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Oct
30
2011

Calavera Catrina

Escritor: Everton Campos

Muito se passara assim como uma infinidade de passos dados, agora não importava se voltasse pelo o caminho que veio ou para onde estaria indo, nada se somava ao horizonte além da vasta escuridão. A estrada se estendia e em suas extremidades não se via curva luz ou fim, sendo as fracas luzes dos postes as únicas existentes, porem não eram todos iluminados e mais alguns passos adentraria na escuridão total, ja não queria avançar e tão pouco retroceder, acabando assim por ficar parado demonstrando uma atitude senil perante a dificuldade em decidir a qual caminho seguir.

Sem saber ao certo o tempo em que permaneceu parado se muito ou apenas instantes detinha o raciocínio lento e a logica lhe escapava pelos cantos, demorou a notar que o lugar não era tão vazio quanto pensava e que um pouco afastado da estrada havia brilhantes letreiros de neon que piscavam ao anunciar boas vindas um nome e a finalidade do lugar. Um bar ele havia acabado de encontrar ” la Calavera Catrina”.  Avaliou tal momento como um lindo e importante achado acabando por defini-lo com um súbito de escarnio como ‘’um nome estranho para um bar esquisito ’’, rindo com a sua própria sorte ao achar o que tanto gostava quando mais precisava, e tão rápido quanto a alegria surgiu o medo de que poderia estar fechado, Não sabia as horas, há muito perdera o relógio ainda assim julgava ser demasiadamente tarde e como se ter pressa fosse fazer a diferença correu sedento em corpo e mente para a porta de entrada que piedosa não prolongou sua agonia, estava aberta.

 

Por dentro era grande, cheio e silencioso ninguém dispensou atenção enquanto desviava pelas mesas em direção ao bar, a exceção do atendente que não se distraia não piscava, absolutamente imerso na figura do visitante que percebeu os extremos de atenção recebidos pois em sua cabeça só havia espaço para desejar a amnesia e torpor  que aquele  lugar poderia lhe proporcionar chegando sorridente ao balcão.

 

- boa noite!  Cerveja por favor!. Disse enquanto se sentava

Não foi atendido ou teve seu comprimento retribuído o atendente limitou-se a ficar passando um pano no imaculadamente limpo balcão, de olhos ainda fixos no visitante. Surgiu nesse momento um silencio desagradável entre os dois homens que se encaravam e quando quebrado:

 

- Eu quero uma cerveja, POR FAVOR! – A frase saiu alta e ameaçadora. ‘’Era só o que me faltava um idiota logo agora’’.  Pensou.

 

- Não temos cerveja! Disse finalmente.

- Uísque então!

- Também não temos.

- Refrigerante?

- Tão pouco isso…:

 

- Leitinho morno levemente adocicado. Rosna o homem levantando e batendo as mãos no balcão

 

O atendente não respondeu.

- Cadê o dono desta droga?

- Morreu…

 

Foram perguntas rápidas seguidas de respostas igualmente velozes o homem não queria acreditar nos picos de sorte e azar que lhes eram apresentados em um momento estava perdido e quando achara a salvação era barrado pela a insolência, ‘’bom de mais pra ser verdade’’. Lamentava e já sem paciência levantou:

 

- Que porcaria de bar é esse que não atende clientes?

 

De dedos apontados para o atendente e indignado: – Escuta aqui seu cretino não sou palhaço… Vai me servir nem que seja a força, qual é a diferença entre mim e os outros que estão aqui?

 

- Não vejo absolutamente diferença alguma meu caro senhor. Respondeu

- ‘’Senhor? ’’.  Agora finge ser educado, você sabe com quem está falando?

 

Indiferente e sem sinais de acuação, inabalavelmente calmo o atendente permanecia, contudo surgira um sorriso em seu rosto.

- Realmente não sei, como deve ter percebido acabamos de nos conhecer senhor, por favor, me diga quem é?

 

- Eu sou…  Eu sou.  …   Eu sou.

 

Três vezes a mesma palavra e cada uma acompanhada de um tempo e sentimento diferente, raiva duvida e desconcerto vieram lhes dar valor agora o homem piscava e balançava a cabeça na dura tentativa de lembrar o que havia esquecido.

 

‘’- Quem eu sou?’’.

