O Sonho de Susana – Capítulo 9
Escritora: Priscilla Rubia

— O quê?
— Você escutou Susana, o caixão está vazio.
— Mas… como? Por quê?
— Você não sabe mesmo o porquê Susana?
— Mas é claro que não! Eu nem sabia que todo o velório do meu filho foi uma farsa!
— Bem, acho que Tiago pode te responder melhor.
Susana calou-se. Pensar que Tiago faria algo do tipo com ela era amedrontador. Isso mostrava que ela não o conhecia.
O Tiago que eu conheço nunca, jamais faria algo do tipo.
Então…
— Marcelo, você está falando sério?
— Você acha mesmo que eu brincaria com uma coisa dessas?
— Bem, não, mas eu também acho que Tiago não seria capaz de esconder algo do tipo.
— Já que você não vai falar com ele e duvida de mim, por que não vamos juntos e tiramos a dúvida?
Susana não entendeu de princípio o que Marcelo queria dizer. Mas quando o fez, ficou boquiaberta:
— Você está sugerindo em ir até o cemitério, cavar o túmulo do meu filho e abrir o caixão??
— Que está vazio.
— E se não estiver?!
— Está Susana. Você sempre confiou em mim, quando se decepcionou?
— Mas Marcelo, não posso simplesmente chegar para o coveiro e dizer “Preciso cavar o túmulo do meu filho. Tenho a ligeira impressão de que me enganei e o caixão está vazio”. Fora que pra fazer esse tipo de coisa eu teria de ter algum tipo de documento…
— Ninguém precisa saber Susana.
— O… quê? Você está sugerindo arrombar o túmulo de Alan?
— Você vai acreditar em mim ou não?
— Mas é claro que não! Ninguém em sã consciência iria sugerir entrar na calada da noite em um cemitério para arrombar o túmulo do próprio filho.
— O que você sugere então?
— Olha Marcelo – Susana havia se levantado e colocava a bolsa no ombro – eu acho que você está exagerando. Quando estiver com a cabeça no lugar, me ligue e vemos o que podemos fazer ok?
Marcelo a olhou como se a julgasse, como se a culpasse. Ele demonstrava que ela iria se arrepender muito se não acreditasse nele. Por um pequeno momento, Susana teve medo de Marcelo.
Mas então a expressão passou e ele parecia simplesmente decepcionado.
— Ok. Desculpe se exagerei. Se precisar, pode me ligar.
— Está tudo bem. Eu tenho que ir.
Virou-se em direção ao carro não sabendo que seria a última vez que conversaria com Marcelo.
—
Susana foi ao escritório para entregar a sua entrevista para Paulo. Felizmente ele não estava então ela simplesmente deixou sobre sua mesa e foi embora.
Ao ouvir Marcelo falando sobre Alan, sobre o caixão vazio e sobre um Tiago mentiroso e manipulador, Susana realmente achou tudo aquilo um absurdo. Mas não imaginava o quanto a pequena revelação iria lhe incomodar durante o dia.
Por volta das cinco da tarde ela realmente estava levando em conta a idéia de Marcelo.
Meu Deus, você é louca.
Mas, se eu não puder ver, se não puder conferir, eu vou ficar louca de verdade.
Pegou o celular e discou o número de Marcelo. O celular tocou incansáveis vezes até cair. Aquilo era estranho. Marcelo sempre atendia.
Talvez ele não atenda porque você é uma idiota. Sempre apoiou você e então quando precisa acreditar nele, você dá com o pé pra trás.
Mas, por Deus, ele sugeriu que eu arrombasse o túmulo do meu filho!
E não é exatamente isso que você está pensando em fazer?
Tentou mais uma vez. Nada.
Bem, não tinha jeito. Teria de deixar pra outro dia, outra hora.
Não, eu não consigo.
Sério? Então o que vai fazer? Ir sozinha ao cemitério à noite com uma pá?
A idéia era absurda. Mas ao chegar ás sete da noite Susana não conseguia pensar em mais nada a não ser o pequeno caixão branco de Alan lacrado.
Pegou o carro e dirigiu até o cemitério.
—
Por sorte conseguiu encontrar uma floricultura aberta. Comprou umas flores que gostou, embora não tivesse a mínima idéia do nome.
Assustou-se ao perceber que seria a primeira vez que visitaria o túmulo de Alan.
Entrar no cemitério não foi nada difícil apesar do horário. O porteiro parecia estar acostumado com visitas noturnas repentinas.
No caminho para o túmulo não foi nada difícil encontrar uma pá.
Ao chegar ao túmulo e ler a pequena inscrição – Alan Mendes – Susana arrependeu-se de nunca ter vindo. Por mais bizarro que parecesse, ela se sentia mais próxima de Alan ali.
Colocou as flores de lado, pois realmente pretendia colocá-las no lugar depois, de uma forma ou outra.
Olhou para os lados a procura de alguém. Não havia ninguém. Susana pensou em uma desculpa caso a encontrassem cavando um túmulo. Como não conseguiu pensar em nada plausível simplesmente começou a cavar.
Não era nada fácil. A terra era dura, ressecada pelo sol. Susana chegou a imaginar que iria cavar durante a noite inteira.
Depois de uma hora de exercício ela pensou em uma coisa que a fez desanimar completamente.
Concreto. Eles costumavam colocar concreto por cima do caixão, não?
Sim, costumavam.
— Merda! – Susana nem percebeu que tinha xingado em voz alta. Estava suja, cansada e seus braços doíam. Por incrível que pareça, ninguém tinha aparecido.
Tinham colocado concreto no túmulo de Alan? Não lembrava.
Bem, já que estava ali, não podia ir embora sem ter certeza. Continuou a cavar até que bateu em algo muito sólido.
A merda do concreto.
Afastou a terra com a pá e viu algo branco, mas não era concreto, era o caixão. O pequeno caixão branco.
Apesar de sentir que os braços estavam pesados como pedra, cavou rapidamente em volta do caixão. Agachou-se e tentou abri-lo. Nada.
É lógico sua burra. A palavra “lacrado” te lembra alguma coisa?
Quebrar o caixão faria muito barulho, então ela colocou a pá rente a tampa do caixão e forçou para abrir. Nada aconteceu. Respirou fundou e percebeu que já não sentia muito bem os braços. Logo não agüentaria fazer mais nada. Tentou mais uma vez. O caixão estalou fazendo um barulho que foi bastante alto para Susana em meio a toda aquela calmaria. Assustada ela olhou para os lados, mas não foi incomodada. Perguntou-se quantas horas seriam, mas não iria olhar agora.
Tentou mais uma vez. O caixão estalou de novo, mas dessa vez ela não parou.
Com um baque surdo a tampa se quebrou e abriu. Susana com o impacto quase caiu por cima do caixão.
Parada ali, na cova de seu filho, completamente suja e cansada, ela contemplou o caixão vazio.
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Nossa! Por que o caixão está vazio e quem será o assassino?! Aparentemente tudo aponta para Tiago, mas será mesmo isso?