O Grande Espetáculo
Escritor: Matheus Ferreira
Percebeu que caminhava em uma floresta. As árvores tinham suas copas distantes do solo e as folhas dançavam ao ritmo do vento, hora permitindo que a luz passasse hora lhe bloqueando o caminho. As mesmas folhas indicavam que o outono já havia começado. Apenas uma ou outra folha caída no chão, mas um mosaico de tons variando do verde vivo ao marrom alaranjado projetava-se da imensidão de galhos.
Ao seu lado, caminhava um cão. Um mestiço com três palmos de altura, malhado e de olhos claros. Não só o cão pastor da família, mas o melhor amigo e companheiro da infância. Ambos compartilhavam o espírito explorador e aventureiro que apertava o coração de todas as mães. No entanto, o animal já fazia parte das lembranças de um tempo que há muito havia passado. Não sabia como era possível que o cão estivesse ali com ele como nos velhos tempos, mas não se importava nem um pouco com tal impossibilidade.
Aos poucos se viu atraído por algo que pairava no ar. Parecia ser um perfume, algo como um doce aroma. Vagueou sem rumo à procura da origem daquilo. Frustrou-se por não ter sucesso na tarefa até que um sopro de vento o atingiu e trouxe-lhe o perfume com muito mais intensidade. Seu cão também percebera e ambos caminharam na direção que julgaram ser a correta. Percorreram durante alguns minutos um caminho cheio de raízes, moitas e arbustos até avistarem uma árvore. Era diferente das demais ao seu redor. Tinha o caule largo e raízes fortes. Nenhuma de suas folhas parecia ter sido tocada pela nova estação e ostentavam um brilhante verde esmeralda. Parecia mais viva do que qualquer outra árvore que vira antes. Era ela a fonte. Percebeu que não era um perfume, assemelhava-se muito mais a uma presença. Uma presença pacífica e extremamente agradável. Seu cão se aproximou farejando, inspecionando o ambiente até escolher um lugar entre as raízes e se deitar tranquilamente.
Sentiu-se tomado por uma alegria simples e espontânea enquanto admirava a bela árvore. Viu que um dos galhos era grande o bastante para aguentar seu peso e decidiu escalar a árvore até ele como fazia na velha infância. Apoiou as costas no tronco e sentou-se esticando as pernas. Só então percebeu que a árvore ficava em uma discreta colina com uma vista para a imensidão viva da floresta. Há uma dezena de metros, um riacho rasgava veloz o chão. Enquanto se perguntava para onde a água se dirigia, fechou os olhos tentando lembrar uma música que poderia se encaixar em um momento como aquele.
Enquanto cantarolava baixinho, a estranha sensação que a árvore lhe despertara se intensificou repentinamente. Abriu os olhos e se assustou ao ver uma mulher o encarando com as mãos às costas e um sorriso curioso no rosto. Perdeu o equilíbrio com a presença inesperada e foi de encontro ao solo, não caindo em cima do emaranhado de raízes por pura sorte. Ainda no chão, levantou a cabeça e viu a mulher sentada, com um tímido sorriso de divertimento no rosto e os pés descalços, ao lado do cão. Ela era bonita, esguia e um pouco mais alta que a maioria das mulheres que ele se lembrava. Dona de um intenso olhar cor de avelã. Um vestido de um estranho tecido verde deixava-lhe os braços nus, mas cobria-lhe até perto dos joelhos. Seu cabelo era ondulado caindo displicentemente até os ombros e de um tom castanho levemente avermelhado como o tronco da árvore. Ela ficou de pé, assumindo a mesma postura de momentos antes ainda em cima da árvore e começou a caminhar na direção dele. A cada passo dela, ele sentia a estranha sensação de paz e tranquilidade aumentando. Mesmo assim, ficou imóvel até que ela se ajoelhou ao seu lado. Afastou as mechas do cabelo do rosto e colocou uma das mãos sobre o peito dele sem que o sorriso se desfizesse de seu rosto em momento algum.
- Vamos, Cícerus! Levante-se!
Foi a boca dela que se mexeu, mas havia algo de errado com a voz. Não era a que se esperava que pudesse ser entoada por uma mulher. Era grave e o tom não fora nada simpático. Na verdade, parecia um homem dando uma ordem.