 

Alguns tapinhas nas costas sucederam a intercessão do atendente:

 

- Não se preocupe, ainda que ficasse pensando nisto por uma vida inteira não conseguiria achar resposta para uma pergunta destas…  Senhor não me tome por algum comediante não deixei de lhe servir por graça, confira por acaso aqui esta bebendo algo?

 

O homem lentamente se virou para os outros presentes e estes já o observavam, alguns com olhares de pena, outros achando graça muitos indiferentes, contudo absolutamente ninguém tinha nada sobre suas mesas. Voltando ao atendente, atônito indagou:

 

- Que tipo de lugar é esse?

 

 

- Tratasse de apenas um bar como qualquer outro que tenha conhecido quando era vivo…  o Fato é que agora não precisa mais de bebidas uma vez que não existe um corpo que a ela absorva, claro que se desejar poderá  aqui encontrar os mesmos atrativos que tanto o agradava nos estabelecimentos do outro lado, aprendera outras maneiras de perder a razão e escapar da  realidade.

 

não ouviu nada além do ’’quando era vivo’’. O estanho era que essa afirmação não lhe pareceu infundada ouvi-la lhe trouxe tristeza ao invés de incredulidade.

 

- Esta dizendo que morri?

 

- Relaxa não é tão ruim quanto parece.

 

Não ouve negativa…

 

- ”Eu morri”.

 

Abaixa a cabeça e coloca as mãos sobre a nuca, não triste apenas frustrado com o ocorrido.

 

- Morrer é tão inesperado não é mesmo. Diz o atendente

 

Um aceno de cabeça veio em concordância sucedido de uma risada histérica:

- Sou tão estranho, deveria estar em pânico.

 

-  A morte é como os sonhos os inconscientes não oferecem dificuldades para aceitar sua morada uma vez estando em seus domínios você enxerga acredita e aceita aquilo que quiser.

 

Como eu vim parar neste lugar?

 

- seus desejos te guiaram até aqui, todos deste lugar partilhamos das mesmas vontades e medos. Se quiser pode ficar e estar junto com seus iguais para assim pensar na vida. Ops! Na morte. He, He velhos hábitos são difíceis de evitar não é mesmo? Mas seria muito bom ter um novo companheiro e poder ouvir novas historias ha muito que não aparece ninguém.

 

- A quanto tempo esta aqui?

 

- Não existe mais a terra, dia, noite sol ou lua sendo assim que sentido teria contar o tempo? Ele que é tão importante para os vivos perdeu todo o valor, pois simplesmente queremos permanecer, não temos interesse em medir apenas em existir.

 

- Você não sabe dar respostas simples?

 

- Com certeza conseguiria ser sucinto, porem isso não me traria encanto algum! não tenho muitas opções DE DISTRAÇOES tudo o que faço é pensar nessa nova existência não teria como eu dar respostas simples sobre algo que tanto reflito.

 

Havia surgido ali uma estranha cumplicidade entre o insolente e o arrogante:

 

- Gostaria de ficar aqui conosco? Convida o atendente.

 

- Não obrigado um clube de defuntos não é onde eu gostaria de estar enquanto morto. Para qual lado fica o céu?  ‘’Já que estou morto quero ir para lá.’ Pensou.

 

Sua resposta veio em forma de um gesto contido, como quem ouve uma piada e segura seu riso.

 

- Não me venha com essa sempre paguei minhas dividas frequentei igreja regularmente e nunca cometi nem um pecado que a maioria não tenha feito, porque não deveria querer ir para um lugar condizente com a minha vida?

 

- Me perdoe, é difícil não achar graça pelo o jeito que você falou e sinto lhe frustrar, mas desde que aqui cheguei nunca surgiu uma entidade a fim de nos guiar a seus propósitos e tão pouco um deus, diabo ou qualquer coisa que os valha apareceu para ter com a gente, sempre fomos nós apenas aqueles que conseguiram chegar até este humilde estabelecimento, não sei o que acontece com o resto dos que saem da terra assim como conheço do mundo dos mortos apenas o que seus olhos podem alcançar.

 

 

Surpreso com tal afirmação o homem se vê frustrado ao ser remetido a uma constatação estupida ‘’ não devia ter rezado tanto’’ : – E para onde vai aquela estrada?

