Lebres e Lobos – Conto 01
Escritor: Homero Meyer
Cheiro de Morte
O inverno havia sido rigoroso naquele ano e o ar estava com cheiro de morte, mas o sangue que se espalhava na neve não era fruto do vento cortante, da fome e da falta de água… O sangue na neve era fruto do desespero. Era um sangue de cor vermelho forte, cristalizado e congelado nas lâminas dos bastardos que atacaram o vilarejo de Yerkel durante a madrugada.
Jules MacCormak sabia disso, havia visto as casas queimarem como faróis na noite, clareando o horizonte mesmo há milhas de distância, do alto da colina onde ficava a pequena fortificação de pedra onde residia com sua família e seu povo. Naquelas terras, Jules MacCormak era a lei, por isso reuniu seus melhores soldados e marchou até o vilarejo, antes mesmo do nascer do sol. Os cães e cavalos correram pelas sombras, cortando uma noite que ficara ainda mais espessa devido à tempestade de neve. Apesar da viagem ser curta, o terreno complicado fez com que o tempo se esgotasse e Jules chegou ao vilarejo junto com a luz matinal e com a certeza que encontraria todos mortos.
O grupo de homens corpulentos, vestindo peles espessas e cotas de malha desmontou de seus cavalos, empunhou suas espadas e partiu para dentro da primeira viela da cidade. O que encontraram era exatamente o que esperavam encontrar… Homens mortos, cabeças decepadas, sangue congelado e mulheres violentadas, porém, por entre as chamas, Jules percebeu que os corpos não foram apenas queimados, eles foram assados e comidos. Com sua alma retorcida perante tanta crueldade contra aqueles camponeses inocentes, Jules ordenou aos seus homens que matassem qualquer pessoa que estivesse viva ali. Acreditava que os canibais eram amaldiçoados por panteões de demônios e não queria nenhuma forma daquelas pestes em seu território. E assim seus homens fizeram. Encontraram guerreiros magros, de faces distorcidas pelo frio e pela fome. Mataram homens, mulheres e qualquer pessoa que parecesse tomada pela loucura. Mataram dezenas de pessoas, mas nenhum deles era habitante daquele vilarejo. Invasores, usurpadores nômades e canibais desgraçados, Jules queria todos mortos, queimados e depois enterrados sob toneladas de neve.
A matança durou quase toda a manhã. Jules e seus soldados invadiram casa por casa à caça de seus inimigos, enquanto alguns de seus homens, à cavalo, mantinham o cerco ao redor da cidade, impedindo qualquer escapada furtiva. Um desses homens era Harsing Torn, um jovem arqueiro montado, primo de Jules MacCormak e conhecido por todos como um grande guerreiro. Harsing matou 5 homens naquela manhã, todos com tiros certeiros de seu arco de carvalho e teixo.
Quando o sol já se posicionava alto no céu, Jules pensou que a situação estava controlada, mas uma última surpresa ainda se revelaria naquele vilarejo. Uma surpresa sangrenta que nenhum daqueles homens, brutamontes acostumados com carnificina, jamais esqueceu.
O som oco e repetitivo chamou a atenção de Jules e seus homens durante o final das buscas, eles estavam seguindo uma trilha mata adentro e as pancadas pareciam vir de uma pequena cabana com paredes de terra batida. Jules fez sinal com as mãos, pedindo silêncio para seus homens, eram quatro deles ao seu lado e todos seguiram seus passos curtos com cuidado até ficarem alinhados de frente para a pequena porta feita com tábuas de madeira envelhecida. As batidas continuavam lá dentro, mas nenhum deles se moveu, não antes de Jules derrubar a porta com um chute.
