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Oct
30
2011

Montanha Russa

Escritor: Alex Nunes

Você que for ler uma poesia ou qualquer outro texto literário, fique esperto, por favor. Não o faça de maneira monótona, não dê às palavras uma mesma entonação do início ao fim, como se todas fossem uma coisa só. Nem bulas de remédio merecem ser lidas assim, com a expressividade de uma máquina juntando sílabas e reproduzindo-lhes o som.

Você estaria sendo injusto com todos aqueles que cunharam estas palavras, que deram a cada uma delas uma forma particular, individual, única. E também seria injusto com os poetas, escritores e compositores. Coitados! Perdem noites de sono pensando em cada detalhezinho do que escrevem, torturam-se impiedosamente até arrancar uma idéia inspirada da cabeça e releem aquilo um sem-número de vezes só pra se convencerem de que tudo está nos conformes. Que balde de água fria saber que você percorre o texto como se estivesse numa estrada reta e nivelada.

Quando for embarcar na leitura dos textos, imagine-os como uma montanha russa, e permita-se sentir o constante sobe e desce das palavras. Permita-se saborear como cada pronúncia brinca a seu próprio modo na sua boca, com suas diferenças se entrelaçando respeitosa e graciosamente, em um emaranhado cúmplice, muitas vezes transcendendo o mundo que deviam representar. As palavras não farão seu corpo tremer e chacoalhar loucamente, mas alguma coisa aí dentro vai se mexer. Você estará em um agitado passeio por variações de sentidos e, acredite, não há como ficar indiferente a eles. Eles atingirão suas emoções e o levarão sem cerimônia a topos, depressões e curvas vertiginosas cheias de alegria, indignação, raiva, tristeza, esperança.

Também há loopings. Algumas palavras, quando bem escolhidas e organizadas, são contundentes. Con-Tum!-Den-Tes. Fazem Tum!Tum! em verdades inquestionáveis (ou seriam mentiras alienadoras?), Tum!Tum! em ideias pouco aprofundadas, vão batendo com intensidade, inquietando, atordoando, empurrando-o cada vez mais depressa em direção a conclusões à primeira vista assustadoras. Você pode até sentir vontade de pular fora, mas quando a mente entra em movimento acelerado progressivo, a necessidade do saber é bem mais instigante. E quando você menos se dá conta lá está você, de cabeça para baixo, olhando para o mundo de um jeito novo, livre daquele chão de conceitos antes tão certos, tão verdadeiros.

Já pensou na quantidade de textos que existem? Em quantos passeios extraordinários você pode dar? E pode ser que, dependendo do quanto você se permitir sentir, o desembarque seja com olhos marejados, coração acelerado, voz embargada. Praticamente uma montanha russa de verdade, não é? Ou talvez até melhor, porque não é preciso ir muito longe e nem pagar muito caro. E, com a vantagem de que, por mais voltas que você dê, o passeio sempre apresenta novos caminhos.

 


Written by Alex Nunes in: Agenda,Alex Nunes,Contos |

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