- Anda logo, seu borra-botas! – desta vez ela o sacudiu com muita força e sem nenhuma delicadeza. – Você dorme mais que uma velhota!
A mulher ainda sorria quando ele sentiu um líquido gelado lhe molhar o rosto. Abriu os olhos ao mesmo tempo em que a cama era chutada por um pé enorme. Viu-se sobre um colchão e um travesseiro, ambos de palha, em um quarto escuro com uma janela cheia de frestas por onde o vento frio da manhã entrava e fazia a precária cortina balançar.
- Pelos deuses! O prédio todo poderia ruir e mesmo assim você não acordaria. Aposto cem moedas nisso. – um homem extremamente alto e careca estava parado à porta do quarto balançando a cabeça em uma desaprovação vexatória. Sua pele branca era coberta por figuras com um padrão próprio.
- Maldito seja, Bent! Malditos sejam você e as manhãs! – resmungou Cícerus enquanto se sentava na cama, ainda meio tonto pelo despertar repentino. – Você tem um modo muito cortês de despertar as pessoas.
- Desculpe-me se a desagradei, senhorita. – zombou Bent. – Lembre-me de trazer essência de baunilha e massagear seus pés enquanto você desperta do seu sono de embelezamento da próxima vez.
- Cale a boca. – replicou Cícerus enquanto fazia um gesto obsceno. Olhou para o teto do quarto, querendo poder olhar para o céu. – Nem imagina o quanto é frustrante ter o sono e um sonho interrompidos por você, seu asno atroz.
- Sonho? – da barba farta do enorme homem, uma boca abriu-se em gargalhadas estrondosas que encheram o aposento. – Deixe-me adivinhar: você era uma donzela em apuros em um castelo ameaçado por um dragão e foi salva por um cavaleiro em armadura reluzente e seu corcel de batalha. A emoção foi tamanha que você resolveu agradecer seu salvador com o corpo e eu acordei você na melhor parte do sonho! Acertei? – gargalhou mais alto enquanto desviava o rosto de uma caneca de barro que estivera ao lado da cama de Cícerus e que agora se resumia a um monte de cacos no chão. – Não me culpe se o príncipe não era tão bom! – gargalhou mais um pouco. – Vamos, levante-se. Lorde Fengar quer conversar conosco durante o desjejum. Não me faça comer bacon frio.
Depois que as gargalhadas do amigo se perderam pelo corredor, Cícerus deitou de novo na cama e fechou os olhos. Ficara tonto com a rapidez com que levantara para atirar a caneca em Bent. A instabilidade desceu até o estômago e teve que respirar fundo por um momento para não rever o jantar. Sentou-se na cama, pegou uma garrafa escura do chão e a observou cuidadosamente enquanto relia o ano da safra do vinho. Já bebi melhores, pensou.
***
De cima do prédio mais alto, um homem observava as ruas da cidade ganharem vida conforme o dia ia amanhecendo. Estava sentado com as pernas balançando no vazio e ao seu lado havia uma garrafa da água-ardente mais barata a um dedo de ser terminada. O cabelo escuro e longo, molhado e grudado à cabeça. No rosto, um pó branco cortado por linhas negras que partiam dos olhos e boca borrados da mesma cor obscura. Os olhos cansados, que não condiziam com a idade, agora se ocupavam com os truques que as mãos faziam quase que involuntariamente com a única moeda que restara da noite anterior.
Quando se cansou, voltou a olhar para a rua logo a baixo. Tentava imaginar que vida teriam as pessoas que ali passavam. Quando viu um cavaleiro passar trotando, perguntou-se se seria realmente glorioso viver servindo a justiça, ajudando os necessitados e salvando o dia. Como seria viver com um propósito. Descartou a ideia com um gesto.
Notou uma família no começo da rua. Mãe de mãos dadas com filho e pai carregando a filha nos ombros. Pareciam particularmente felizes ou eram apenas ótimos atores mascarando a ruína com sorrisos de vidro. Saberia diferenciar se pudesse olhá-los nos olhos, mas estava longe demais. Uma nova espiada na multidão e encontrou uma mulher. Não sabia distinguir se era realmente bonita ou se a bebida e a distância o enganava. Mesmo assim demonstrou-se extremamente atento na tarefa de observá-la. Por fim, a mulher sumiu na primeira esquina. Ele, então, pegou a garrafa e deu o último gole não sem antes oferecê-lo a ela.
