraçado. Cadê o prédio dele? E não tinha também essa praça e nem esses prédios baixos… Ah, sim, claro, estou em outro futuro, claro. – Suspirou.

Olhou para a sua principal e percebeu que a calçada onde estava era bem iluminada. Olhou para o outro lado e viu poucos postes iluminando partes da via. Os diversos prédios estavam com as luzes apagadas e entre alguns deles, uma farmácia aberta. Olhou para os dois lados, atravessou a rua e chegou até lá. Entrou e foi até o balcão.

- Olá, vocês tem refrigerante? – Perguntou ao atendente, que lia uma revista.

- Ali. – Apontou a direita um freezer com diversas latinhas e comidas semi-prontas.

Ele foi e pegou uma delas e bebeu, retirando o gosto do vômito da boca. Voltou ao caixa e pagou, e o atendente voltou a ler a revista.

- Pode me ajudar?

- Pode falar. – Continuou lendo.

- Aqui… – Tirou o bilhete dobrado do bolso e ofereceu a ele.  – Onde é isso aqui? – Apontando o primeiro endereço com o dedo. O homem deixou a revista de lado e analisou.

- Ah, é até perto. Dá pra ir andando. – Saiu de trás do balcão e foi até a calçada, seguido por Jonas. – Você segue reto, dobra na… Deixo ver… Olha, passa 8 ruas e você dobra a direita, tá? Anda ela até a metade e entra a esquerda em uma rua pequena. Essa rua é ali. Daí você deve achar o prédio, mole.

- Tá bom, obrigado. – E foi andar na direção indicada.

A escuridão entre os raios de luz refletidas no chão pelos postes tornava a caminhada até perigosa. Se aquele futuro não havia mudado tanto assim pela aparência, será que a violência teria se alterado? Continuou andando, passando por duas ruas transversais, até passar por debaixo de um viaduto que cortava a via por cima, antes de atravessar a terceira rua.

Novamente, no caminho só passou por prédios pequenos e baixos, de poucos andares. “Futuro estranho esse, hein? Nenhum prédio alto…”. Quanto mais se aproximava, mais ficava nervoso com a missão ordenada pelo professor. O que a princípio sempre é definido como simples na teoria, a prática sempre termina por destruir. Por sorte, conseguiu chegar a oitava rua e virou a direita.

Estava muito escuro ali, mais escuro do que a rua principal. Alguns poucos postes iluminavam, e mostravam calçada e o asfalto muito sujo. Andou até parar em frente a um prédio onde a sua numeração batia com a do bilhete dobrado. Chegou perto da porta de vidro com grades de metal e notou que ao lado havia um interfone com vários botões com os números dos apartamentos e um espaço para falar.

- E agora? – Falou sussurrando. – O professor não falou nada sobre isso… Vou chamar o porteiro mesmo… – E tocou onde podia ler “Portaria”, gerando um pequeno alarme.

Em poucos minutos um senhor veio até a porta, parou do outro lado e abriu a armação de vidro, restando somente a grade.

- Sim, senhor?

- Oi, me desculpa. Eu esqueci a chave que o meu tio tinha me dado. Ele me pediu para pegar uma sacola que ele tinha esquecido.

- E onde que o tio do senhor mora?

- No 302.

- E qual o nome dele?

- É… – Ele refletiu alguns segundos, e se lembrou porque estava ali. – Jonas.

- Está certo, um momento, por favor. – Se afastou e abriu a porta. – Pode entrar.

- Obrigado. – Disse, surpreso pela atitude do porteiro de não causar resistência a um estranho em que tentasse invadir um apartamento.

Subiu o primeiro lance de uma escada amarronzada chegando ao segundo pavimento, um pouco iluminado por lâmpadas foscas e velhas. Subiu novamente e, chegando ao terceiro andar, com o mesmo piso dos outros andares, o quadriculado marrom-creme, e andou até a porta do apartamento. Bateu na porta, instintivamente. “O que estou fazendo? O velho eu estava lá comigo agora a pouco…” Girou a maçaneta e a porta se abriu. Empurrou-a e entrou no apartamento.

