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Oct
26
2011

Novo Nascimento (Jo 3:3)

Escritor: Samuel Finger

Vermes obscenos! Escarravam porcamente sobre a carcaça nua e ensangüentada, ali jogada no chão seco e arenoso ao lado dum rochedo escuro e de pouca inclinação. Não havia consideração da parte dos Throahhsi para com aquele pedaço de carne que logo estaria se deteriorando, infestado de criaturas repulsivas. Não que fosse o cadáver de alguém respeitável. Era o meu. Com aquele corpo eu viera ao mundo, amadurecera e descobrira meu grande objetivo, agora um passo mais perto de ser alcançado. Já em minha nova pele, esbranquiçada e aparentemente mais fina, pude literalmente sentir cada onda da luz pálida do sol poente de forma intensa e percebi que me perturbavam algumas sensações físicas novas que eu ainda teria de aprender a decifrar. Com olhos ardendo e uma ligeira tontura, comecei a me vestir devagar. Ao terminar, estaquei e olhei para aquilo que eu fora até poucos instantes: vi minha antiga face, vidrada numa expressão medonha, já quase coberta daquela saliva ambárica e viscosa. Deprimente. Chamei-lhes a atenção.
- Precisam mesmo fazer isso?
- Isso o que? – Uma cabeça virada em minha direção revelou que os olhos amarelos e embaçados do Líder estavam focados em mim agora. Tinha um pescoço atarracado que brotava de seu corpo escuro, que era cheio de calombos e cicatrizes cinzentas. Os membros superiores tanto quando os inferiores eram proporcionais a sua baixíssima estatura, mas ainda sim musculosos e providos de uma grande força. Algumas mechas esparsas de cabelo grudento e emaranhado desciam pelos lados da cabeça enegrecida até quase tocar seus ombros despidos. Cobria apenas sua nudez, com andrajos manchados de imundícia e concupiscência. Seus subordinados não estavam tão diferentes. Eram mesmo o pior tipo de criatura que este mundo já conheceu.
- Cuspir no corpo antigo. – respondi delineando as palavras com todo o poder expressivo da Voz que eu optara por ter.
- Quer voltar para ele? – notei impaciência nas suas palavras rudes e arranhadas, o timbre totalmente concernente com a fisionomia de quem as pronunciava. Como já esperado, a Voz não causou-lhe efeito algum.
- Não, de modo algum mas…
- Então deixe-nos completar o trabalho que você mesmo – disse apontando-me uma garra negra, retorcida – nos chamou para fazer! – Além de tudo era intempestivo, pensei.
- Arrancar a alma não é um serviço limpo – disse enquanto limpava a boca com as costas da mão, – por isso nós – apontava agora para o próprio peito – somos os melhores. Houve grunhidos de aprovação vindos dos demais que ainda cuspiam. Minha nova face exprimiu nojo.
- Assim apodrecerá mais rápido, – explanou ele apontando para o corpo. – A ligação com seu novo recipiente se consumará mais depressa terminada a existência do antigo. Enquanto o velho ainda durar, terá certa influência sobre você. Vai sentir uns puxões de vez em quando – a casca velha arrastando a alma de volta para seu lugar de origem – gesticulava bastante a cada detalhe dado com mórbido interesse, como todos da sua raça. – E você provavelmente voltará para dentro do cadáver por algum tempo. Então, apenas relaxe e deixe estar que seu corpo novo vencerá a disputa por sua alma. E pressentindo minha aura formar uma grande indignação já prestes a transbordar, completou:
- Não há como evitar que aconteça… É um dos preços por esta… tolice. – Cuspiu com desaprovação em minha direção – Grande Senhor Hashu! Como são néscios os humanos!
De fato, não me agradou esta revelação. Inquiri:
- E se queimarmos? Não seria mais rápido?
- Não!
- Porque não?
- Fogo cancelaria o que aquele ali – apontou para o homem magro sentado numa sombra perto do cadáver – fez para sua alma estar presa nessa blasfêmia que você usa como corpo agora. E chega de perguntas. – Olhou para o céu arroxeado fazendo alguns cálculos e dirigiu-se aos outros:
