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Oct
26
2011
Conto em Série

O Sonho de Susana – Capítulo 4

Escritora: Priscilla Rubia

o-sonho-de-susana

Susana chegou em casa por volta da hora do almoço. Subiu as escadas para o apartamento correndo, pois estava escutando – em incríveis duas vezes nesse dia – o telefone tocar.

Quase não chegou a tempo de atender. Ofegante, levou o fone ao ouvido:

— Alô?

— Susana…

— Paulo, se você ficar me ligando no meu dia de folga vou ser obrigada a pedir demissão.

— Bruno chegou aqui. Com o nariz quebrado. Eu espero que você tenha uma boa desculpa para isso.

Susana ficou calada. Sabia que poderia ter problemas com Paulo, mas mesmo assim – e ela realmente esperou – o arrependimento não veio.

— Ele falou de Alan.

— Isso não justifica Susana, você tem que aprender a controlar isso. Eu sei que ele foi completamente idiota, mas não precisava quebrar o nariz do garoto, por Deus…

— Ele chorou muito?

— Eu estou falando sério Susana! Estou preocupado com você. Caso eu perceba que você não está OK vou ser obrigado a lhe afastar.

— Você não faria isso – Apesar de Susana não gostar muito do trabalho, ela se distraia com ele. Achava que se não tivesse nada para distraí-la durante o dia, ela ficaria realmente doida.

— Ah, eu faria sim. Por isso, trate de se comportar. Não quero você por aí quebrando narizes.

— Ok papai.

— Meu Deus, você não me leva a sério mesmo. Bruno vai ficar afastado alguns dias. Você em vez de me ajudar me fode completamente. Já estava sem pessoal e agora estou mais ainda. Você vai trabalhar no lugar do Bruno, entendeu?

— Como se ele fizesse grande coisa.

— Tá bom. Você pode ficar o resto do dia de folga, porque pra começar é seu dia de folga, mas amanhã quero você aqui bem cedo.

— Tá.

— Hmm, ok. Até amanhã.

— Até.

E desligou. Olhou para o apartamento sujo e pensou que seria um bom dia para limpá-lo, porém tinha certeza de que isso não aconteceria. Preparou-se para almoçar e depois dormir o resto da tarde, quando foi interrompida – agora sim um recorde – pelo telefone.

Pensando que seria Paulo querendo lhe importunar por algo que tinha esquecido, atendeu:

— Paulo, eu entendi…

— Susana, sou eu.

Ao ouvir a voz de Tiago depois de um bom tempo, ela sentiu as pernas bambas e precisou sentar.

— O que você quer?

Susana o escutou sorrir baixinho do outro lado:

— Você não precisa me tratar assim, sabe? Bem, Paulo me ligou e…

— Aquele filho da puta!

— Você não deve ficar com raiva dele. Ele gosta de você e ficou preocupado, só isso. Você está bem?

— Eu não preciso da sua ajuda.

— Susana, eu quero te ajudar. Nós ainda podemos ser amigos.

— Não, não podemos.

— Mas, por quê?

— Porque você me culpa. Você me culpa pela morte de nosso filho.

— Eu… – Tiago não conseguiu dizer nada além disso. E ela realmente o odiou por isso.

Sempre teve um relacionamento bom e tranqüilo com Tiago até a morte de Alan. Após a morte do filho único dos dois, Tiago passou a olhá-la diferente, passou a tocá-la diferente, com medo, com receio. Como se a morte de Alan tivesse sido sua culpa.

E não foi?

Aquele pensamento veio como uma voz maldosa a muito esquecida no seu interior e ela o ignorou.

Não agüentando mais viver daquela maneira, ela propôs a separação. Ele não gostou muito da idéia no princípio, mas acabou concordando.

Provavelmente achava que eu o mataria enquanto dormia.

— Você está sendo injusta.

— INJUSTA? Você me culpa pela morte de Alan e eu sou injusta.

— Eu nunca, nunca te culpei. Foi um acidente. Você não pôde evitá-lo. E, eu sofri tanto quanto você! Eu o amava tanto quanto você!

