Por quê você precisa de mim?
Escritor: Lucas Millan
-Por quê você precisa de mim? – Perguntou ela, deslizando-se pela cama, sem olhar para mim.
-Quê?
-Você disse que precisa de mim. – Repetiu ela, deslizando seu indicador pela estampa do lençol. – Quero saber por quê.
-Achava que isso era evidente.
-Não, tu não acha isso. – Realmente, eu não achava. – Quanto tempo faz que nos conhecemos?
Eu a encarei, desconcertado e ficando progressivamente vermelho.
-Esquece, não precisamos falar sobre…
-Há quanto tempo nos conhecemos? – Reiterou ela, contorcendo-se, mesclando-se com o lençol tal qual um croquete.
-Não nos conhecemos.
-Exato! – Exclamou ela, pondo-se de joelhos à minha frente, coberta pelo lençol.
Suspirei.
-Pode esquecer o que eu disse?
-Não, porque VOCÊ não vai esquecer o que você disse. – Aninhou-se com a roupa de cama como se fosse uma freira, adotando uma expressão solene.
-Me nego a continuar esta conversa. – Disse, deixando-me cair na cama e cobrindo meu próprio rosto com meu travesseiro. – Me nego. – Repeti.
-Você disse que precisa de mim.
-Lá lá lá lá!
-Disse que precisa de mim contigo. Disse, mesmo sendo a coisa mais clichê do mundo, que sem mim, teu mundo é mais cinza, tua vida menos importante e o chocolate, mais necessário.
-LÁ LÁ LÁ LÁ!
-Mas por quê?
Parei de cantarolar e deixei o travesseiro escorregar por meu rosto.
-Por quê não?
-Posso citar cinquenta mil “porque nãos”, começando pela divisão de bens.
-Vá à merda. – Disse, jogando o travesseiro nela. Ela simplesmente saltou a um lado, caindo pesadamente na cama, fazendo com que as molas rangessem. O travesseiro colidiu contra a parede branca, manchada de sombras noturnas.
-Vamos, por quê minha presença em tua vida é tão necessária? Por quê dar tanto valor a algo que certamente acabará não dando certo?
-Isso é o que tu diz.
-Não, não, não. Isso é o que TU diz, lembre-se.
-Suponho que seja um conceito com o qual fui criado. Não o de encontrar alguém e viver feliz para sempre. Estamos no século vinte e um, a mídia já não vende isso.
-Então por quê?
-Porque o que ela sim vende é que todos temos alguém especial que não nos durará o suficiente, mas que nos acompanhará fielmente durante a parte mais difícil de nossas vidas.
-A plenitude sexual?
-A plenitude sexual. – Repeti.
Ela sorriu e simulou com sua mão um carrinho de montanha-russa subindo, subindo, subindo e logo depois despencando com um assovio.
-Acho que é basicamente isso. Satisfeita?
-Não.
-Porra, como não?
-Se esse é o único motivo, por quê você simplesmente não o ignora?
Ela despiu-se do manto improvisado, revelando seu corpo nu. Aproximou seu rosto do meu para penetrar meu olhar, o qual eu tentava desviar.
-Não sei…
Ela nada disse, apenas continuou a fitar-me.
-Porque eu não quero.
-Bingo! – Exclamou, afastando-se novamente. Sentei-me na cama, abraçando meus joelhos sob o cobertor, apoiando meu dorso nu contra a parede fria. Senti minha nuca se arrepiando. – Creio que aprendemos uma cosa importante hoje.
-O quê?
-Você… Quer mesmo que eu diga ou o diz você?
Hesitei. Meu olhar encontrou o cobertor que me cobria e o padrão de sua estampa. Também estava manchado pela escuridão cinzenta de uma noite em meu quarto.
-Eu sou fraco.
-Você é fraco.
-Mas…
-Hmmmm?
-Mas eu não o posso evitar. Ninguém pode.
-Muita gente pode. Muita gente o faz.
-E nem por isso são mais felizes.
-Certo e errado. São tristes por outros motivos. Motivos mais importantes pra eles.
-E mais banais para mim.
-Certo.
Silêncio.
Ela deixou-se cair novamente na cama num baque surdo, e silêncio.
Escorreguei da parede, deitando-me novamente, olhos bem abertos. Ela deitada de cabeça para baixo, com os pés em meu peito, eu deitado como sempre havia deitado, no centro da cama, em oposição a ela. Inverso a ela.
-Então, no final… O que eu devo fazer?
Silêncio e uma risadinha. Uma risadinha talvez cruel, talvez complacente, talvez divertida, talvez triste. Talvez apenas uma risadinha.
-Como eu vou saber, bobo? Sou apenas um arquétipo.
5 Comments»
RSS feed for comments on this post.








Espírito do Século. Novo RPG Pulp da RetroPunk já entrou em pré-venda!
Editora UNZA RPG estreia com suplemento GOBLINS em campanha para OLD DRAGON!
Alan Moore pede que leitores de Before Watchmen nunca mais leiam obras de Alan Moore
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
Papo na Estante 33 – Literatura de Entretenimento
Show, Don’t Tell ou Mostre, Não Diga.
Occupy Comics: Alan Moore e David Lloyd colaboram
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"
Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida 


Pôôôô… a história inteira tu prepara o personagem para tomar uma resolução, e no fim… quebra a 4ª parede e mais nada. Sacanagi!
A resolução está aí. Não é muito bonita, mas é à que o personagem chegou =)
Obrigado pelo comentario, Ekevoo!
Para mais contos:
http://www.onerdescritor.com.br/category/autores/lucas-millan/
This!!!
Poxa depois de tanta iluminação o cara ainda quebra a cara no final xD…eu meio que quebrei a cara junto..e caramba…esse conto cai como uma luva na vida da gente 8(
Parabéns! Leitura da melhor qualidade ^^
Quem nunca quebrou a cara numa dessas conversas consigo mesmo? Eu sempre perco xD