E assim eu não fui publicado
Escritor: Guilherme Sakuma
Domingo, 2010, meados de março. Telefonei na hora marcada para conversar com Paco, editor-chefe do Jornal Subversivo (esse não é o nome de verdade do tal jornal), sobre uns textos que eu mandara para ele.
Eis aqui a parte final dessa pitoresca conversa…
PACO
Escuta, não posso publicar isso.
GUILHERME
Como não? Qual o problema?
PACO
Tem muito palavrão. As pessoas não vão entender.
GUILHERME
E o que é que tem pra entender aí? Meus textos não têm nenhum significado profundo.
PACO
Exato. E posso dizer o que parece?
GUILHERME
Diga lá.
PACO
Não vai se chatear né? Vocês escritores são pessoas extremamente sensíveis.
GUILHERME
Tudo bem. Não sou escritor, só escrevo muito.
PACO
Bom, sendo assim, vou dizer: para algumas pessoas pode parecer que você usa todos esses palavrões para mascarar a sua falta de ter o que dizer.
GUILHERME
É… na maior parte do tempo.
PACO
Na maior parte do tempo o quê?
GUILHERME
Não tenho o que dizer. Por isso escrevo. Quanto aos palavrões, não posso me livrar deles, são muito importantes pra mim.
PACO
Ah, não vem com essa.
GUILHERME
Veja bem, alguns descrevem bules de chá, outros, a geografia completa da paisagem… eu, eu xingo. O palavrão é o meu bule de chá.
PACO
Ah, ótimo. Bela sacada. Mas não vai rolar.
GUILHERME
Mas tem espaço sobrando nesse jornal aí! E aquele retângulo em branco do mês passado onde se lia: “QUER SER COLABORADOR DO JORNAL SUBVERSIVO? MANDE UM E-MAIL PARA …”?
PACO
Já foi preenchido.
GUILHERME
E o do retângulo do lado, onde não havia nada escrito?
PACO
Erro de impressão. Além do quê, eu não recebo só os seus textos para avaliar. E mesmo que eu só tivesse recebido eles, você se considera tão indispensável assim?
GUILHERME
Não. Sei que me falta muita coisa. Muito chão, levar muita bicuda. Mas também sei que você vai preencher esse retângulo – o da colaboração ou o do erro de impressão – com poeminha metido a besta que ninguém vai conseguir entender. Exceto TALVEZ o próprio autor.
PACO
Essa é boa! Não é só porque você não entende, que as outras pessoas não vão entender também. Isso comprova aquilo que eu te disse antes.
GUILHERME
Aquilo o quê?
PACO
Que você é pretensioso e que só quer saber de cheirar a própria merda.
GUILHERME
Todos nós seres humanos somos assim.
PACO
Eu não sou assim.
GUILHERME
Tá, alguns não são. Você é especial.
PACO
(puto) Tá sendo irônico?
GUILHERME
Eu? Imagina. O que te levou a pensar que eu estava sendo?
PACO
(cuspindo as palavras) Nada. Não importa. Porque, olha, eu….
GUILHERME
(cortando) E se eu tirar os palavrões? Aí você me publica?
PACO
(com um tom de superioridade na voz) Aí eu posso COMEÇAR a pensar no seu caso.
GUILHERME
(fazendo gracinha) Até pra publicar no “Jornal Subversivo” eu tenho que vender o meu rabo?
PACO
(cínico) Tecnicamente não, porque, você sabe, eu não pago um tostão para ninguém que publica no JS. A visibilidade já é pagamento o suficiente. Acho que aquele retângulo que diz “Quer ser COLABORADOR do JS” já deixa isso bem claro.
GUILHERME
Boa sacada.
PACO
Pois é.
GUILHERME
Que tal essa: Você publica os meus textos do jeito que estão e, em troca, eu não cobro nada. Saímos os dois satisfeitos. Que me diz?
PACO
Se acha tão bom assim?
GUILHERME
Já disse que não. Só quero uma chance.
PACO
Se você realmente quer uma chance, agora além de tirar esses palavrões, vai ter que tirar todos os nomes de personalidades conhecidas, marcas e piadinhas com os outros escritores e piadinhas machistas. E aí eu posso PENSAR em pensar no seu caso.
