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Oct
03
2011

O cara que mentia para as mulheres

Escritor: Israel Duarte

o-cara-que-mentia-para-as-mulheres

Ele é um bom rapaz, eu juro. O conheço desde o primário e já nesta época ele apresentava este comportamento tão singular. Não posso escrever que nunca menti para uma mulher e sei que pouquíssimas pessoas no mundo têm direito de fazer uma afirmação dessas, talvez umas cinco. Mas esse meu amigo, Giovani, têm o direito e dever de fazer a afirmação inversa: ele nunca falou a verdade para mulher alguma.

Gio –como era chamado pelos amigos- era muito bom no que fazia, mentia de coração, mentia com a alma. Todas as mulheres acreditavam nele, era incrível. Ora eu o admirava com a mais pura inveja, ora eu sentia nojo das suas mentiras fantasiosas. Mas ele era um grande amigo e tenho que admitir que vez ou outra eu até o ajudara fazendo algum papel de menor importância. Lembro de uma vez que ele se passou pelo filho do embaixador dos Estados Unidos e eu fui seu tradutor. Ele começou mentindo pra sua mãe: Lavei atrás da orelha, não fui eu que comi o chocolate, ele que começou, já fiz o dever… Depois começou a mentir para as professoras e por fim, para as namoradinhas. Lá pelos quinze anos de idade, desistiu de ter namoradinhas e passou a ser um puro pegador, sempre que podia uma diferente.

E a vida de Giovani foi desse jeito até que numa festa ele viu uma garota baixinha, magrinha e toda recatada, encostada na parede. Ele, como de costume, pôs em direção a sua presa, mas dessa vez algo totalmente inesperado aconteceu, ele travou. Ficou em pé de frente a garota, enquanto sua língua dava voltas e voltas sem formar nenhum fonema. O suor surgiu em sua testa e suas pernas tremeram. Envergonhado ele deu meia volta, sentou-se sozinho no sofá e ficou lá o resto da noite. Tentamos animá-lo, mas não tivemos sucesso. Ele só voltou a sorrir e falar lá no final da festa, quando a tal garotinha veio falar com ele. Uma conversa surreal que foi mais ou menos assim:

- O que foi aquilo? – ela perguntou.

- Eu não sei. Sou muito tímido e de vez em quando essas coisas acontecem comigo. – mentira absurda! Primeiro ele nunca foi tímido e ninguém nunca o viu ficar sem voz antes.

- E agora, que a sua voz voltou, vai me dizer algo agora?

- Sim. Eu queria dizer que você é a garota mais linda que eu vi em toda minha vida. – isso é um absurdo. Ela até que era engraçadinha, mas ela havia tocado mulheres bem mais formosas

- Garotas como eu, não ouvem isso com muita freqüência. Qual o seu nome? – Falou enquanto sorria a garota.

- Giovanni, com dois ‘n’. E o teu? – claro que o nome dele só tinha um n.

- Ivana. Muito prazer em conhecê-lo Sr. Giovanni com dois n. Que horas são?

- O prazer é todo meu, Ivana. E são exatamente 03:27. – mais uma mentira, eram 3:28.

- Olha eu tenho que ir. Trabalho amanhã de 10h, nem sei o que ainda estou fazendo por aqui.

- Certo… posso pegar seu telefone, meu amor? – ele arriscou, arrancando dela o um sorriso e pedacinho de papel.

Ela o entregou e logo na manhã seguinte ele ligou. Eles se encontraram algumas vezes, cineminha, parquinho, sorvetinho, mãos dadas, enfim, a porra toda. Ele dizia “meu amor” daqui, ela mandava um benzinho de cá. Gio ficou encantando. Acho que nunca teve esse tipo de relação antes.  As coisas foram andando e não tardou até que o Gio apresentasse Ivana à sua família. Ela retribuiu e o levou para jantar na sua casa. Era coisa séria. Oficial. Ninguém conseguia acreditar naquilo. Especialmente eu. Ela era carinhosa, nada demais, Gio sempre teve esse poder com as mulheres. Mas ele era ainda mais meloso com ela, isso era inédito. Pensamos ser piada, joguete, alguma malandragem pra conseguir algo. Ele era um canalha, sabíamos disso, sempre soubemos. Era só uma questão de tempo para ele se revelar. Fizemos um bolão: quanto tempo aquela melação iria demorar?

