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Oct
26
2011

Party And Bullshit

Escritor: Guilherme Sakuma

1.

Madrugada de sábado pra domingo. Eu lia um livro quando ouvi pneus cantando na rua. Pus a cabeça pra fora da janela e vi  algum idiota tentando fazer o carro capotar numa curva. Mesmo depois que se afastou eu ainda pude ouvi-lo dando cavalos de pau. Fiquei torcendo pra escutar o barulho do carro capotando. Mas nada aconteceu.

Aproveitando que estava de pé, tirei um pouco de cocaína do saquinho e estendi uma pequena carreira. Usando a narina direita – a que estava menos em carne viva – aspirei de uma vez, sem nota de dinheiro enrolada nem canudinho. Teria que misturar mais um pouco de bicarbonato naquele troço. Mas tudo bem, porque aquelas crianças ricas não entendiam nada de nada e nem iam perceber a sacanagem.

O telefone tocou e eu fui atender.

“Julian falando.”

“Ju, sou eu.”

“Oi, Pat. Ouvi o seu recado na secretária eletrônica. Tava esperando você ligar.”

“Tudo bem?”

“Tudo. Que cê manda, garota?”

“Tô precisando de uma M e de uma F. Você tem?”

“Tenho. Quanto você quer?”

“Cento e cinquenta de cada.”

“Haha, onde é a festa?”

“Hihi, aqui em casa mesmo. Meus pais viajaram. Quer vir?”

“Hum… sei não. Acho que eu tô ficando velho demais pra essas coisas.”

“Ah, para de ser bobo. E eu também tô com preguiça de ir até aí.”

“Hum, sei.”

“Vem. Você pode beber e comer a vontade.”

“Uísque?”

“Tem!”

“Tequila?”

“Tem!”

“Saquê?”

“Uhum, também.”

“Cerveja?”

“Dã, lógico, né.”

“Caramba, garota…”

“Vem, por favor…”

“… tá bom, vai. Mas só vou ficar um pouco. Vou me trocar e já desço praí.”

“Isso! Tô te esperando.”

“Beijo.”

Me arrumei, peguei as paradinhas e desci. Patrícia morava a apenas alguns quarteirões do meu prédio, por isso nem precisei pegar o carro. Fazia um friozinho gostoso na rua, apesar de ser verão.

Em frente ao portão da casa dela pude ouvir o som de rap vindo lá de dentro. Toquei a campainha. A própria veio me recepcionar, de sutiã, gravata, saia de prega e chapeuzinho. Estava uma verdadeira delícia.

“Ooooiiiiii Ju!” Me cumprimentou com um selinho.

“Gostei da roupa. Cê tá bem gostosa.”

“Eu sei! Hihihihih. Trouxe?”

“Lógico, vamos lá pra dentro. Damas na frente.”

Fui caminhando atrás dela, de olho em sua saia que a todo instante parecia subir mais um pouquinho. Ela olhava para trás pra ver se eu estava olhando. Eu fazia que estava e não estava ao mesmo tempo; o velho jogo do esquenta/esfria que era só o que eu sabia fazer e que quase nunca dava em nada. Quando ela olhava pra trás, me dava a impressão de que havia algo de malicioso em sua expressão facial.

A festa estava cheia, cheia de molecada endinheirada. Alguns eu conhecia – os que já haviam comprado alguma paradinha comigo –, outros me cumprimentavam porque sabiam quem eu era. O som saia perfeito daquelas caixas de som com sei lá quantos megawatts de potência. O ambiente havia sido decorado com globos de luz no teto e holofotes de luzes coloridas giravam pra lá e pra cá. Pelo menos não estavam tocando os sucessos do rádio, tinha que se dar algum crédito praquela molecado por isso. Pegamos duas latinhas de cerveja importada e subimos para o quarto dela.

“Tem alguém aí?”, ela disse, batendo na porta.

Ninguém respondeu, nós entramos. Fiquei surpreso com o tamanho daquele quarto, que era praticamente do tamanho do meu pequeno apartamento, com quadros com várias personalidades pop pra lá e pra cá, esteira eletrônica, uma enorme televisão de plasma, saco de pancadas, tapetes, espelhos, armários e cama de aspectos caríssimos. Apontei pra um dos quadros e falei: “Nossa, Patrícia, nunca imaginei que você se ligasse nos filmes do Akira Kurosawa. Eu mesmo acho a maioria um saco imensamente grande.”

“Ku o quê?”

Claro, ela mal fazia idéia do que eu tava falando. Todo aquele quarto de princesinha do rock alternativo devia ter sido meticulosamente criado por algum decorador de imóveis de ascendência francesa formado em Harvard. Além do que ela só tinha dezessete anos. Mas já tava bem grandinha. Podia passar por uns vinte e dois sossegadamente.