Levantou-se e ficou de pé na beirada no prédio, mesmo que o mundo insistisse em continuar girando. Escolheu três pedras de tamanho médio e se posicionou de lado para a rua. Mesmo embriagado, as habilidades de malabarista ainda eram admiráveis. A agilidade com que lançava uma pedra ao alto enquanto aparava as outras duas com as mãos era notável. Quando encontrou seu ritmo, começou a se deslocar perigosamente pela borda da construção. Andava até certo ponto e fazia um movimento mais elaborado para então fazer o caminho de volta. Definitivamente tinha talento e sabia disso.
Anos antes, fora escolhido pelo malabarista de uma trupe para um desafio durante uma apresentação. O desafiante mostrou-se encantado com as habilidades do garoto e o convidou para se juntar a ele. As aspirações da juventude inconsequente falaram mais alto. Nunca mais voltou pra casa, afinal a estrada era agora seu lar. Com o tempo, aperfeiçoou sua arte e aprendeu meios de entreter plateias e fazê-las rir. Chamaram-no muitas vezes de palhaço e de bobo, mas preferia a alcunha de arlequim. Não ostentava cores brilhantes e chamativas no rosto e nas roupas. Diziam que por trás da alegria e humor de todo bobo, havia uma profunda mágoa escondida. De certo forma se sentia exatamente assim, mesmo que às vezes se perguntava se realmente existia uma real tristeza oculta em si. Sempre guardou para si o motivo. Preferiu, então, a simplicidade do preto e do branco. Por fim, passaram a chamá-lo Arlequim Preto e Branco.
Não parecia se importar com a possibilidade de cair. Na verdade, tentava movimentos cada vez mais ousados e imprudentes. A bebida fez o chão girar com o pé de apoio o salvando no último instante, mas o passo seguinte foi em falso e se entregou a queda eminente. Antes, pareceu parar no ar para jogar as três pedras para cima em um ato final. Caiu rápido e em silêncio, ninguém parecia ter notado. Pensou que iria aterrissar pesadamente no chão. No entanto caiu em cima de algo macio. O “crack” característico de algo que se quebrava foi ouvido, mas ele não sentiu dor nenhuma que fosse correspondente. Viu uma nuvem branca subir e, enfim, percebeu que caíra sobre sacos de farinha que estavam em cima de abóboras, ambos sendo carregados em uma carroça.
- Céus, o que é preciso fazer para morrer? – praguejou baixo.
- Ei! Saia daí! – reclamou o homem que conduzia a carroça. – Você vai pagar pela abóbora que estragou.
- Perdoe-me senhor! – disse enquanto descia da carroça e vasculhava os bolsos. – Aqui, isso é tudo que tenho. – e entregou a moeda que antes usara para se distrair.
O carroceiro não teve a melhor das reações quando viu o valor da moeda, mas não havia mais nada a fazer e seguiu em frente. O Arlequim percebeu que as costas e o tornozelo doíam. Viu também uma garotinha olhando-o com curiosidade. Ele não demorou a fazer um gesto como se estivesse encerrando mais uma noite de espetáculo. A garotinha, então, soltou a respiração em um sorriso e aplausos. Ele simplesmente acenou e partiu mancando discretamente rumo à estalagem.
***
Lorde Fengar não era propriamente um lorde. O título presente no nome servia apenas para conferir um ar de grandeza. Titulis Fengar era a personificação da palavra “baixo”. Na faixa dos quarenta anos e com não mais do que a altura mínima necessária para não ser considerado um anão. No entanto, o carisma lhe fora concedido com toda a generosidade que lhe faltava em altura. O pequeno homem era o idealizador, gerente e dono do que um dia fora uma companhia de entretenimento conhecida como O Grande Espetáculo. A época de glórias já não era mais o presente e tudo o que sobrara eram os três homens sentados à mesa junto a ele na humilde estalagem.
- Vern, seu rola bosta! – protestou Bent – Se demorasse mais meio minuto teríamos perdido o café da manhã.
