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Oct
26
2011

Rei Artur e o Churrasqueiro Bêbado

Escritor: Guilherme Sakuma

1.

Ia ter um churrasco na casa de praia de um bacana amigo do tio Jonas, e eu, churrasqueiro e bebedor de cerveja que sou, fui acionado. No sábado de noite ele me ligou para combinar o negócio direito.

– Elton?

– Não, senhor. Aqui é do Café Sabores da Noite. Em que posso lhe ser útil? Gostaria de reservar uma garota para essa noite? Ou quem sabe um garoto? Menores de idade, talvez? Animais?

– Oh, perdão.

– Sou eu, tio, porra.

– Eu sabia. Pensa que me engana, moleque?

– Diga lá.

– Sobre o churrasco.

– Ah.

– Tá com carro?

– Tive que mandar desmanchar o meu pra receber o dinheiro do seguro. Lisa disse que se eu não começasse a ajudar com as contas, era bom eu arrumar um novo lugar pra ficar.

– Putz.

– Tem nada não. Meu dia ainda vai chegar. Tô esperando como posso.

– Sei. Então, amanhã passo aí pelas nove horas.

– Da manhã? Tô brincando. Legal, pode passar que esse horário eu já vou estar pronto.

– E a Lisa, tá por aí? Fala para ela ir também.

– Ela não tá. Disse que ia sair com umas amigas. Não me convidou; acho que tem vergonha de mim.

– Ixi… saindo com as amigas num sábado de noite?

– É, foram dançar.

– Não tá com a testa coçando?

– Não coça mais.

Voltei para frente do notebook. A tela tinha congelado. Tive que desligar e ligar novamente. Acabara de perder o trabalho de seis horas e meia – quarenta páginas de um romance sobre um cara que se tornava um super-herói sanguinolento após assistir a mulher e a filha pequena sendo estupradas e depois torturadas e assassinadas por uma gangue de motoqueiros skinheads, sem poder fazer nada. Era um dos melhores que eu escrevia em meses. Superei a perda me empanturrando de batata cozida de três dias atrás e Dreher, que era a única coisa que sobrara para beber naquela casa.

 

2.

          Acabei acordando atrasado, como sempre. Tive que correr para arrumar minha mala e dar a minha cagada matinal. O problema foi que a merda não queria sair do meu estômago de jeito nenhum – mas ela estava lá, eu sabia.

Vesti uma camisa que ganhara no natal do ano retrasado e uma calça jeans que eu comprara no centro por R$ 39,90. Lisa não pôde ser encontrada em lugar algum. Dei comida para os cachorros dela (mas não recolhis os cocôs no quintal) e saí.

Fumei dois cigarros enquanto esperava tio Jonas. Ele demorou vinte e cinco minutos para chegar.

– Fala, grande Elton! Demorei?

– Um pouco. Mas tudo bem, eu não devo ter mais o que fazer da vida mesmo. Oi tia Ana.

– Oi Elt!

– Oooooiiii Elllltttt!! Olha o que eu ganhei da minha mãe!       – Meu sobrinho mostrou-me um bonequinho do Homem-Aranha, de aspecto caro (cheio de articulações e acessórios).

– Bem legal.

– Ó, o Artur mandou esse mapa aí pra gente não errar o caminho – meu tio disse, e jogou um mapa feito a mão no meu colo.

– Artur é o nome desse teu amigo?

– É.

– Que letra feia ele têm.

– Acho que foi o filho dele que fez.

– Ah tá. Quantos anos ele tem? Quatro?

– Vinte e quatro.

– Quase acertei.

– Faz o favor de não ficar enchendo a cara, viu? – avisou.

 

 

3.

    Duas horas depois estávamos em frente ao condomínio de luxo. O detalhado mapa só serviu para nos atrapalhar – e eu também nunca fui bom com nome de ruas e essas coisas.

– Que tal, “mãe”? – meu tio perguntou para sua esposa.

– Que lugar lindo! Olha, filho!

– Tô com fome! Quero comer logo o churrasco do Elt! – o garoto disse, pouco ligando para o quão modernosa e imponente era a entrada do condomínio.

O tal do Artur veio nos recepcionar. Era um velho, moreno como uma cenoura, pançudo e alto, meio parecido com um barril. Tinha cara de quem sofria de prisão de ventre ou que tinha hemorróidas, mas seus óculos escuros e sua jaqueta pareciam valer mais do que o que eu receberia se fosse demitido da firma onde trabalhava por quatro anos. Não esperou que nós descêssemos do carro para nos cumprimentar. Não entendi essa merda.

Foi caminhando em frente, nos mostrando o local onde devíamos estacionar, naquele estacionamento tão grande que mais parecia um galpão de jatinhos particulares (talvez até tivesse algum estacionado em alguma vaga daquelas). Ele tinha quatro vagas, das quais três já estavam ocupadas por outros carros. Reconheci um como sendo o de uma outra tia minha, que também devia conhecer o Artur. Sem  querer, dei uma portada no carro dela na hora em que desci. Sentia-me meio apreensivo; não sabia como me comportar perto daquele cara… parecia que nada o afetava; parecia que ele achava que eu era apenas mais um dos funcionários dele.

Dentro do próprio estacionamento havia vista para o mar. E que vista. E que mar – só mar mesmo, com alguns iates brancos flutuando no horizonte de águas calmas e limpas.