Fomos até sua mesa de estudos e eu coloquei toda a mercadoria em cima. Com tudo aquilo dava pra fazer mais umas cinco festas daquela, no mínimo.

“Taí”, falei.

“Legal, da hora. Passa cartão?”

“Haha, gracinha.”

De dentro de uma caixinha em formato de coração ela tirou a grana e me entregou.

“Ei, eu não tenho troco pra isso”, falei.

“Não precisa não. Você teve todo o trabalho de vir até aqui e tal.”

“Então na próxima a gente desconta. Beleza?”

“Tá, pode ser. Não esquenta. Eu quero ir primeiro, antes do pessoal atacar…”

“Vai fundo.”

“Quer um pouco?”

“Não, eu tenho o meu próprio.”

Tirei o meu vidrinho de dentro do bolso do casaco e aspirei um pouco de cocaína com a narina boa. Patrícia estendeu duas longas carreiras pra si mesma e enrolou uma notinha de cinquenta. Até pensei em falar pra ela pegar leve, mas fiquei quieto, supondo que ela soubesse o que tava fazendo – porque realmente parecia saber. Se inclinou bastante sobre a mesa, mostrando tudo que aquilo que aquela sainha pouco se esforçava pra esconder, e mandou uma com cada narina, de uma vez, que nem uma profissional.

“Cara, Ju, essa é da boa mesmo. Nossa…”, disse, com os olhos lacrimejando instantaneamente.

“Claro, pra você, gata, só a coisa boa mesmo.”

Ela me deu uma piscada de olho. Respondi com uma levantada de sobrancelha, e nós dois rimos.

“Ei”, recomeçou, “depois, será que você não me arranja um vidrinho desses seus aí? Parecem ser bem práticos.”

“Sim, são ótimos. Te arrumo sim, tenho um monte desses lá em casa.”

“Agora vamos descer com isso que o pessoal já deve estar subindo pelas paredes.”

Mal ela sabia que quem tava subindo pelas paredes era eu; louco pra jogá-la em cima da cama, chamá-la de lagartixa e fazê-la de gato e sapato.

Na cozinha, com a ajuda de uns amigos despejou alguns dos saquinhos de farinha em cima de uma travessa. A maconha eles colocaram dentro de uma bomboniere. Todo mundo foi pra cozinha se servir.

Eu arrumei pra mim um pouco de bourbon puro e fui pra sala me sentar num dos sofás de nove mil reais. Ascendi um dos meus cigarros mentolados e fiquei sentindo-me como alguém importante.

 

 

            2.

A festa corria já há algum tempo e eu já estava um pouco bêbado. Tinha ficado o tempo todo sentado, apenas me levantando para pegar mais drinques ou bolinho de bacalhau. O som agora estava incrivelmente alto, tocando alguma bobagem do tipo que servia pra dançar. Os caras estavam ficando cada vez mais barulhentos e as garotas também, barulhentas e cada vez mais abusadas. Só que nenhuma delas vinha ficar abusada comigo. Achei que o problema fosse a minha cara: nunca conseguia demonstrar felicidade ou qualquer coisa do tipo – ou seja, mentir.

Patrícia, que já tinha se livrado do chapéu, gravata e saia, foi se sentar ao meu lado com um pires de xícara lotado de farofa.

“Quer um pouco?”, ofereceu.

“Claro. O que eu tinha já acabou faz tempo. A gente debita na sua próxima conta.”

“Ah, Ju, deixa disso, cara. Por que cê não relaxa? Porque não faz uma carinha melhor?”

Recusei a notinha enrolada que ela me passou e fui com o nariz mesmo. Daí respondi à pergunta que ela tinha feito:

“Porque não tem nada aqui que me faça ficar com uma carinha melhor.”

“Ah é?”, ela disse, com um certo brilho nos olhos.

Achei que fosse aprontar alguma. E estava certo. A próxima coisa que aconteceu foi que ela tava ajoelhada no meio das minhas pernas fazendo você sabe o quê. Na frente de todo mundo.

Assim, sem mais nem menos, ia se realizando um dos sonhos que eu tinha tido com ela desde a primeira vez que a tinha visto na porta do colégio em que eu mantinha alguns clientes. Talvez eu fosse um cara de sorte.

Um monte de molecada tinha parado pra acompanhar a coisa. Dois filmavam e eu guardei bem a cara dos dois. Algumas garotas davam risadinhas sem-vergonha e cochichavam entre si, mal acreditando na atitude da amiga, outras observavam à cena toda completamente atônitas, como se nunca tivessem visto ou feito nada parecido na vida. E Patrícia sabia como fazer daquilo um grande espetáculo: tinha um língua enorme e obscena, que adorava colocar pra fora. Olhava bem nos meus olhos enquanto trabalhava naquilo. Tinha um rostinho de anjo, olhos azuis e tudo. Talvez eu realmente fosse um cara de sorte.