- Ora, cale-se. Desde que entrei por aquela porta é a única coisa que essa sua boca imunda consegue repetir. – respondeu o homem de rosto ainda pintado – Vê, aqui tem bacon suficiente para alimentar a cidade inteira por uma semana. – disse levantando o prato da iguaria do centro da mesa e voltando a se concentrar em sua caneca de chá.
- Como podemos pagar por tanta comida? – perguntou o homem escondido em um capuz e de frente a uma grande caneca de hidromel – Lembro-me de você ter dito que era época de vacas magras, Titulis.
Lorde Fengar olhava desatento para cada um dos homens antes de ser questionado. O gigante Bengt, O Homem Mais Forte e suas estranhas figuras por todo corpo. Vern, O Arlequim Preto e Branco e suas mágoas ocultas. E Cícerus, O Lâmina e seu alcoolismo.
- Acredite meu bom Cícerus. – começou a responder – O ouro pode ser farto se não precisar gastá-lo em vinho e cerveja. – levantou a caneca de chá em saudação ao amigo, mas Cícerus apenas deu outro gole em sua bebida como resposta.
- Uma noite sem dormir e uma garrafa inteira de água-ardente, cá estou ainda vivo. Deveria se envergonhar da sua fragilidade ao álcool. – cutucou Vern.
- Água-ardente vagabunda não faz mal a ninguém, principalmente quando a garrafa é bebida durante uma noite inteira. – respondeu Cícerus antes de sentir uma pontada da dor na cabeça – Você é apenas um amador.
- Bem… – Bent mastigou – três garrafas de vinho… – engoliu – e já começa o dia com hidromel… – mordeu – ainda bem que você não usa mais voluntários em suas apresentações… – mastigou – eu é que não queria servir de alvo para suas facas. – engoliu.
- Tudo que ouço são grunhidos em meio à barulhenta mastigação da sua boca. – desdenhou Cícerus – Se eu bebo, eu apago. Se eu apago eu sonho. E com hidromel isso sempre dura mais tempo. – bebeu mais um grande gole.
Ao escutar a palavra sonho, Bent gargalhou alto e pedaços de bacon, pão e queijo choveram na mesa. Vern apenas sorriu por trás do pedaço de pão doce que examinava. Lorde Fengar sorriu animado e aproveitou a deixa.
- Caros amigos, é com muito pesar que interrompo essa saudável demonstração de amizade matinal. – endireitou-se no suporte da cadeira que o fazia ficar mais alto – Mas acredito que precisamos partir. O Grande Espetáculo precisa continuar levando alegria ao nosso sofrido povo e existe uma pequena cidade, quase não mais que uma vila, a algumas horas de viagem daqui. – ia descendo da cadeira enquanto falava – Receio que não poderei acompanhá-los de imediato, mas se partirem depois do almoço estarão lá no meio tarde. Negócios inadiáveis ainda me aguardam. Enquanto me esperarem, tratem de entreter nossa plateia, mas guardem o melhor para as verdadeiras apresentações. – já estava a meio caminho da porta.
- Como ela se chama? – a voz escondida no capuz foi ouvida.
- O quê? Ela quem? – indagou Lorde Fengar em resposta. Até Bent parou de comer e o olhava com expressão de quem espera uma resposta de uma pessoa que se faz de desentendida – Não importa. – respondeu se virando e colocando a cartola na cabeça – Ela disse com doces palavras. – soltou no ar enquanto se dirigia para a rua na companhia de sua bengala, mesmo que não precisasse dela.
- Elas sempre dizem seu pequeno velho tolo. – murmurou Cícerus em meio a um gole – Elas sempre dizem.
***
– Agora eu entendo toda a comida do café da manhã. – disse Vern limpando o suor da testa já não mais pintada.
