Passo
Escritor: Matheus Ferreira
Preferia os dias nublados com céu manchado de cinza e a chuva fina caindo enquanto era levada pelo vento. Era em dias assim que podia usar roupas para se proteger do frio. Mantinham o corpo numa temperatura confortável e tornavam o mundo um lugar um pouco mais seguro. Mas naquele dia o céu era azul, não havia nenhum sinal de chuva e o sol brilhava sozinho. Estranhamente, não se sentia incomodado. Era até agradável. O capuz cobria-lhe a cabeça e o resto do tecido se desfazia em farrapos. Estava ali parado na beirada olhando o rio lá embaixo seguir calmamente seu caminho. Sempre em frente, sem hesitar. Se por acaso escorrega-se, perdesse o equilíbrio e caísse, havia uma grande chance de morrer. Ou podia simplesmente pular. E o vão o estava chamando.
O vento frio da manhã tocava-lhe o rosto. Os olhos analisavam o que havia lá embaixo. E se pulasse? Morreria? Podia cair em três lugares: na terra à beira do rio, nas águas rasas ou dentro do próprio rio. Na terra, seu corpo se quebraria, mas podia não morrer. Existia a possibilidade até de se tornar um inválido, não almejava isso. Dentro do rio, a água suavizaria o impacto e restaria o afogamento. Mas ainda estaria consciente do que se passaria, não seria agradável. Restavam as águas rasas, atingiria o fundo com bastante força. Força suficiente para imobilizá-lo e o rio daria cabo dos seus pulmões. Deveria bastar, pularia de cabeça.
Os pés descalços sentiam a pedra fria absorvendo lentamente o calor do dia, horas mais tarde seria impossível ficar ali com os pés nus. Sua mente estava longe. O quê os outros sentiriam? Pai e mãe chorariam. Iriam se questionar e talvez até se culpassem. Avós? Talvez. Mas também havia toda uma gama de parentes, próximos ou distantes. Provavelmente lamentariam e apareceriam no funeral. Esse tipo de evento sempre reúne uma quantidade grande de parentes. Família é sempre família. Amigos? Nunca os vira serem acometidos por tristezas a ponto de se afogarem em lágrimas. Ou, então, não se atentara o bastante para perceber. Com certeza lamentariam e poderiam até se abater. Também havia as pessoas que se entregariam às lagrimas, sempre há. Mas devido a serem sensíveis demais e facilmente impressionáveis. No fim, o tempo se encarregaria de amenizar as coisas.
Gostava de imaginar as coisas. Sua mente criava facilmente idéias incrivelmente absurdas. Investia horas e horas imerso na ficção. Arriscava dizer que já havia vivido uma vida inteira dentro da sua mente. As coisas são muito mais fáceis e tendem a funcionar bem quando é você que está no comando dos acontecimentos. O sono também trazia uma outra possibilidade de fuga. E acordar se mostrava frustrante. Música! Sim, a música era mais um escape. Preenchia a mente por si só. Uma vez lhe perguntaram se a realidade era tão ruim a ponto de se refugiar no imaginário. Respondeu que não o era apenas por não se sentir disposto a explicar as coisas como via. Provavelmente não entenderiam. Tempos depois, lera em algum lugar que na vida “há picos de felicidades e sucessos; pequenos campos da chata rotina e vales de frustrações e fracassos”. Não havia forma melhor de definir.
Se pulasse, se sentiria voando? Se bem que cair não seria exatamente voar. Posicionou-se perigosamente na borda da pedra. Fechou os olhos e abriu os braços ao vento. O quê viria depois? Pensava se descobriria se realmente somos corpo e alma ou apenas corpo. Seria simplesmente deixar de existir? Talvez fosse assim. Ouvira uma vez que “a morte era apenas mais um caminho que todos nós devíamos tomar”. Seria assim? Fadados a um descanso eterno? Recompensados pela boa conduta em vida com o paraíso ou fadados a pagar pelos erros cometidos num lugar destinado ao sofrimento? Haveria apenas um deus ou seriam vários em um mesmo plano ou com seus próprios domínios? Difícil saber. Aliás, se sentia um pouco culpado por cogitar certas idéias que não eram exatamente às da crença na qual fora criado.
Um passo a frente e daria um final a sua vida. Um passo atrás e daria continuação a essa mesma vida. Tentador, não?
Abriu os olhos e, decidido, deu o passo.
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