“Me avisa quando você for gozar.”

Nem demorou muito, tive que avisar. Mas ela não pegou um guardanapo ou um copinho de plástico como eu imaginava, ao invés disso, veio com a boca, recebendo tudo e depois engolindo, que nem em alguns vídeos que ela devia ter visto na Internet – que a ensinaram passo a passo como ser a perfeita vadia suja século XXI. Eu só pude ficar bastante feliz por ela querer ser uma. Se soubesse sorrir, naquele momento estaria com um enorme no rosto, de orelha a orelha. Daí se levantou, me deu um selinho e foi em suas palavras: “tirar o gosto de pau na boca”. Provavelmente também tinha ouvido essa num filme.

Guardei o troço pra dentro e fui atrás de mais alguma bebida. Arrumei um pouco de tequila misturada com sei lá mais o que. Antes de voltar a sentar no meu trono, colei na mesa onde estavam sentados os caras que tinham filmado toda a cena.

“Galera, leva a mal não, mas eu gostaria que vocês apagassem essa bagaça.”

“Não, firmeza irmão, firmeza, já tô apagando, ó”, falou um deles – um loirinho que usava um boné de aba reta que valia pelo menos uns quatrocentos e cinquenta paus na praça.

“Firmeza”, falei, “valeu mesmo, man. Cê sabe com é, né?”

“Não, eu sei, eu sei, de boa.”

O outro garoto – um altão, cabeludo e com cara de quem precisava chamar muito a atenção dos outros – tinha se feito de desententido.

“Amigão”, recomecei, “será que dá pra você apagar o baratinho aí também?”

Continuou se fazendo de desentendido; nem se dignou a me dirigir o olhar.

Se tem uma coisa que eu nunca suportei foi ser ignorado. Usando as duas mãos puxei-o pelos cabelos e o fiz beijar o tampo da mesa. Duas vezes. Então tomei o celular de suas mãos e eu mesmo apaguei o vídeo. Devolvi e agradeci. Descia-lhe sangue pelo nariz e pela boca. Ele estava bastante desorientado e parecia ainda não ter se dado conta do que tinha acabado de acontecer. Peguei minha bebida e voltei pro meu trono. Duas garotas me olhavam muitíssimo espantadas.

Que eu podia fazer? Tinha uma fama a zelar.

Dali a pouco Patrícia reapareceu. Um pouco esbaforida, ainda só de calcinha e sutiã.

“Que aconteceu??”

“Teu amigo quis ver comigo quem tinha o pau maior.”

“Ju, porra! Ele é meu primo!”

“Ah, Pat, desculpa, eu não sabia.”

“Cara… você…”

“Olha, vai que depois o cara inventasse de colocar esse vídeo na Internet junto com o vídeo da festa… vocês bebendo e se drogando e eu aparecendo como o único maior de idade no meio disso tudo, e ainda por cima sendo chupado por uma garota de dezessete anos. Imaginou? Não ia ser bom.”

“Nossa, Ju, mas cê pegou pesado dessa vez…”

“Desculpa. Sinceramente”, falei, tentando soar o mais indiferente possível.

“E você não é o único maior de idade na festa.”

“Ah, legal.”

Patrícia me deixou e eu fiquei refletindo sobre o modo como tinha agido com aquele garoto. Acabei concluindo que tinha agido certo. Acendi mais um cigarro mentolado e fiquei me sentindo como um cafetão ou como um cara que simplesmente faz o que tem que ser feito.

 

 

3.

Eram quase seis horas da manhã quando eu achei que a coisa fosse ficar um pouco feia pro meu lado. Acho que eu tinha pegado no sono – ou o tempo que estava passando umas cinquenta e sete vezes mais rápido. Mais a segunda alternativa do que a primeira, porque, você sabe, não dá pra dormir com mais de três gramas de cocaína na cabeça. Mas isso não importava; o que importava é que o tal do primo da Patrícia agora tava apontando uma “peça” para a minha cara. E parecia verdadeira e carregadinha da silva. Fingi que ele era transparente e continuei sentindo o tempo passar rápido e tudo mais; aproveitando a vida.  Então ele abriu a boca e cortou o meu barato.

“E agora, jão? Vai fazer o que agora, jão?”, falou, esforçando-se pra fazer voz de homem.

“Jão?”, falei. “Ninguém mais fala ‘jão’.”

“Foda-se se fala ou não!”

“Ok.”

“Agora a gente vai resolver essa parada!”

