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Oct
26
2011

E assim eu não fui publicado

Escritor: Guilherme Sakuma

Domingo, 2010, meados de março. Telefonei na hora marcada para conversar com Paco, editor-chefe do Jornal Subversivo (esse não é o nome de verdade do tal jornal), sobre uns textos que eu mandara para ele.

Eis aqui a parte final dessa pitoresca conversa…


PACO

Escuta, não posso publicar isso.

 

GUILHERME

Como não? Qual o problema?

 

PACO

Tem muito palavrão. As pessoas não vão entender.

 

GUILHERME

E o que é que tem pra entender aí? Meus textos não têm nenhum significado profundo.

 

PACO

Exato. E posso dizer o que parece?

 

GUILHERME

Diga lá.

 

PACO

Não vai se chatear né? Vocês escritores são pessoas extremamente sensíveis.

 

GUILHERME

Tudo bem. Não sou escritor, só escrevo muito.

 

PACO

Bom, sendo assim, vou dizer: para algumas pessoas pode parecer que você usa todos esses palavrões para mascarar a sua falta de ter o que dizer.

 

GUILHERME

É… na maior parte do tempo.

 

PACO

Na maior parte do tempo o quê?

 

GUILHERME

Não tenho o que dizer. Por isso escrevo. Quanto aos palavrões, não posso me livrar deles, são muito importantes pra mim.

 

PACO

Ah, não vem com essa.

 

GUILHERME

Veja bem, alguns descrevem bules de chá, outros, a geografia completa da paisagem… eu, eu xingo. O palavrão é o meu bule de chá.

 

PACO

Ah, ótimo. Bela sacada. Mas não vai rolar.

 

GUILHERME

Mas tem espaço sobrando nesse jornal aí! E aquele retângulo em branco do mês passado onde se lia: “QUER SER COLABORADOR DO JORNAL SUBVERSIVO? MANDE UM E-MAIL PARA …”?

 

PACO

Já foi preenchido.

 

GUILHERME

E o do retângulo do lado, onde não havia nada escrito?

 

PACO

Erro de impressão. Além do quê, eu não recebo só os seus textos para avaliar. E mesmo que eu só tivesse recebido eles, você se considera tão indispensável assim?

 

GUILHERME

Não. Sei que me falta muita coisa. Muito chão, levar muita bicuda. Mas também sei que você vai preencher esse retângulo – o da colaboração ou o do erro de impressão – com poeminha metido a besta que ninguém vai conseguir entender. Exceto TALVEZ o próprio autor.

 

PACO

Essa é boa! Não é só porque você não entende, que as outras pessoas não vão entender também. Isso comprova aquilo que eu te disse antes.

 

GUILHERME

Aquilo o quê?

 

PACO

Que você é pretensioso e que só quer saber de cheirar a própria merda.

 

GUILHERME

Todos nós seres humanos somos assim.

 

PACO

Eu não sou assim.

 

GUILHERME

Tá, alguns não são. Você é especial.

 

PACO

(puto) Tá sendo irônico?

 

GUILHERME

Eu? Imagina. O que te levou a pensar que eu estava sendo?

 

PACO

(cuspindo as palavras) Nada. Não importa. Porque, olha, eu….

 

GUILHERME

(cortando) E se eu tirar os palavrões? Aí você me publica?

 

PACO

(com um tom de superioridade na voz) Aí eu posso COMEÇAR a pensar no seu caso.

 

GUILHERME

(fazendo gracinha) Até pra publicar no “Jornal Subversivo” eu tenho que vender o meu rabo?

 

PACO

(cínico) Tecnicamente não, porque, você sabe, eu não pago um tostão para ninguém que publica no JS. A visibilidade já é pagamento o suficiente. Acho que aquele retângulo que diz “Quer ser COLABORADOR do JS” já deixa isso bem claro.

GUILHERME

Boa sacada.

 

PACO

Pois é.

 

GUILHERME

Que tal essa: Você publica os meus textos do jeito que estão e, em troca, eu não cobro nada. Saímos os dois satisfeitos. Que me diz?

 

PACO

Se acha tão bom assim?

 

GUILHERME

Já disse que não. Só quero uma chance.

 

PACO

Se você realmente quer uma chance, agora além de tirar esses palavrões, vai ter que tirar todos os nomes de personalidades conhecidas, marcas e piadinhas com os outros escritores e piadinhas machistas. E aí eu posso PENSAR em pensar no seu caso.

