Lebres e Lobos – Conto 02
Escritor: Homero Meyer
Mãos Geladas
Stwart correu para casa sem parar, na verdade, ele acelerava a cada passo. O ar gelado que invadia seus pulmões fazia seu peito arder, bem como ardiam suas têmporas. Ele sentia o suor escorrer pelo rosto que latejava, sentia suas pernas rasgarem por dentro com o ácido invadindo suas veias e sentia seus pés congelarem na neve e ficarem cada vez mais pesados, mas ele não podia parar. Seu braço estava cansado, pois durante o longo caminho entre o lago branco e a vila, ele carregou sua espada curta, firmando as mãos no punho da arma, como se estivesse pronto para reagir a qualquer ataque.
– Harsing! – Gritava o garoto de 12 anos – Harsing! – Ele bradava na esperança de ver seu pai surgir na porta de casa, uma vez que seu cavalo estava descansando no estábulo.
– Harsing! – Ele gritou pela terceira vez e antes que pudesse gritar novamente, Harsing apareceu sob o batente. Stwart estava em casa.
Stwart era o filho mais velho de Harsing e com apenas 12 anos já era soldado. Bastardo de nascimento, o garoto viu sua vida mudar com a morte da esposa de seu pai. Ele deixou o abrigo militar onde fora criado e foi aceito na casa de seu Harsing aos sete anos de idade. Agora, cinco anos depois, era tratado como um filho legítimo por todos, menos por seus irmãos mais novos e pela família da falecida esposa que sempre recorriam aos magistrados da vila para relembrar à Harsing que o garoto não tinha direito a nenhuma herança.
Embora esse assunto chateasse Stwart, ele não sentia nenhuma tristeza ou indiferença em sua vida. Ele amava Harsing, seu pai era sua família, ele e todos os soldados da casa militar onde vivera desde seus primeiros anos de vida sob a dura doutrina militar praticada pelo clan MacCormak.
Sua relação com seus dois irmãos mais novos, os gêmeos Jared e Jensen, era caracterizada por uma indiferença reciproca, eles eram crianças mimadas, em sua visão, mas sabia que desde muito cedo, ambos haviam sido treinados na esgrima e que apesar de sua personalidade vil e mesquinha, eles também seriam grandes guerreiros algum dia, embora seu destino fosse bem diferente da vida de um soldado, eles seriam krœsers, os líderes dos homens de batalha das casas nobres.
Desde seu nascimento, ao ser oferecido à casa militar de Jules MacCormak, Stwart sabia que dificilmente lutaria ao lado de seu pai e sob a bandeira de sua família. Ele era propriedade do clan MacCormak, mas via isso como motivo de orgulho. Orgulho que fazia de Stwart o melhor guardião das fronteiras do vielarejo.
O garoto vivia nas fronteiras do território e seu trabalho era vigiar as terras de Jules MacCormak contra invasores, arruaceiros e marginais. Por duas vezes, inclusive, ele enfrentou e matou ladrões que tentaram atacá-lo. Ele era rápido, e por isso, muitas vezes era também solicitado por Jules como mensageiro pessoal. Stwart sabia os caminhos da mata, as curvas da estrada e onde estavam as árvores mais altas que lhe possibilitavam ampliar sua visão.
E foi assim que Stwart salvou a vida de Hector.
O garoto correu muito naquele dia. Ele estava sozinho na estrada, pois sua missão que fora entregar uma carta de Jules no povoado vizinho de Yerkel, estava cumprida e ele voltava para casa quando percebeu uma movimentação estranha na mata. De imediato, ele parou de se mover, escondeu-se e lentamente procurou uma árvore com troncos grossos que pudesse escalar sem ficar com o corpo exposto e vulnerável à flechas inimigas.
Sua vestimenta de lã de carneiro e pele de lobo estava bastante suja e coberta de neve, o que poderia lhe garantir uma leve camuflagem, pensou o garoto enquanto escalava a árvore fria e retorcida.
