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Oct
30
2011

Kim, the Killer

Escritora: Letícia Piantieri

A noite acabara de chegar e trouxe consigo a chuva. O ar estava frio, mas talvez fossem apenas as poucas roupas que Kim vestia. Kim sentia borboletas no estômago, pois chegara a hora da sua vingança. Anos de planejamento e ódio seriam enfim recompensados. Pensara em tudo: desde a arma do crime até o álibi que daria para a polícia caso fosse acusada. Juntou anos de economia e agora estava ali, no corredor do hotel do homem que matou a sua família anos antes. O alvo era o candidato à reeleição para senador de São Paulo, o homem eleito como o justo e honrado com os eleitores, além de ser o salvador do partido.

Como não matá-lo?

Disfarçara-se de prostituta, levando um vestido levianamente curto e cor de mel. Trocara-se na sua suíte, a três quartos de distância do cômodo do senador. Não ousara chegar no hotel naqueles trajes. Além disso, sua reserva havia sido feita meses antes, tão logo soube que o senador se hospedaria ali naquela semana. O velho era casado, mas era um libertino por trás das cortinas. “Um porco imundo que merece a morte!” – Pensou.

Escolhera cuidadosamente a arma do crime. Lamentara por não poder optar por uma adaga ou algo mais sanguinário. Queria ver sangue, assim como vira os dos seus pais há tanto tempo… Entretanto teve de se contentar em envenená-lo com cianureto. Seria a melhor maneira de se livrar do crime.

A porta do quarto estava entreaberta. O velho a esperava vestindo um terno azul marinho em péssimas proporções para o corpo fora de forma.

- Você demorou, gatinha.   – Disse o senador, com um sorriso nauseante no rosto.  – Feche a porta.

Kim não hesitou. Fechou a porta em silêncio e tirou o vestido provocativamente. Vestia um delicado lingerie de renda rosa e preta, tipicamente delicada e romântica. Achou-a apropriada, ainda que fosse para uma prostituta. A calcinha era semitransparente, cobrindo-lhe parcialmente o sexo. O cabelo comprido e marrom escondia a maior parte do seu rosto, inclusive o seu receio de um possível fracasso. Estava disposta a ir longe para não cometer erro algum.

- Posso? – Perguntou Kim, apontando para o bar, localizado do outro lado da suíte decorada em tons pastéis.

- À vontade.

- Soube que Vossa Excelência é uma das favoritas para o cargo. – Despistou ela, enquanto retirava um pequeno vidro azul com cianeto de potássio do seu decote. Colocando uma pequena quantidade em uma das doses do whisky. Em outro copo, colocou uma quantidade razoável de vinho contido em uma garrava grande de vidro. Escondeu o frasco com o cianeto atrás da garrafa bronze de whisky.  - Aqui está.

- Política nunca é um assunto adequado o suficiente para ser conversado com uma mulher. Principalmente num momento como esse… Não me acompanha no whisky? – Perguntou, segurando o copo largo com a bebida.

- Ora, whisky é uma bebida muito forte para mulheres. Considero o vinho mais feminino.

Sorrira discretamente enquanto fitava-o beber a dose. Escolhera o whisky, pois esse possuía um gosto forte o suficiente para ocultar a presença do veneno. E além do mais, porque uma prostituta desconhecida iria querer mata-lo?

- Nossa… Esse é forte… – disse ele, enquanto colocava o copo no criado-mudo.  Ela já estava sentada ao lado dele, torcendo apenas para que o veneno agisse rapidamente para poder ir embora o mais rápido possível dali. Torcia para que ele pertencesse à maior parte da população que, graças a uma anastomia  genética, não seria capaz de identificar o odor de amêndoas nos sais do veneno.

O senador debruçou seu corpo avantajado sobre o dela, lambando-a no colo. O senador já se encontrava sem a maior parte da roupa, a não ser pela calça, que escondia o órgão duro e pulsante. Kim aceitou o sexo como uma parte do plano. O veneno circularia mais rapidamente durante o ato e a morte seria mais rápida. Porque não?

