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Oct
26
2011

Inconsciência

Escritora: Rosane Gomes

Estava incongruente com a vida.Não se cabia mais.

Palavras lhe chegavam como flechas.
Quando as torturas em que se metera na vida iriam findar?
Ela se perguntava por que aceitara, desta vez, aquela bengala.

O objeto se revelava, dia a dia, sempre inútil, absolutamente inútil.

Com a antiga podia andar, com limites. Com a nova, não podia se mover: era uma bengala com grilhões.

Tinha medo de perdê-la; afinal, sozinha não aprendera a tatear o chão.
Não o chão das ruas (embora estes também), mas o terreno arenoso de alma alheia.

Bem dizendo, perdera um pouco de suas características para ser recipiente confortável.
De outrem.

A bengala volátil; ora se mostrava sólida, ora quebradiça, muitas vezes explosiva.

Difícil viver assim.

Sentiu que escolhera a agonia e a constante preocupação com seus passos- eram seus melhores inimigos – e não conseguia se liberar deles.

Não sem bengala.

Passava noites em claro, manhãs irrequietas – e sempre se perguntava “o que estou fazendo comigo?”

Inútil questão. Desanimada, tentava responder:

“Quando tudo estiver em acordo e houver harmonia nas minhas faculdades sensitivas e ativas , entrarei numa natureza superior, uma via talvez ainda não satisfatória. Contudo, esse acordo me fará sentir a existência de uma outra felicidade, uma outra sabedoria, uma outra imperfeição, ultrapassando, assim, a maior das alegrias possíveis de alcançar.”

Mas seu estado de alma, agonizante, impedia-lhe a percepção da própria resposta.
O imaterial suporte estava ali a fazer ruídos no pensamento.

Importava perceber, porém, que sua submissão ao objeto, bem como a rejeição por ele, eram atos de liberdade.
Tal submissão, não a reduzia ao nada….

No entusiasmo, quando a bengala trazia a tranquilidade de andar um pouco e somente um pouco, já aí nada havia de livre: coexistia uma falta de ar.

Desventura: não conseguia apartar-se, desapegar-se. ?
A questão mesmo era saber se a via da vontade racional (largar a bengala ou transformá-la) poderia coexistir com a via dos seus sentidos frágeis e carentes da aprovação de cada passo…

Pensou numa extrema via , cujo princípio seria desumanizar-se. Infelizmente essa seria uma outra forma de prisão:a apatia.

Com extremo desejo de ter a alma em repouso, pousou a bengala.

Primeiro, encostada num canto.
Depois, atrapalhando, no chão, a passagem.

Até se desmaterializar totalmente.

Palavras pontiagudas perderam o som.

Na memória, apenas aroma de algo que um dia considerara amor.


Written by Rosane Gomes in: Agenda,Contos,Rosane Gomes |

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