- Hei, todos, vamos. Temos pouco tempo para entrar novamente na cidade: o sol está se pondo e não quero estar aqui quando aquele… Theminos – disse o nome com ressentimento – e seu martelo nojento renascerem com a lua.
O Líder e os outros se afastaram mancando, garras sujas de sangue, rostos satisfeitos: bom pagamento, trabalho a seu gosto. Restara apenas Galdrin ali no canto, sentado corcunda, quase imperceptível alguns metros atrás de mim. Fora ele quem fizera o ritual e selara minha alma nesse novo receptáculo ainda não contemplado por qualquer outro mortal. Sem ele, seria presa fácil dos Throahhsi, que apesar de terem sido bem pagos, eram famosos pela sua paixão por tortura, portanto indignos de confiança. Poderiam ter arrancado a minha alma e ao invés de depositarem-na no corpo novo, guardarem para oferecer-me para seu deus profano. Porém tinham sido minha única garantia de sucesso em meu intento audaz.
Galdrin fitava-me de dentro de suas vestes exageradamente grandes com olhos cansados, tanto pela idade, quanto pela tarefa cansativa que desempenhara com a desenvoltura esperada de um Arcanista de seu renome.
- Eles estão aqui.
Senti de imediato o já conhecido calafrio e compreendi. Ele estivera em contato mental com aqueles dois. Tinham feito este corpo, mediante a intercessão de Galdrin, mas suas presenças ainda causava-me mal-estar físico, tamanha sua perversão.
- Tente vê-los. – Falou o Arcanista.
Abri minha consciência e vi se formando pouco a pouco duas figuras esfarrapadas flutuando um de cada lado do homem. A Corrente do Espectro fora uma boa escolha afinal. Estavam ali Fatiador e Costureiro. Podia ouví-los suspirando sonoramente. Vieram para a segunda parte das abominações que cometeríamos hoje. Teriam o corpo de Galdrin. O porquê dele querer aquilo, ainda me era desconhecido.
Contemplei-os um breve instante. Depus o flautim aos pés de Galdrin e o olhei pela ultima vez. Ele retribuiu o olhar com mansidão e um pequeno sorriso. Afastei-me em direção às dunas vermelhas que cercavam o local, não querendo presenciar mais uma vez a profanação que era arrancar a alma de seu corpo de origem. Não passara metade de uma hora quando voltei, mas tudo já estava feito. Os dois já haviam abandonado o local e deixado apenas o flautim, no exato local onde eu havia depositado.
Hesitei um instante antes de segurá-lo, não sabendo o que esperar, quando senti o calafrio. Novamente abri minha consciência e vi Galdrin suspenso no ar, ligado ao flautim por um fino cordão negro porém brilhante.
- Ande, homem! Quer dizer, não posso mais chamá-lo de “homem”. Você é agora muito mais do que isso, enquanto que me tornei menos do que um, mas foi necessário… Pegue-me de uma vez e partamos para Lyarvht, para encontrarmos seu irmão!
Abanei a cabeça em concordância enquanto punha a pequena flauta no bolso interno de minhas vestes. Galdrin sorriu e continuou:
? – Não force nos primeiros dias. Utilize as novas habilidades com moderação e prudência até tudo estar devidamente consumado. Principalmente – indicou com um gesto meu peito – o…
? – Sim, sim, não precisa me lembrar do perigo daquilo que carrego aqui. Hora de partir, pensei.
Olhei uma última vez para meu corpo antigo, virei-me e iniciei uma corrida veloz através do deserto que principiava a esfriar: a lua subia lentamente a seu trono prateado e Theminos já urrava alguns quilômetros ao leste. Tudo andava conforme meus ambiciosos desejos.

(explicando: este é apenas o primeiro capítulo, então certas coisas serão explicadas mais adiante! Obrigado por ler!)


Written by samuelfinger in: Agenda,Contos,Samuel Finger | Tags: , , , , , ,

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