Dentro da casa o cheiro era insuportável. Era morte, misturada com urina, com suor e sangue. Apenas poucos raios de luz conseguiam contornar as palhas secas do telhado e invadir a casa, mas eram suficientes para revelar Hector bem no meio dela. Ele estava ajoelhado e socava o chão com as duas mãos em um movimento constante. Ele socava o chão com a mão direita, depois com a esquerda, socava e socava, fazendo o som ecoar pela casa. Hector era um garoto ainda, aparentava ter apenas 11 anos. Jules entrou na casa e olhou para os lados. Primeiro conseguiu ver uma mulher morta ao lado de um punhado de carvão, provavelmente uma fogueira que há muito tempo fora extinta. alguns passos depois, porém, observou que Hector não socava apenas o chão… Havia um corpo em sua frente, mas não havia nenhuma cabeça.
Hector estava em estado de choque. Os quatro homens de Jules precisaram entrar na casa e segurá-lo apenas para que ele parasse de socar. Todos os ossos de suas duas mãos estavam quebrados e o garoto estava banhado em sangue. Quando ele finalmente foi dominado e retirado da casa, Jules entendeu o que acontecera ali. Hector tentara defender sua mãe, mas essa fora brutalmente assassinada pelo invasor, então, quando conseguiu atacá-lo e derrubá-lo, Hector começou a socar e não parou nunca mais.
Hector socou a cabeça do homem até partir seu crânio, e quando todos os ossos de suas mãos quebraram, ele continuou socando. Haviam pedaços de crânio espalhados pela casa, havia sangue por todos os lados, a massa cerebral do homem era indistinguível da lama e da neve. Tudo ali era o caos. Jules sentiu pena de Hector, mas mesmo assim pensou em matá-lo. Tirou seu punhal da bainha e decidiu que um golpe rápido roubaria a vida do garoto sem lhe trazer mais nenhum sofrimento, seria misericórdia, ele pensou.
Jules deu passos decisivos para fora da casa, mas então pode ver Hector falando calmamente, sem nenhum traço de loucura. O garoto contou que os invasores chegaram no começo da madrugada, seu pai, um grande caçador da região, fora o primeiro a enfrentá-los. Durante algumas horas, os habitantes do vilarejo conseguiram reagir, mas a morte de seu pai acabou com toda a resistência. Hector estava escondido na mata quando viu o líder dos invasores se dirigir para sua casa, ele esperou até sua mãe começar a gritar, de forma aos gritos dela camuflarem sua invasão na casa. Ele golpeou o invasor, mas seu corpo pequeno não fora o suficientemente forte para derrubá-lo, dessa forma, o invasor aborrecido matou sua mãe e então partiu para cima do garoto. Uma panela de ferro foi a arma usada por Hector para derrubar o opressor e amassar sua cabeça, depois disso, permaneceu usando seus punhos para esmagar a cabeça até não sobrar mais nada.
Hector desabou em um sono profundo, completamente esgotado. Harsing o colocou sobre seu cavalo e disse a Jules que cuidaria dele. Jules aceitou e os homens partiram para longe daquela vila morta, carregando consigo uma criança amaldiçoada, cujo destino afetaria a vida de todos.
FIM
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Gostei dessa primeira parte um tanto sangrenta! A descrição é boa e o texto ficou gostoso de se ler.
Lerei o restante!
Estou gostando bastante de escrever esses contos e pretendo continuar por muito tempo… Obrigado pelo comentário!
Eu sempre sinto falta de um diálogo. Alguma fala. Sempre favorece a imersão para mim. Mas o texto está ótimo!
Senti um pouco de falta nesse primeiro, mas apenas depois de escrever o segundo e o terceiro, onde coloquei breves diálogos e com certeza achei que ficaram mais dinâmicos.
O lado positivo de publicar os textos aqui, é a qualidade da audiência. Nessa trajetória autoral, busco arduamente a sinceridade para comigo mesmo para preferir as críticas aos elogios (não é fácil). É uma questão de estar exposto ao julgamento de todos e preferir receber pedradas para que, ao menos assim, possa aprender onde estão as feridas que devo curar! Muito gostoso ler meu texto aqui novamente, muito bom como isso me fez pensar ainda mais sobre cada palavra, sobre cada escolha!