Doce vingança
Escritor: Thiago Tavares
“… esperara quatro longos invernos por essa oportunidade e não podia desperdiçá-la. Estava saindo numa missão que lhe daria a chance de vingar a morte do pai…” (trecho extraído do capítulo 11)
Com um brilho sinistro contido em seus olhos, Baltar desceu as escadas de acesso aos dormitórios determinado a vingar o pai e nada nem ninguém seria capaz de impedi-lo. Exalando aquele mórbido desejo juntou-se ao pequeno grupo de mercenário que o aguardava do lado de fora e, montando em seu cavalo, olhou por uma última vez na direção da janela do quarto de Argaios. Não havia com o que se preocupar. Duniak prometera protegê-lo em sua ausência.
Sem mais delongas, Baltar e os cerca de 40 homens deixaram o acampamento com destino ao reino de Verunna. Era preciso chegar com urgência, pois a guerra já estava em andamento. Contudo, mesmo sob o ritmo acelerado dos cavalos, foram necessários dois dias e duas noites para que finalmente ingressassem nas imediações daquele reino longínquo.
Foi sob o céu escuro de uma fria noite de inverno que os mercenários atingiram o acampamento erguido não muito distante das muralhas de Verunna. Os soldados que faziam a guarda local logo alertaram a chegada dos reforços e, pouco tempo depois, um homem vestido em armadura, ricamente ornamentada, surgiu do interior de uma das tendas. Era o comandante de Zuleia.
– Que tipo de brincadeira é essa?! – bradou ele observando aquela quantia ínfima de pouco mais de 40 mercenários. – Estamos perdendo a guerra e é isso que Dukra envia a nós! – concluiu ele como se falasse com seus soldados.
– Podemos dar meia volta se preferir! – retrucou o melindrado mercenário que estava no comando da missão.
– Façam como quiser! – Uma diferença de 40 homens não me fará vencer a guerra!
Baltar sentiu o sangue gelar. Desejava fazer parte daquela batalha mais que qualquer outro homem. Não podia simplesmente virar as costas e voltar após estar tão perto de cumprir seu objetivo. Tinha de fazer algo. Descendo de seu cavalo, sacou o machado e então gritou num tom resoluto:
– Aponte o seu melhor soldado!
– O que esta fazendo Baltar?! – murmurou um dos mercenários aturdido com a repentina reação.
– Deixe-o! – exclamou o líder do grupo. – Aquele homem nos subestimou! Merece uma prova do que somos capazes!
Tanto quanto os demais, o comandante de Zuleia parecia surpreso com a atitude do jovem rapaz que o fitava com frieza.
– E quem é você? – inquiriu ele quebrando o silêncio que havia tomado o local.
– Meu nome é Baltar e vou lhe dar a oportunidade de conhecer de perto as qualidades dos mercenários de Dukra! – Aponte seu melhor homem!
– Tem certeza do que esta me pedindo, rapaz?
– Aponte!
– Está certo! Vou fazer sua vontade, mas acho que vai se arrepender! – respondeu o comandante com escárnio. – Axel! – vociferou ele por fim.
– Chamou-me comandante? – disse um homem robusto com cerca de 1,90 de altura abrindo espaço em meio aos demais soldados.
– Sim! Acho que este guerreiro gostaria de enfrentá-lo. – O que me diz?
Axel fitou aquele jovem dos pés a cabeça e após uma bufada de menosprezo, respondeu:
– A tenda onde estou acomodado fica aqui ao lado. Vou apanhar minha espada!
– Não será preciso! – exclamou Baltar arremessando ao adversário a espada que tinha embainhada junto a cintura.
Axel a apanhou no ar e, rapidamente, um cerco de soldados e mercenários se formou ao redor daqueles dois homens que, andando de um lado a outro, no interior do circulo, pareciam se estudar procurando por pontos fracos. De repente, Baltar partiu para o ataque e embora utilizasse uma arma notadamente mais pesada que a de seu oponente, desenvolvia golpes numa velocidade tão estonteante que dava a Axel apenas a opção de se defender. Não demorou muito e o pequeno escudo que o protegia esfacelou-se em pedaços e logo foi preciso utilizar a própria espada para bloquear as terríveis machadadas. Lá pelo vigésimo golpe, a força exacerbada de Baltar arrancou também a espada das mãos daquele soldado que viu seu último recurso de proteção cair, escorregando pelo solo arenoso até parar junto aos pés de um dos espectadores.