Meio bagunçado, o local onde o velho Jonas morava era padrão para um solteiro, com sofá e TV na sala, dois quadros pendurados, um com diploma, tapete no chão. Fechou a porta e andou pela sala, viu a sacola marrom claro em cima do sofá e a pegou, envolvendo-a no braço direito. Foi até a porta para sair e pensou em tudo o que passou com ele até agora. Estava com raiva do professor, com ódio por ter feito aquilo com ele: dopá-lo, mantê-lo preso e ainda obrigá-lo a fazer coisas estranhas, como viajar no tempo. Além de passar mal.

“O que mais esse filho da puta pode querer de mim depois que tiver essa droga da bolsa?” Decidiu investigar o local por conta própria. Voltou a caminhar até chegar a um pequeno corredor a sua direita e entrou. Notou que uma das portas entreabertas era do banheiro, e a outra, fechada, parecia a do quarto. Abriu e entrou no quarto do velho Jonas.

Uma cama bagunçada, com roupas diversas jogadas em cima dela, armários abertos e abajur com a lâmpada quebrada. Estranhou. Olhou as gavetas dos armários embutidos, as roupas penduradas. Revirou a roupa de cama, mas não viu nada de anormal. Já ia saindo, quando notou um papel dobrado em baixo da cama. Agachou e o pegou. Era outro endereço, diferente daqueles dois que ele tinha. Guardou-o no bolso, junto com o bilhete dobrado e saiu do quarto.

Na sala, notou outro clarão rápido no céu, e novamente foi ao chão com muita dor de barriga. Levantou-se deixando a bolsa no chão e sentiu vontade de vomitar. Correu para o banheiro e conseguiu soltar mais água e suco gástrico na privada, manchando um pouco o tapete do banheiro. Foi até a pia e se limpou com a toalha, gargarejou com um pouco de uma pasta de dente dali e saiu. Cruzou a sala e chegou a cozinha.

Depois de beber 2 copos de água da garrafa da geladeira, voltou para a sala e pegou a bolsa do chão. Ouviu um pequeno barulho de algo caindo vindo da janela e se aproximou. Abriu-a e sentiu uma rajada de vento derrubando três objetos dentro do apartamento. Fechou a janela e foi apanhar os objetos caidos.

Quando terminou de colocar no lugar o ultimo objeto caído, ouviu atrás de si um barulho nada agradável vindo da sala: o engatilhar de um revolver.

- Parado ai, professor! Larga a bolsa e coloca as mãos na cabeça.

- Eu não… – Disse enquanto largava a bolsa.

- Calado! – E a bolsa caiu. – Agora coloca as mãos na cabeça e chuta a bolsa pra longe. – Jonas obedeceu. – Se vire aos poucos.

Quando estava na metade do giro, começou a ver uma bonita mulher bem vestida, com um pequeno terno feminino sob uma camisa social, calça social, idade próxima a do professor, cabelo encaracolado negro, mas com alguns fios brancos, apontando uma arma para ele com a mão esquerda e pegando a bolsa.

- Quase que você me engana, professor. Não sabe como.

- Eu não sou o…

- Calado! Senta no sofá, agora. – Contrariado, Jonas sentou-se. – Vou acender a luz, porque quero ver a tua cara, professor, quando souber que a minha equipe tá vindo para cá.

A mulher ligou a luz da sala, iluminando todo o local. Chegou perto dele e tomou um susto enorme, como se tivesse visto um fantasma.

- Jonas? O que você tá fazendo aqui?


Categorias: Agenda,Buraco Negro,Contos |

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Publicado por Pablo Grilo

– que publicou 5 textos no ONE.

Cineasta, escritor, editor de video, carioca e vascaíno.

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