 

 

- Ao desconhecido talvez para o céu que tanto deseja ou o inferno que é bem menos querido, talvez outro mundo ou o mesmo que viemos quem vai saber? Todos os que por ali se aventuraram não voltaram para contar como seria o outro lado.

 

- Nunca pensou em atravessar? Estava incrédulo.

 

- constantemente porem em mim a cautela é mais forte que a coragem, não me arriscaria sem saber o que tem do outro lado pois ha muito a perder e aquilo pode ser o caminho para o lugar nenhum? A consciência é tudo o que sou e a única coisa que me restou, não gostaria de arrisca-la por uma mera curiosidade, da minha parte eu não trocaria os males deste lugar pelo o de outro desconhecido.

 

Muitas perguntas e respostas surgiram posteriormente mas nenhuma delas com tanta relevância quanto as primeiras, até que chegou o momento da despedida onde o homem levantou-se rapidamente e rumou para a saída tencionando como destino a estrada e o ultimo poste iluminado.

 

E no caminhar começou a refletir.

 

- ‘’ E se ele estiver certo e  não haver mais nada’’. Se perguntou.

 

- ”Jamais trocaria os males deste mundo por outro que não conheço’’. As palavras do atendente vieram a sua cabeça.

 

- ’’ talvez valha suportar ficar por aqui’’ Confessou. ”Não… jamais quero passar o resto da minha existência em um bar!” Discutia consigo avançando cada passo com uma vontade decadente

 

- ‘’ Não quero deixar de existir não quero ir para um lugar ruim’’

 

Nesse momento suas recordações voltaram e se lembrar de quem foi enquanto vivo doeu agora teria de acrescentar saudade a soma de todos os seus infortúnios e o inevitável aconteceu as lagrimas caíram:

 

- Muito medo,  muito medo ….  Meu Deus me ajude …

 

Tal sussurro foi sucedido de um grito:

 

- DEUS! sei que não fui bom o suficiente para merecer a sua companhia, não quero me perder tenho medo desta escuridão, me ajude…

 

Pausados por momentos de choro e respiração ofegante, não existia mais orgulho ou coragem aquele homem sentia apenas angustia.

 

… Verdade que nunca fui perfeito, mas ninguém foi, todos cometeram alguns pecados mas criei bem meus filhos fui a igreja fiz doações, nunca causei mal aos outros por favor não me castigue me ajude me tire deste lugar.

 

Se expos como jamais havia feito em vida, pediu com vontade nunca antes demonstrada, ajoelhado diante da escuridão esperando uma resposta que não viria, nada de anjos ou luzes celestes,  diante de si continuava a se apresentar o mesmo silencio profundo caótico e opressor.

E contemplou a escuridão por tempo suficiente para perceber que por ela também era contemplado percebeu que não se tratava de simples sombras e que aquilo que se apresentavam a sua frente era o próprio medo encarnado.

 

E tão subitamente quanto foi a vontade de partir surgiu a de ficar, a volta para o ”la Caravela Catrina” iniciado a tristes a passos que em pouco tempo se tornaram uma corrida , outra fuga naquela noite e tendo o mesmo lugar como destino embora o ato e os personagens fossem os mesmos nada era igual diferença estava queimando na alma do que ali estava,  fugia do monstro em forma de trevas que se alojava em seu coração.

 

Indefeso e apavorado entrou no bar fechando a porta como se a mais imponente fera o tivesse perseguido, todos ali estavam olhando enquanto caminhava até o balcão tremendo compulsivamente com desespero nos olhos ao sentar-se olhou para o atendente e disse:

 

- Uma bebida, por favor.

 

- Claro que sim senhor. Balançando a cabeça com um sorriso de resignação o atendente serve seu novo companheiro.

 

 


Written by Everton Campos in: Agenda,Contos,Everton Campos |

3 Comments»

  • Priscilla Rubia says:

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    Gostei do conto, a história é interessante e criativa, mas parece que ele não foi revisado antes da postagem. Faltou algumas vírgulas e algumas palavras estão com letra minúscula onde não deveriam.
    No mais o conto é bom, envolvente.

  • Everton Campos says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    ha muito obrigado pelo elogio e sujestao
    realmente tenho problemas com revisao
    vou vencer a preguiça e dar um jeito nesse

    valewwww ^^v

  • R.MORGADO says:

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    interessante adorei !!!!!!!!

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