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Oct
06
2011

O Garoto que Assombrava Casas

Escritor: Ramon Bacelar

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Com o súbito estremecimento das vigas (ou seria arrepio?) e os gemidos agonizantes do soalho, não restava mais dúvidas: não era a casa que era assombrada, “ele” a assombrava. Não se sabia o que era pior : os berros do garoto ou a “retribuição” do madeirame de segunda categoria em forma de gemidos e agonizações. Neste jogo de espelhos e retribuições , vovó Carmina andava…andava… Não se sabia a causa da estranha moléstia do garoto, apenas… berrava… berrava…e a casa gemia…gemia…Garoto e casa pareciam se fundir e metamorfosear-se numa estridência agonizante: a soma de todos os medos, anseios e frustrações dos reinos animal, vegetal e mineral. Como alguém em sã (?) consciência poderia suportar por tanto tempo tamanho tormento? Já não bastava carregar por 85 anos o peso de uma existência de terceira categoria ? Sofrida e tormentosa. Vovó, que durante doze anos nunca assimilou com real clareza as causas da misteriosa doença do seu neto, agora fazia coro com os gemidos das vigas e do garoto, arrastando inquietantemente suas pesadas tamancolas no opaco linóleo de baixa qualidade: chegou a hora do “recurso final”.
No espelho atrás da imagem, delineava-se em suas rugas, sulcos e pés de galinha, o mapa de sua tortuosa existência. Seus joelhos ásperos, em súbito contato com o frio soalho, lhe focou para seu real objetivo: ajoelhou-se e começou a orar. A imagem, com seu olhar sereno e pureza angelical, ouvia… ouvia… e vovó pedia… pedia… o garoto berrava…berrava… e a casa tremia… tremia…
De súbito a estridência conjunta da casa e do garoto intensificaram-se e quanto mais vovó rezava mais a intensidade aumentava, e a imagem… tremia…tremia… e vovó pedia… pedia, o garoto berrava… berrava… e a casa…BLAAAAMMMM, a imagem se estilhaçou em mil pedaços: era feita de gesso de quinta categoria.

FIM

Ramon Bacelar é contista, crítico e ensaísta. Mantém um blog sobre cinema, quadrinhos, literatura e cultura underground (Maquinário da Noite: www.maquinariodanoite.blogspot.com) e publica contos no Recanto das Letras: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/ramonbacelar e em seu site pessoal Miragens Ofuscantes: http://www.miragensofuscantes.blogspot.com


Written by Ramon Bacelar in: Contos,Ramon Bacelar | Tags: , ,

17 Comments»

  • Asami says:

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    Boa Ramon! Adorei a narrativa leve e o enredo ficou muito legal… curti bastante teu conto ;)

  • Ramon Bacelar says:

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    Agradeço as palavras generosas Asami. Abraço!

  • HIOTO says:

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    Odeio essa sensação.
    .
    Você um texto muito bem trabalhado, com ótimas figuras de linguagem e do nada, ele acaba. Sem explicação, sem nós desatados e ganchos removidos.
    .
    Tenho 999 perguntas sobre a história, mas só vou externar uma: Porque nos fazer entrar no universo da velhinha e seu neto perdido, sem nos mostrar a totalidade da realidade?
    .
    Gostei do texto e entendo que ele foi feito para passar uma sensação singular, que infelimente me deixa bravo. Quero saber mais. xD

  • Ramon Bacelar says:

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    Boa noite!

    Em O Garoto que assombrava casas o foco não é na vovó, nem no garoto (apesar do título sugerir), eles são usados como corolários para o suporte da idéia central: o que é de baixa categoria (seja a existência ou uma mera imagem de gesso)cede e desintegra.

    Um abraço

  • Franz Lima says:

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    Apesar da explicação, Ramon, sou obrigado a concordar com o Hioto. O desenvolvimento ficou interessante, só que não ganha o devido brilho devido ao final abrupto. Os bons textos tem uma coesão, uma coerência, melhor dizendo, onde os pontos “escuros” do texto são desvendados ou, no mínimo, levados a uma compreensão parcial.
    Claro, isso não impede que uma nova versão, dentro da minha simplória opinião, não o torne ainda mais completo e interessante.

    • Ramon Bacelar says:

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      Franz,

      Sua observação me faiscou uma possibilidade de expansão do miniconto. Abs!

      • Franz Lima says:

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        Espero realmente que o expanda, aprimore-o. Sua escrita é promissora…
        Waiting for

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    O Hioto e o Franz disseram tudo.
    Está bom, mas podia ficar bem melhor. Uma coisa é fazer o leitor pensar sobre um ponto escuro da história.
    Outra é acabar ela do nada

  • Phillip Wrangler says:

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    Um conto muito bom, que desenrola legal, mas tenho a tendência de odiar contos que acabam assim do nada =/
    Em minha opinião Ramon, é o conto mais fraquinho seu aki…

  • Tammy says:

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    Enredo inteligente.
    Gosto do fim inesperado, mas como foi dito anteriormente o conto poderia ter rendido bem mais.

  • Bruno Vox says:

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    Como os amigos disseram, o final poderia ganhar mais uma encorpada, o que não tirou o brilho do resto que está muito bem escrito :)

  • Realidade says:

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    Cara , Texto Otimo Muito Bom o Português usado. mais quem nao entendi muito o que significa , ou nao entendi muito bem esse português como fica pra ler esse texto ???

  • Andre Alves says:

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    Gostei muito do texto, mas vou ter q concordar com o pessoal aí de cima. Eu já fico com um pé atrás em relação a contos muito pequenos, já sabendo que vai faltar alguma coisa…
    Mesmo assim, foi muito bem escrito e de leitura rápida!

  • Vitor Vitali says:

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    Achei poético de mais, mas não consegui desgostar. Algo me agradou, mas infelizmente não sei dizer o que.

  • hreter says:

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    Um bom texto. Diferente do pessoal acima, não creio que seja necessaria uma ampliação. Pude compreender tudo o que havia por ser compreendido com as poucas palavras bem utilizadas por você

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    Olá Hreter,

    Na verdade este mini foi concebido originalmente como um texto longo, porém foi escrito desta maneira para um concurso de mini contos. Ainda que eu reconheça seu potencial para uma expansão, estou moderadamente satisfeito com o resultadao, talvez por eu ser um fanático por mini contos (:

  • Iracroft says:

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    Olá… “achei” o blog de vcs hoje pelo google, adorei! Parabens pela ótima narrativa e apresentação dos contos!

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