GUILHERME
Quem disse que eu sou machista? Você não leu aquele texto que eu mandei: “Ensinando a minha filha a ser lésbica”?
PACO
Isso também é machismo.
GUILHERME
Acho que você simplesmente não captou a mensagem. Além do que, esse negócio de machismo é relativo. Tudo é relativo.
PACO
Essa é velha.
GUILHERME
Tudo é velho.
PACO
Tá vendo? Esse é outro dos teus problemas.
GUILHERME
Como assim?
PACO
Você fica aí com essa sua conversinha de que tudo é isso e de que tudo é aquilo… enche os seus textos de frases de efeito e de conclusões precipitadas acerca de coisas que absolutamente não tem nada a ver com a realidade…
GUILHERME
Escrever não tem nada a ver com a realidade.
PACO
Você entendeu o que eu quis dizer. Além do que, mata os seus personagens quando não sabe o que fazer com eles.
GUILHERME
(duvidoso) Hum…
PACO
(agressivo) Hum o quê?!
GUILHERME
Essa você roubou do Oscar Wilde, não?
PACO
Não roubei merda nenhuma de ninguém!
GUILHERME
Acredito em você.
PACO
Bom mesmo. E, como eu ia dizendo, você usa todos essas truques literários baratos para mascarar a sua falta de ter o que dizer.
GUILHERME
Bom, eu…
PACO
Estou falando alguma mentira?
GUILHERME
Todos os escritores fazem isso. Já te expliquei sobre o bule de chá. É a mesma coisa. É necessário preencher as páginas em branco com alguma coisa.
PACO
(triunfante) A-HA! Agora te peguei! Você disse antes: “Não sou um escritor; só escrevo muito”. E agora, o que tem a dizer sobre isso hein, espertão? Hein, fodidão?
GUILHERME
O que eu quis dizer foi que a maioria dos escritores só sabe ficar enchendo linguiça, e com muita merda, mas eu não, porque não sou um deles. Isso não faz de mim nem mais nem menos.
PACO
Então sobre o que são os seus textos?
GUILHERME
Não faço a menor idéia.
PACO
Como não?
GUILHERME
Simplesmente saio escrevendo. Não fico pensando em passar mensagem nenhuma. Só os perdedores fazem isso.
PACO
Isso é que você pensa, meu caro.
GUILHERME
Não preciso ser o herói de ninguém.
PACO
Esta conversa não está levando a lugar algum.
GUILHERME
Também acho.
PACO
Você é como uma criança que quer ter a palavra final. É só isso que você é.
GUILHERME
Acertou na mosca. Também acho que o mundo gira ao meu redor e detesto ser contrariado. Toda vez que papai diz que vamos passear, eu coloco a fantasia do Batman ou a do Super-Man – mas mamãe sempre me obriga a tirá-las e colocar alguma calça jeans que aperta o meu saco e alguma camisa pólo estampada com listras estúpidas. E quanto aos meus textos?
PACO
Já disse o que você tem que fazer. E tem mais, dá um jeito naqueles coloquialismos. Tá tudo parecendo forçado demais.
GUILHERME
Tudo bem.
PACO
Tudo bem?
GUILHERME
É, esquece. Não vou vender o meu rabo.
PACO
Moleque, vou te dar um conselho: Seja mais humilde que várias portas se abrirão pra você. Humildade é sinal de um grande espírito. “Nossas atitudes descrevem o nosso destino.”
GUILHERME
Que merda é essa? Zíbia Gasparetto??
PACO
AH, VAI TOMA NO CÚ!
E assim eu não fui publicado.
Guilherme Sakuma – 18/05/2010
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OBSERVAÇÃO PARA OS CABEÇAS-DE-REPOLHO: Nem todos os textos escritos em primeira pessoa (tipo: “Eu amarrei o filho-da-puta numa cadeira e cortei sua língua, seu nariz, suas orelhas, seus braços, suas pernas e seus testículos; depois levantei vôo que nem o super-homem e assassinei Deus” ou até um simples “Ontem atropelei um mendigo e não prestei socorro”) são sobre a vida do próprio autor que os escreveu ou sobre as coisas nas quais este acredita.
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