— Ok Tiago. Eu agradeço, mas não preciso da sua ajuda. Já conversei com alguém hoje e…

— Com Marcelo?

— Sim, com Marcelo. E não é da sua conta. Não mais.

— Não é isso que eu quero dizer e você sabe.

— Não, não sei. O que você quer dizer?

— Você realmente não percebeu que tipo de pessoa que ele é?

— Não Tiago. Me diga, que tipo de pessoa que ele é?

— Esquece.

— Não, fale.

— Você irá perceber, mais cedo ou mais tarde vai perceber…

— Pelo menos ele não me culpa…

— Ele nunca vai ser contra você Susana. E, pela última vez, eu não lhe culpo.

— Tá. Podemos terminar essa conversa sem sentido? Ainda não almocei.

— Você está bem mesmo?

— Estou Tiago, estou.

— Ok. Bom apetite. Eu t… – Tiago parou de repente e Susana sorriu. Ele iria dizer que a amava. Alguns costumes nunca mudam.

Ele deve ter outras mulheres, não é possível que não tenha outras mulheres.

Mas Susana na verdade sabia que não. Esse não era o tipo de pessoa que Tiago era. E por um breve momento ela se arrependeu de ter separado dele, de ter perdido o contato com ele.

— Tenho que ir Tiago.

— É. Tá. Até mais.

— Até.

Esperando realmente que o telefone não tocasse novamente, ela foi preparar algo para comer.

 

Ela comeu uma comida requentada na frente da TV. Odiava a programação daquela merda, mas pelo menos a distraia um pouco. Após comer, deixou-se ser levada pela preguiça e deitou na cama para um cochilo que acabou durando quatro horas inteiras e ainda duraria mais se não tivesse acordado suada e assustada.

Havia sonhado depois de muito tempo. Sonhado com Alan e com sua morte o que transformara o sonho em pesadelo. Em como poderia salvá-lo, em como poderia ter evitado sua morte.

Foi quando sentiu algo frio e molhado ao esticar a perna.

Assustada ela a recolheu com um gemido de nojo. Levantou um pouco a cabeça e toda a urina guardada durante o sono soltou-se em um jato quente.

Havia um garoto deitado ao pé da cama.

Estava encolhido, molhado, e parecia dormir.

Era um garoto com os cabelos negros e uma camisa branca.

Ela queria gritar e correr, mas tudo o que fez foi continuar olhando para o garoto.

Usava uma cueca de banho – coisa que não pôde reparar da última vez – e devia ter por volta de seis ou sete anos.

Foi quando a campainha tocou e ela gritou.

Olhou assustada para a porta e de volta para o pé da cama.

O garoto havia sumido.

Ela se encolheu em meio ao cheiro forte de urina e de medo.

Havia sonhado, somente isso. Tinha acabado de ter um pesadelo e acordara vendo coisas.

Quando então reparou no chão do quarto.

Estava molhado, marcado com pequenas pegadas.

Ela as seguiu e teve uma vontade súbita de vomitar ao constatar que elas se encaminhavam para o pé da cama.

6 Comments»

  • Debora Campos says:

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    Ela só pode estar vendo assombração!!!!
    Ohh curiosidade tenho que ler o restante da estória agora :) Parabens

  • Andre Alves says:

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    Olha o garoto de volta! E vc só faltou abrir uma aba com a parte 5 junto com esse final rsrsrs. Vou ver se eu leio ainda hoje!

  • @cyberlivingdead says:

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    Huuuumm, o que pensei se tratar inicialmente de uma história policial pelo visto tem mais coisa…mas afinal quem será que matou este garotinho que ela vê?! Prosseguindo na história.

    • Priscilla Rubia says:

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      Policial? lol Não esperava que o conto parecesse policial deudheuhde Bem, veremos se continua parecendo nos próximos capitulos xD

  • Franz Lima says:

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    Puta merda… I see dead people. O moloque está seguindo Susana e não tenho idéia do motivo, mas posso dizer que ficou phodástica essa parte. Boa, Priscilla.

  • Bruno Vox says:

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    Será que esse garotinho “existe”?

    Fodástico o enredo ;)

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Publicado por Priscilla Rubia

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