É claro que eu não acreditava que aquele garoto realmente fosse atirar. Então prossegui com a minha ceninha, tentando encontrar uma brecha.

“Teu nariz ainda tá doendo? Parece que ficou meio torto pro lado… é melhor você ir ao médico arrumar isso. Depois que a cartilagem calcifica não tem mais jeito nã…”

“Calaboca!”

“Não, é séri…”

“CALABOCA!”

Cansei de conversar e resolvi me levantar com tudo e tentar acertar uma cotovelada no pescoço dele. Só que, no susto, o garoto disparou a arma.

Diferente do que eu tinha pensado, não era uma arma de verdade; na verdade era só uma arminha de pressão, daquelas que disparam uma bolinha de plástico que quando acerta dói como se você tivesse levado uma picada de marimbondo. E eu levei uma bem no rosto. Minha reação na hora foi a de não fazer nada. Em seguida dei risada e mandei o garoto sumir da minha frente, o que ele fez.

No final das contas não doeu nem um pouco. Meu rosto tava tão adormecido por causa da coca que eu não senti praticamente nada.

Comecei a achar que era hora de me despedir daquele pessoalzinho mais ou menos. Fui procurar pela Patrícia e a encontrei dando uns amassos com um cara no quarto dos pais. Ela parecia boa demais pro garoto. Resolvi não interromper.

Quando eu ia fazendo meu caminho de volta, vi a porta do banheiro aberta e estranhei pois havia uma pessoa deitada dentro da banheira. Me aproximei pra ver o que é que tava pegando. E o que tava pegando era que quem tava deitada dentro da banheira era uma garota linda, olhos cor de mel vidrados no nada e cabelos ruivos. O velho clichê de sempre.

“Olááá”, falei, admirando aquela expressão sem vida que ela tinha naquele rosto branquinho e sem cravos.

Não me respondeu. Fiquei preocupado e apliquei-lhe uma bofetada, ao que ela voltou da viagem, de início sem perceber onde estava e depois falando:

“Nooosssa, cara… eu pensei que eu tinha morrido…”

“É, eu também pensei que você estivesse morta”, eu disse, tentando não olhar pro decote da blusa dela. “Que foi que você andou tomando?”

“Nada, cara, nada…”

“O caramba. Ninguém fica assim de graça.”

“Ah, não sei. Foi um comprimido que o primo da Pat me deu.”

“Esse garoto… Escuta, que tal a gente se levantar e caminhar um pouco?”

“Pra que, cara?”

“Bom, não sei. Não sei o que foi que ele te deu, mas pode ser perigoso se você dormir. Vem, eu te ajudo a levantar.”

“Não… Não tô a fim.”

“Que mané não tá a fim o quê.”

Puxei-a pelo braço, a fazendo ficar de pé.

“Aiai! Tá doendo!”

“Não tô nem aí, a gente vai andar.”

“Cê é da polícia, cara?”

“E se eu for?”

“Eu não colaboro com porcos.”

“Porcos? Nossa, que original. Andou vendo filmes demais, foi isso.”

“E cê também não é meu pai.”

“Fico imensamente feliz por não ser.”

“Se você não me soltar eu grito!”

“Antes de você gritar eu te enfio a mão na cara.”

“Meu, se você falasse isso lá na minha quebrada…”

“Que quebrada, princesinha?”, falei, franzindo bem o cenho. “Não sabia que no Morumbi tinha quebrada. Essa é nova pra mim.”

“Quem te falou que eu moro no…”

Não esperei ela continuar falando bobagem; apertei seu braço mais forte e a fiz descer comigo até a cozinha. A fiz tomar Coca-cola e praticamente lhe empurrei uma hot dog goela abaixo. Só fiquei feliz quando ela vomitou tudinho na pia. Peguei um copo de vodca com gelo e voltei para a sala.

Na estante encontrei um MP3 do Notorious B.I.G.. Tirei o lixo que estava tocando no som e pus ele. A primeira música era “Party and Bullshit”.

Não aconteceu mais nada de interessante.

 

 

Guilherme Sakuma – 26/12/2010  05:39

 

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OBSERVAÇÃO PARA OS CABEÇAS-DE-REPOLHO: Nem todos os textos escritos em primeira pessoa (tipo: “Eu amarrei o filho-da-puta numa cadeira e cortei sua língua, seu nariz, suas orelhas, seus braços, suas pernas e seus testículos; depois levantei vôo que nem o super-homem e assassinei Deus” ou até um simples “Ontem atropelei um mendigo e não prestei socorro”) são sobre a vida do próprio autor que os escreveu ou sobre as coisas nas quais este acredita.


Written by Guilherme Sakuma in: Agenda,Contos,Guilherme Sakuma |

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