 

GUILHERME

Quem disse que eu sou machista? Você não leu aquele texto que eu mandei: “Ensinando a minha filha a ser lésbica”?

 

PACO

Isso também é machismo.

 

GUILHERME

Acho que você simplesmente não captou a mensagem. Além do que, esse negócio de machismo é relativo. Tudo é relativo.

PACO

Essa é velha.

 

GUILHERME

Tudo é velho.

 

PACO

Tá vendo? Esse é outro dos teus problemas.

 

GUILHERME

Como assim?

 

PACO

Você fica aí com essa sua conversinha de que tudo é isso e de que tudo é aquilo… enche os seus textos de frases de efeito e de conclusões precipitadas acerca de coisas que absolutamente não tem nada a ver com a realidade…

 

GUILHERME

Escrever não tem nada a ver com a realidade.

 

PACO

Você entendeu o que eu quis dizer. Além do que, mata os seus personagens quando não sabe o que fazer com eles.

 

GUILHERME

(duvidoso) Hum…

 

PACO

(agressivo) Hum o quê?!

 

GUILHERME

Essa você roubou do Oscar Wilde, não?

 

PACO

Não roubei merda nenhuma de ninguém!

 

GUILHERME

Acredito em você.

 

PACO

Bom mesmo. E, como eu ia dizendo, você usa todos essas truques literários baratos para mascarar a sua falta de ter o que dizer.

 

GUILHERME

Bom, eu…

 

PACO

Estou falando alguma mentira?

 

GUILHERME

Todos os escritores fazem isso. Já te expliquei sobre o bule de chá. É a mesma coisa. É necessário preencher as páginas em branco com alguma coisa.

 

PACO

(triunfante) A-HA! Agora te peguei! Você disse antes: “Não sou um escritor; só escrevo muito”. E agora, o que tem a dizer sobre isso hein, espertão? Hein, fodidão?

GUILHERME

O que eu quis dizer foi que a maioria dos escritores só sabe ficar enchendo linguiça, e com muita merda, mas eu não, porque não sou um deles. Isso não faz de mim nem mais nem menos.

 

PACO

Então sobre o que são os seus textos?

GUILHERME

Não faço a menor idéia.

 

PACO

Como não?

 

GUILHERME

Simplesmente saio escrevendo. Não fico pensando em passar mensagem nenhuma. Só os perdedores fazem isso.

 

PACO

Isso é que você pensa, meu caro.

 

GUILHERME

Não preciso ser o herói de ninguém.

 

PACO

Esta conversa não está levando a lugar algum.

 

GUILHERME

Também acho.

 

PACO

Você é como uma criança que quer ter a palavra final. É só isso que você é.

 

GUILHERME

Acertou na mosca. Também acho que o mundo gira ao meu redor e detesto ser contrariado. Toda vez que papai diz que vamos passear, eu coloco a fantasia do Batman ou a do Super-Man – mas mamãe sempre me obriga a tirá-las e colocar alguma calça jeans que aperta o meu saco e alguma camisa pólo estampada com listras estúpidas. E quanto aos meus textos?

 

PACO

Já disse o que você tem que fazer. E tem mais, dá um jeito naqueles coloquialismos. Tá tudo parecendo forçado demais.

 

GUILHERME

Tudo bem.

 

PACO

Tudo bem?

 

GUILHERME

É, esquece. Não vou vender o meu rabo.

 

PACO

Moleque, vou te dar um conselho: Seja mais humilde que várias portas se abrirão pra você. Humildade é sinal de um grande espírito. “Nossas atitudes descrevem o nosso destino.”

 

GUILHERME

Que merda é essa? Zíbia Gasparetto??

 

PACO

AH, VAI TOMA NO CÚ!

 

 

E assim eu não fui publicado.

 

 

Guilherme Sakuma – 18/05/2010

 

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OBSERVAÇÃO PARA OS CABEÇAS-DE-REPOLHO: Nem todos os textos escritos em primeira pessoa (tipo: “Eu amarrei o filho-da-puta numa cadeira e cortei sua língua, seu nariz, suas orelhas, seus braços, suas pernas e seus testículos; depois levantei vôo que nem o super-homem e assassinei Deus” ou até um simples “Ontem atropelei um mendigo e não prestei socorro”) são sobre a vida do próprio autor que os escreveu ou sobre as coisas nas quais este acredita.


Written by Guilherme Sakuma in: Agenda,Contos,Guilherme Sakuma |

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