Com as mãos inteiramente nuas e os olhos arregalados, Axel ficou estático aguardando pelo próximo ataque do qual não teria meios de se proteger. O medo ficou estampado em seu rosto, no entanto, para sua surpresa e alívio, Baltar se desfez do machado. O irmão de Argaios estava disposto a vencer aquele duelo de maneira justa. Nada iria ofuscar a glória de sua vitória.
Notadamente mais alto e mais forte, Axel considerou que através daquela atitude Baltar havia decretado a própria derrota, no entanto, o jovem mercenário não parecia nem um pouco intimidado com as compleições físicas de seu adversário. Num movimento súbito e violento os dois se lançaram ao ataque, mas, antes mesmo que a pancadaria pudesse tomar início, a voz do comandante os conteve:
– Já chega!
Os dois guerreiros estacaram onde estavam e o comandante continuou:
– Acho que devo minhas desculpas a vocês! Será uma honra tê-los como aliados nessa guerra! – proferiu, meio sem jeito, como se envergonhado pelo desdenho de outrora. – Homens! Providenciem mais algumas barracas! Nossos reforços precisam estar descansados para a batalha de amanhã.
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No alvorecer do dia seguinte, o exército de Zuléia rumou até a ampla planície, nas proximidades dos muros de Verunna, onde os adversários já estavam postos. Flâmulas de ambos os reinos tremulavam ao vento enquanto os comandantes passavam as últimas instruções. Na linha de frente, Baltar observava os soldados de Verunna com suas espadas e lanças cintilando sob o sol da manhã. Finalmente havia chegado o momento de fazer justiça. O fato de não conhecer os rostos dos assassinos de seu pai não tinha a menor importância. Estava ali para matar todo e qualquer representante daquele reino.
Baltar estava tão entretido em seus pensamentos rancorosos que pouco ou quase nada pôde ouvir das instruções que foram dadas. Fora somente o som de uma trombeta que o trouxera de volta a realidade. Ao final do terceiro toque um ferrenho combate se iniciou. Emblemas de Verunna e Zuleia, contidos nos escudos dos soldados, se confundiam em meio à hostilidade declarada. Cavalos tombavam com lanças atravessadas em seus corpos e os urros e grunhidos de homens perdendo suas vidas ecoavam por todo lado. Um cenário de verdadeira carnificina estava formado.
Embora os soldados de Verunna estivessem em maior número, os guerreiros de Dukra equilibravam o combate com suas qualidades fora do comum. Incontáveis cabeças e membros eram arrancados pela lâmina afiada do machado de Baltar que, em sua fúria implacável, seguia aumentando aquela mortandade.
Por diversos dias e noites o vermelhou rubro do sangue dos soldados continuo manchando o solo verdoso daquela planície e nem mesmo haver sido o responsável direto pela maior parte daquelas mortes, saciava o jovem mercenário que, em frenesi, tentava ressarcir o que lhe tinham tirado. Estava cego de ódio e parecia que nada seria capaz de retirá-lo daquele estado embrutecido. Contudo, a imagem de Duniak montado sob um veloz cavalo surgira ao longe e o aspecto ensandecido de seu semblante desaparecera. Algo havia acontecido com Argaios, do contrário, aquele garoto não teria deixado o acampamento e viajado até aquelas terras distantes.
Cravando a lâmina do machado contra a face de um soldado de Verunna, montado a cavalo, Baltar fez sua última morte. O sujeito tombou inerte com sangue espesso escorrendo da cara fendida e o cavalo, que então ficara livre, Baltar tomara para si disparando na direção de Duniak que, de longe, tentava avistá-lo em meio a toda aquela confusão de guerreiros. Embora suas mãos ainda desejassem extinguir outras vidas, não pensou duas vezes ao deixar o campo de batalha. Nem mesmo o sabor daquela doce vingança era mais importante que a segurança de seu irmão.
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Este conto funciona como uma espécie de bônus do meu livro (tipo aquelas partes que muitas vezes encontramos em filmes de dvd com o nome de cenas cortadas). Estou postando aqui, pois julguei as opinião de alguns membros um tanto que enriquecedora. Ainda tenho muito a aprender e meu caminho é longo. Um abraço a todos!
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Bem interessante, fiquei curiosa para ler o resto.
Que bom que gostou Priscilla!Esforço-me para sempre fazer um pouco melhor e sei que ainda preciso progredir bastante.