Foi do alto dela que Stwart conseguiu ver o bando que se aproximava sorrateiramente. Eram como fantasmas, ele pensou. Seus corpos brancos e magros avançavam leves, com movimentos harmônicos e calculados. Eles estavam cruzando o lago branco, o lago que separava o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Seus olhos eram grandes, frontais. Eram como seres-humanos, mas diferentes, pareciam opacos e distorcidos pelo frio e pela fome, com olhos redondos e órbitas escuras de predadores atentos. Stwart teve medo, lembrou das histórias contadas pelos soldados mais velhos ao redor das fogueiras e soube que aqueles não eram seus inimigos habituais, não eram moleques, nem bandidos, nem arruaceiros. Stwart estava vendo, pela primeira vez em sua vida, o povo canibal.
Esperou alguns poucos segundos, desejando que os inimigos não percebessem sua presença, então saltou da árvore e correu. Correu para chegar em casa antes do cair da noite, correu para avisar seu povo, correu para deixar para trás o medo que sentia e, principalmente, correu para salvar sua vida!
Sua jornada durou seis horas, tempo em que ele nem arriscou olhar para trás.
Ele gritou para chamar Harsing e esse apareceu ao seu encontro. Ainda ofegante, Ele tentou contar o que houve, mas a única palavra que saiu de sua boca foi: “Canibais”.
Naquela mesma hora, Jules observava as chamas que surgiam no horizonte e sabia que vinham da direção de Yerkel, mas foi apenas após o testemunho de Harsing que decidiu partir.
– Canibais não podem andar livres em nossas terras, Jules – Disse Harsing com decisão.
– Nunca vimos o povo branco, Harsing.
– Nossos pais e avós os ensinaram a ficar do outro lado do lago branco, Jules, por isso nunca os vimos, mas nossos mortos não conseguem mais cruzar o lago, congelado nesse longo inverno, então estão vindo para cá para nos buscar.
– Essa lenda é tão estúpida quanto você e seus cães, Harsing. – Bradou o nobre MacCormak enquanto batia seu punho com firmeza em sua mesa de carvalho. – Só existem duas coisas do outro lado do lago, gelo e nossos antepassados mortos! Ninguém vivo pode atravessar para o lago e ninguém morto jamais voltou de lá! – Jules fez uma pausa, observando Harsing e respirando fundo… – Mas, de qualquer forma, esse é o segundo ataque nesse inverno e precisamos saber quem são nossos inimigos… Chame os homens de sua casa. Vamos partir imediatamente.
Jules não contou aos seus homens sobre os canibais, pois para muitos, assim como para ele mesmo, o povo branco era apenas uma lenda. Porém, Yerkel era o segundo vilarejo a ser atacado naquele inverno e Jules pensava que se ele cavalgasse rápido o bastante poderia convencer a si mesmo que aquela lenda era real.
Poucos homens haviam visto os canibais, ou também conhecidos como povo branco, eram personagens de histórias para crianças, de cantos de batalha e do folclore local. O povo branco não era visto como inimigo, mas isso estava para mudar.
Naquela mesma noite em que Jules e seus homens cavalgaram para Yerkel e mataram tudo o que respirava, eles descobriram que o longo inverno ainda traria muita morte antes de chegar ao fim. A lenda também dizia que o povo branco se alimentava da alma das pessoas e que aqueles que perdiam sua alma, acordavam novamente como canibais famintos. Era assim que o povo branco crescia. Portanto, Jules não queria nenhuma criatura desgraçada e sem alma se reproduzindo em suas terras. Eles mataram todos, queimaram os corpos, mas salvaram Hector.
O garoto foi levado de volta ao vilarejo com suas mãos quebradas e enfaixadas. Harsing o recebeu em sua casa, mas o único membro de sua família a se compadecer com a situação do órfão foi Stwart. O filho bastardo recebera o filho adotado e amaldiçoado com os braços abertos. A amizade que teve início nessa noite foi forte o bastante para cruzar os limites dos mundos dos vivos e dos mortos, mas Hector era um sobrevivente da morte branca e seu destino lhe guardava apenas tragédias.
FIM
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Hmm, pelo jeito é um conto com zumbis! Já leio a terceira parte!
Ou não… hahaha