Lorde Fengar dissera que a viagem duraria algumas horas, mas esquecera de dizer que o tempo esperado era para uma viagem feita a cavalo. E cavalos era o que eles não tinham. Não se abateram quando o tempo estimado foi atingido e a cidade e nem sinal dela apareceram, afinal estimativas como aquela mudam de informação para informação. Uma hora depois e tiveram de parar para encher os cantis, menos Cícerus que não queria desperdiçar sua sede com água. Caminhavam a passos largos, cada um tentando seguir o passo dos outros ao mesmo tempo em que tentavam imprimir seu próprio ritmo quando achava necessário. Uma nova hora e muitas súplicas de Bent foram necessárias para que fizessem uma nova parada desta vez para comer pão murcho e queijo duro. Já praguejavam Lorde Fengar há mais de meia hora e só não decidiram voltar pelo tempo que o retorno duraria, quando então perceberam que estavam perto do destino.
Não viram a cidade propriamente dita. No entanto uma alta coluna de fumaça se estendia e se perdia no céu por trás de um morro. Era grande como só milhares de fogueiras poderiam originar, mas só uma cidade ardendo poderia rivalizar com tal feito. A tarde já tinha avançado, o sol se dirigia para a borda do mundo e do topo do murro eles visualizaram uma grande mancha escura na paisagem.
Dizer que era uma cidade era conferir grandeza demais aquele lugar. As dimensões eram de uma vila de porte médio. Nem toda ela ardia em chamas, na realidade uma grande parte se resumia a fuligem e madeira queimada. No entanto, uma pequena área circular no centro ainda estava intacta.
- Bom, se não há cidade, não há razão para estarmos aqui. – disse Cícerus enquanto dava meia volta – Quem concorda em fazermos o caminho de volta?
O dia escurecia com uma velocidade anormal.
- Estrada durante a noite? – certificou-se Vern.
- Eu não tenho medo de escuro e é lua cheia – afirmou Cícerus – O que me diz? – virou-se para Bent – Tudo o que temos é pão e queijo, mas hoje e dia de ensopado de carneiro na estalagem.
- Eu não sei. – respondeu O Homem Mias Forte – Não devíamos ir até lá e ver se alguém precisa de ajuda?
- O centro ainda não pegou fogo. Pode ser que alguém esteja lá. – era o arlequim.
- Não somos heróis. – resmungou A Lâmina.
- Mas podemos ser. – respondeu Bent com um ar de contentamento.
- Uma olhada rápida e partimos. – concordaram.
Desceram o morro cautelosos e adentraram os escombros. Já não havia mais fogo, mas o lugar ainda era mais quente que a paisagem em volta. Alguns metros e avistaram uma placa chamuscada indicando que ali era onde uma vez se abrigara a estalagem do lugar. Não havia corpos em lugar algum, nem de pessoas e nem de animais. Um pouco mais a frente e uma bigorna no chão no meio do vão entre o esqueleto das construções advertia que nas imediações tinha existido uma ferraria. No mais, tudo se resumia a uma pilha de material carbonizado com exceção do centro da vila, uma espécie de réplica de uma capela.
Estavam a umas dezenas de passos do único lugar intacto na vila quando viram que uma das construções ainda estava em um estado de conservação levemente superior às demais. Havia até mesmo uma espécie de sacada ainda se sustentando. E de cima dela uma figura humana observava em direção à capela em meio às longas vestimentas azuis escuras. Foi então que decidiram parar.
- Ei, você aí! – chamou Bent enquanto acenava com uma das mãos. A figura virou-se revelando ser um homem esguio, de cabelos prateados e de olhar espantado por vê-los ali – Está tudo bem com você? Você morava aqui? Pode nos dizer o que aconteceu e se há mais alguém vivo?
- Ora, Ora! – disse o homem não mais espantado e com um sorriso de divertimento no rosto – Veja aqui, temos mais três passarinhos. Mas esses não podem entrar na gaiola. Não, não.
Por um instante o homem concentrou-se em estranhos movimentos com as mãos e palavras desconhecidas, como se recitasse uma prece. O sol já estava baixo no horizonte, mas as construções ainda emitiam sombras pelo chão da vila. Sombras não mais do que penumbra se esparravam pelo chão. E elas começaram a se mover. Vern foi o primeiro a perceber e ia alertar os companheiros quando a capela começou a emitir luz própria que ia se intensificando aos poucos.
- Sou o único que acha que devemos chegar até aquela maldita luz estranha? – era Cícerus.