O tempo foi passando. Um mês, dois, três… até que todos nós paramos de contar, nenhum de nós poderia mais ganhar o bolão. Tivemos que beber o dinheiro para afogar a dor de ter perdido um amigo para o time dos casados. Giovani, o namorador sério. Foi duro nos acostumar. Mas, quando havíamos perdido quase toda a esperança, Gio abre a porta do boteco nos pedindo ajuda. Ele estava nervoso e mal conseguia falara. Demos cerveja ao moleque e depois de alguns instantes ele conseguiu falar:

- Ela disse que me ama. Ela abriu a boca para dizer que me ama.

- E o que você fez, Gio? – perguntei ao perceber a aflição que tomava conta de seu rosto.

- Fiz nada, velho. Fiz nada!

- Porque, meu velho?

- Eu não sei falar a verdade! – falou enquanto seus olhos se enchiam de lagrimas.

- Calma, Gio. Calma… Mas, me responda uma coisa, você não a chamava de “meu amor” uns tempos desse?

- Chamava, chamava. Mas isso foi bem no começo, quando eu não me importava com ela. Eu dizia que a amava, que queria casar com ela, ter filhos… A porra toda. Hoje eu não consigo falar essas coisas por que simplesmente eu a amo, quero casar, morar numa casa com jardim, três filhos. Tudo que você imaginar.

- É… nunca pensei que iria te ver falar algo desse tipo.

- Nem eu.  Nem eu… Mas o que eu faço? Você é meu melhor amigo, você tem que me ajudar.

- Eu não sei, cara. Se você não consegue falar, é melhor ficar calado. Pelo menos vai ganhar algum tempo.

Ele obedeceu. Claro que não era a solução definitiva, mas ele conseguiu comprar algum tempo quando aliou o tal silencio a outras mentirinhas. Inventou uma ex, problemas no trabalho, tia doente e mil e tantas coisas que lhe bateram na telha. A paciência de Ivana foi se esgotando, ao passo que faltava provas de ter seu amor correspondido. Gio se viu obrigado a conta-la o seu terrível segredo, diria a ela que tudo que saia da boca dele era mentira. Claro que ele não conseguiu. Mas um mentiroso falar que está mentindo, é um paradoxo foda. Mais uma vez Gio inventou uma mentirinha. Ivana frustrada com a aparente falta de amor de seu amado, Gio deprimido e frustrado com a sua maldição. A situação ficou insuportável. Apesar do amor que ainda existia, Ivana decidiu que era melhor a separação. Gio teve suas forças consumidas pela dor que sentia em ver sua amada sofrer e não pode discordar da decisão dela. Ela partiu.

Meses se passaram, Gio voltou a sair conosco, continuou a mentir para as mulheres e de vez em quando ainda solta aquele sorriso moleque que conhecíamos desde criança. Mas sabemos que ele nunca mais foi o mesmo e até hoje pensa naquela garota baixinha, magrinha e acanhada. A maior prova disso é que ele ainda freqüenta um terapeuta e secretamente –só eu sei disso- fundou um grupo: os Mentirosos anônimos.

 


Written by Israel Duarte in: Contos,Israel Duarte | Tags: , ,

17 Comments»

  • Vinicius Maboni says:

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    “Mas um mentiroso falar que está mentindo, é um paradoxo foda.” – Boa! Muito bom, pra variar israel.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      já dizia um tal de Eubulides de Mileto no sec 6 a.c.
      “Um homem diz que está mentindo. O que ele diz é verdade ou mentira?”
      -

      uaehueahueahuaehaeuhae

  • Samila says:

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    Ótimo tom, desenvolvimento e final! é por isso que eu ponho fé nesse nego! =D
    Parabéns, Israel!
    Espero ver os esboços e as finalizações de muitas outras histórias tuas, viu?

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    bela história! a leitura flui mt bem, parabens ;)
    -
    Ela até que era engraçadinha, mas ele** havia tocado mulheres bem mais formosas – é isso né? [tem mais uns 2, 3 errinhos ae pelo texto]
    -
    “E são exatamente 03:27. – mais uma mentira, eram 3:28″ xD ehiuhauiahi

  • Renan MacSan says:

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    Achei bem legal Israel, flui bem. Só tem uns errinhos de português, mas isso você corrige numa boa revisão.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Valeu, Renan. Estes tantos errinhos são fruto da preguiça de escrever que tenho tido nos últimos tempos. o máximo de coragem que tenho só me da forças pra vomitar no papel a idéia.
      -
      algum tempo no futuro, vou dar uma lapidade neste e em outros textos que ficaram ‘inacabados’.