Ele tirou-lhe gentilmente o sutiã, beijando os seios fartos. Seios brancos e pouco desbravados, com auréolas pequenas e rosadas. Seios convidativos para uma espanhola. Desceu a língua um pouco mais. Lambeu a cintura fina e delicada. A pele possuía um delicioso frescor de alguma loção frutal. E como ele gostava daquilo… Beijou-lhe as ancas fartas que exibiam uma calcinha rosa rendada e transparente. Beijou-lhe a púbis e arrancou a calcinha. O membro pulsava vigorosamente mais forte dentro da calça e decidiu retirá-lo. Aconchegou o corpo entre as pernas daquela que viria a mata-lo, admirando o sexo exposto e desinibido. Passou sua língua entre seus pelos pubianos até ouvi-la gemer levemente e então a penetrou arduamente.

Kim gemia discretamente, o suficiente para que o senador percebesse que o prazer era real. Sempre sentiu prazer em oferecer prazer. Percebera que o sexo se tornava mais solto e prazeroso, ainda que com uma meretriz. O senador sentiu-se agitado e a sua cabeça doía de leve, mas ignorou-a. Repreendeu a si mesmo por sentir-se mal durante um momento tão inoportuno.

Virou-a, admirando suas belas curvas ao tê-la debruçada sobre os lençóis brancos. Kim fora discreta em demonstrar relutância, mas se viu obrigada a aceitar ser penetrada por trás. Jamais fizera isso em toda a vida e agora se via obrigada a render-se ao homem que odiava… Evitava pensar nisso… Não podia fingir que não sentia prazer com o sexo, ainda que com ele… Sentiu o órgão lúbrico penetrando-a, sendo o pioneiro em uma área não desbravada… O vai-e-vem… O encontro e desencontro de dois corpos quentes e ofegantes… Por trás da janela, o delicioso som da chuva tocando na janela…

O senador parou, subitamente. Não conseguia respirar e estava taquicardíaco. O corpo lânguido se permitira cair na cama, ao lado de Kim.

- Meu coração… Peça ajuda…  – Disse. Levara uma mão ao peito, acima do coração, como se quisesse acalmar o coração e tornar a respirar adequadamente, mas em vão.

-Não. – Balbuciou ela. Estava de joelhos ao lado do homem nu deitado na cama. Sorria maliciosamente, enquanto contemplava o seu trunfo. Sentia prazer em vê-lo ali, sofrendo. Era um prazer além que qualquer prazer que o sexo já a proporcionara. Kim sentia-se além do bem e do mal. A sua vingança chegara e já dera os seus primeiros sinais.

- Quem é… Você? Por que…?

- Não está lembrado de mim, senador? Ah, claro que não! Talvez se lembre dos meus pais. Você os tirou de mim doze anos atrás e agora eu vim. E tenho o direito dos céus de estar aqui.

O homem murmurou algumas palavras que não foram compreendidas por Kim. Ela vestiu-se o mais depressa que pôde, levando o pequeno frasco de cianureto consigo. Cortou um pedaço do lençol e enfiou-o dentro da garrafa de whisky. Abaixou-se sobre as roupas do falecido e retirou o isqueiro, acendendo o pedaço de pano que servia de pavio e jogou a garrafa com força sobre a cama, contemplando as labaredas que cresciam vigorosamente sobre o cadáver e deixou a suíte, caminhando despreocupadamente pelos corredores em direção à saída do prédio, como uma hóspede qualquer daquele hotel cinco estrelas.

 

E lá fora, a chuva silenciara-se, dando lugar a uma possível noite estrelada.

 

 

 

 

 

 

3 Comments»

  • Lucas M. de Freitas says:

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    Muito boa a narração! Tudo escrito no momento certo para prender a atenção, mas acho que o fim não ficou tão bom como o resto estava, uma reviravolta do enredo ou uma revelação estarrecedora seria muito mais satisfatória, mas mesmo assim no geral o conto estava ótimo.

  • leticia piantieri says:

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    Muito obrigada :)

  • Lucas M. de Freitas says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    De nada Letícia, não esquece de em contos futuros manter o ar misterioso e criminal, além de fazer um final massa.

    Abração!

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