Correram, mas não eram os únicos a fazê-lo. Da retaguarda e dos flancos corriam figuras negras. Nada do que já haviam testemunhado se comparava com aquilo que viam. Vern olhou para trás e viu uma criatura de quatro patas totalmente negra cobrindo o dobro de chão que eles conseguiam. Procurou, mas ao invés de uma cabeça viu a luz da lua revelar três máscaras douradas sorridentes ligadas ao pescoço e olhando em direções diferentes. Atreveu-se a olhar para o lado e viu uma criatura semelhante, mas que se assemelhava mais a uma pessoa e não se decidia se trotava ou andava. Vern então se ateve a correr em direção à capela, mas antes viu as expressões de espanto no rosto de seus companheiros e se perguntava se face teria os mesmos traços assustados.
Estavam próximos, há não mais que vinte passos quando uma das criaturas quadrupedes saltou sobre Cícerus derrubando. Bent teve que gritar para que Vern parasse. O gigante vasculhou o chão até encontrar um pedaço de madeira menos carbonizado, mas se viu ocupado em se defender de um bípede. Vern estava agachado vasculhando a mochila em busca de seus aros de malabarismo quando ouviu o som de metal caindo. Cícerus se levantava limpando o sangue da boca e espalhando as máscaras caídas aos seus pés com um chute. Brandia duas de suas facas de arremesso, uma em cada mão.
- Os desgraçados são apenas pó. – gritou aos companheiros.
Bent já tinha amassado uma dúzia de máscaras, mas Vern ainda se via ocupado com o primeiro de sues oponentes. Cícerus se juntava a ele quando de dentro da capela saiu um homem trajado em longas vestes cor de palha. Não olhou para os três em apuros, apenas se ajoelhou com as mãos entrelaçadas e começou a orar.
Vern, Bent e Cícerus formaram um círculo com todos de costas para o centro. O Arlequim repelia as criaturas como podia. O Homem Mais forte cria nuvens de pó escuro ao golpeá-las. O Lâmina arremessava com extrema precisão as facas menores que carregava em um cinturão na cintura enquanto usava suas lâminas maiores para golpear qualquer coisa que estivesse ao seu alcance.
Do alto da sacada, o estranho homem de vestes azuis mexia os braços como se regesse um espetáculo e com um gesto mais agressivo demonstrou que o que via não era o bastante. No exato espaço entre os três companheiros e a capela, surgiram sombras maiores que foram se transformando em nas mesmas criaturas de sombra. No entanto, esses novos seres tinham escudos e armas semelhantes a espadas do mesmo tom dourado das três máscaras sorridentes.
O Lâmina, O Homem Mais Forte e O Arlequim estavam visivelmente cansados e cobertos de pó escuro. Seus ânimos não esperavam por algo como a nova ameaça que estava diante deles.
- Pelos deuses clérigo! – gritou Cícerus – Nada aconteceu desde que você começou essa maldita oração! Mexa-se! Faça alguma coisa!
O clérigo pareceu não escutar e continuar sua oração. O homem de vestes escuras, não só trouxera as criaturas com armas como também continuava a conjurar mais e mais criaturas. Todas se concentravam em fechar o círculo em volta de seus perseguidos. Foi quando então uma luz iluminou o espaço logo a frente da área intacta da capela e de imediato uma figura humana caiu sobre várias criaturas criando uma nova nuvem de pó escuro. Quando a nuvem se desfez, um humanoide flutuava a poucos centímetros do chão. Tinha um elmo prateado cobrindo toda a cabeça. O tronco estava nu, mas dois pares de asas se destacavam de suas costas. Usava vestes cinzas da cintura pra baixo e tinha os pés descalços. Os antebraços eram cobertos por faixas da mesma cor, assim como as mãos que seguravam o cabo de uma foice.
Em pouco tempo a figura divina criou uma nuvem negra conforme ia eliminando as criaturas de máscaras douradas. Por fim, sobrou apenas o homem de vestes escuras que a encarava com expressão de curiosidade. Virou-se com passos rápidos e se perdeu na escuridão do aposento de onde se projetava a sacada. Os três amigos se entregaram ao cansaço e Cícerus viu uma pequena figura se aproximar dele e estender-lhe a mão.
- Oi, meu nome é Guida. – disse a garotinha que estava escondida com o clérigo dentro da capela.
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