      -
      flw

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    Gosto desse seu tom cotidiano e corriqueiro. Parece que estou conversando com um amigo meu que mora ali do lado sobre essas coisas que, eventualmente, acontece em nossas vidas. Acho que todo bom conto tem que ter esse tipo de “ponto” com a realidade. Ou, ao menos, fazer com que o leitor crie este processo de identificação.
    -
    E isto aconteceu aqui.
    -
    Parabéns nêgo! \o

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Bora, Thiago!
      -
      hehehe… essa pegada deve ser culpa do Veríssimo. Li muito quando mais jovem. Ou algo relacionado a minha vontade de ser um cara simples, capaz de falar com todo mundo sem parecer ‘as pregas de Odete’.
      -
      Sei lá…. Olha aí, já comentei mais hoje e ontem no ONE do que nos últimos dois meses..
      -
      uaehueahaeuheauhaeuea

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        Também me identifico muito com o Veríssimo, embora não ache que tenha a capacidade singular dele de transformar o cotidiano em algo extremamente interessante e bem humorado. Você consegue isso.
        -
        Eu tou muito ausente daqui, credo! ):

  • Alex Nunes says:

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    Cara, gostei do texto. Achei a ideia bem interessante e promissora. Também gostei do bom humor dele e do ritmo de certas partes. Mas, senti que a ideia não foi tão bem desenvolvida assim. Talvez você devesse ter pensado em outras situações em que o fato de ele mentir para as mulheres seria engraçado e inusitado.
    Além disso, uma coisa que não me agradou no texto foi o uso de palavrão. A linguagem estava tão bem estabelecida, o estilo do narrador estava claro – o de ser engraçado, cínico e irônico – que, na minha opinião, um palavrão (…”a porra toda”) era totalmente desnecessário. Veja bem, não sou da patrulha do politicamente correto; há textos em que palavrões e linguagens xulas se encaixam muito bem; são um reforço e tanto se usados com bom senso. Mas no seu texto, quando eu esbarrei no palavrão, foi como se o narrador deixasse de ser alguém inteligente e perspicaz para ser um adolescente que quer impressionar xingando.
    Por favor, não leve esse meu comentário a mal, nem se aborreça comigo. Acredite, se eu não tivesse gostado do seu texto, eu não teria escrito uma linha sequer para falar dele. Só fiz essa ressalva, pois achei que era importante.

    Abraços, e continue escrevendo.

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      Que nada, Alex. boto alguns textos aqui no ONE justamente por isso. é muito importante para mim receber esse tipo de retorno dos leitores. São críticas deste tipo que me fazem evoluir como escritor. Antes de mais nada, obrigado pelo tempo gasto escrevendo essa parada.
      -
      Decidi deixar este texto curto, algo mais rápido. por isso não abordei outras situações. não sei se uma lista de situações escrotas ficaria legal
      -
      quanto ao uso de palavrões… é uma característica minha. seja no dia a dia ou em meus textos, palavrões surgem espontaneamente. e geralmente não tornão o diálogo pesado ou inescrupuloso. entendo que algumas pessoas, como vc, não achem isso normal. mas é uma caracteristica minha.
      -
      se quiser ver um texto no qual o uso de palavr?es fica bem mais natural, saca “eu e contos de fadas” aqui no ONE

  • Ana Bourg says:

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    Gostei do clima surreal – o cara travando para falar a verdade e tal. Ele também devia ser daqueles que diz que não bate…?

    “Mas um mentiroso falar que está mentindo, é um paradoxo foda.” E se ele mentir falando a verdade? xD

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      hehee… oi, Ana.. tempão que não te via por aqui.
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      tb gosto do clima desse texto. mas desde que postei aqui percebi que tem muitas coisas a serem alteradas.
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      pow… nem tinha pensado nisso. acho que dá pra entrar na próxima versão desse texto.
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      abraços, ana

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    Hehe.. o Gio é bom de lábia. :)

  • Andre Alves says:

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    Gostei do texto, só que até ali pela metade eu tinha certeza que Gio tava passando a perna na mina… Fiquei só um pouquinho decepcionado! xD

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