“Que tal?”, acho que ouvi rei Artur perguntar. Meu tio e sua esposa disseram alguma coisa, bastante admirados. Meu sobrinho gritou “LEGAL!!” e saiu correndo com o seu bonequinho do Homem-Aranha. Eu fingi que não tinha escutado.

Subimos e descemos algumas rampas e escadas que davam na churrasqueira, que tinha uma vista para o mar até melhor que aquela do estacionamento. Troço cinematográfico; realmente um negócio surpreendente. Dali o cara não conseguia ficar pensando em seus problemas. Eu tentei várias vezes e não consegui.

Tratei de cumprimentar todo o pessoal que vi por lá. Não gostei da cara de ninguém por ali – exceto das caras da minha tia e de sua família, as quais eu já conhecia de longa data e sabia que não eram tão cheias de frescuras e de não-me-toques quanto pareciam.

Fui para a churrasqueira. Tive que pedir algumas instruções a Artur, pois nunca tinha visto uma churrasqueira tão cheia de nove horas na minha vida.

– Boa essa churrasqueira, né? – perguntou, soando como se aquilo não fosse merda nenhuma para ele; como se entendesse tanto de churrasqueira quanto entendia de almoçar salgado de R$ 1,00 no centro de São Paulo, daqueles que vêm recheados com carne de pomba e rato.

– Boa, sim – respondi eu, tentando soar superior e retardado mental ao mesmo tempo.

– As carnes estão todas dentro desse isopor – mostrou, dando uns chutinhos no negócio.

– Legal – falei, e fui conferir o que de bom ele comprara.

Havia muita carne ali dentro. Fingi me admirar com o que vi, só para fazer um “social” com o sujeito.

Logo tio Jonas apareceu com duas latinhas de cerveja; uma para mim, outra para ele.

– Tem mais no freezer. Vê se pega leve aí…

Enquanto eu fazia as carnes, o pessoal do rei Artur ficava vindo espiar por cima do meu ombro. Não entendiam bosta nenhuma de churrasco, mas deviam entender tudo sobre como ganhar e gastar muito dinheiro com coisas imbecis e inúteis tipo um estúpido vaso de doze mil reais que não serve para colocar flores. Eu gostaria muito de também não entender porra nenhuma de churrasco e ter grana para comprar um iate branco e lotá-lo de meninas de boa família vestindo biquínis brancos enfiados.

– Imagina só se a gente trouxesse para um lugar desses umas vinte putas – meu tio veio comentar. – Pensa só, Elton…

Notei que ele tinha ficado “alegre” rápido demais. Devia ser efeito do uísque de quinhentos paus misturado com cerveja que tinham botado para a gente beber. Como eu não podia misturar bebidas, especialmente se a outra bebida fosse uísque (caro ou não), não consegui entender qual a graça de levar vinte putas para um lugar daqueles. Se fosse um iate, aí já eram outros quinhentos.

 

As carnes começaram a ficar prontas, e eu fui cortando. Fiquei com a impressão de que aquele pessoal esperava que eu os servisse – até tinham arrumado um avental vermelho para mim (que eu joguei de escanteio) –, mas eu simplesmente deixei tudo em cima da tábua de corte e fingi que não era comigo. O próprio anfitrião do churrasco foi quem se encarregou de servir as pessoas.

Todo mundo elogiou o churrasco do papai Elton aqui, o low-life churrasqueiro bêbado de barba malfeita metido à melhor escritor da cena que, antes de ficar famoso e usar champanhe para escovar os dentes e lavar a piroca melecada depois do trepar com alguma estrela teen de 18 anos recém-completados, come o pão mofado que o diabo amassou.

 

 

    4.

Depois que pararam de comer, larguei um pouco a churrasqueira e fui me concentrar nas cervejas e nos cigarros. Fui me sentar longe dali, próximo a um mirante com vista para o mar magnífico, infinito e um tanto assustador. “Será que tem tubarão nessa água?”, pensei. Se tivessem, com certeza seriam tubarões de sorte, usando umas camisetas de estampa florida e fumando charutos cubanos.

Meu celular tocou. Vi no visor que era Lisa.

– Que é?

– Onde cê tá?

– Churrasco na casa de um amigo do meu tio.

– O cachaceiro do Jonas?

– É. Lisa, cê tem que ver esse lugar. O filho da puta desse amigo do meu tio é milionário.

– Aaaahhhh… então quer dizer que quando é pra ir no buteco da esquina você me leva, né? Quando tem uma festa legal pra ir, cê nem me avisa!

– Eu te avisei que eu vinha, durante a semana. E hoje de manhã cê não tava em casa. Aliás, passou a noite aonde, que mal lhe pergunte?

– Eu tava em casa, sim.

– O caralho que cê tava. Eram nove horas da manhã e cê ainda não tava lá. A noitada deve ter sido boa… Deixa eu adivinhar, acordou pelada caída atrás de uma lixeira num beco escuro? Com uma dor terrível no cu?

– Ah, vai se foder!

– Vai se foder você.

– Vai se fo…

Desliguei. Fiquei com muita vontade de atirar o troço no mar, mas se o fizesse, depois teria que comprar outro. Pra quem tem dinheiro para gastar com quadro de vinte mil reais (daqueles que parecem que um fedelho de porre de ponche pintou) deve ser uma experiência libertadora. Como não era o meu caso, guardei o negócio. Virei a cerveja e fui atrás de mais.

Fui interrompido no meio do caminho pelo meu sobrinho, filho de Jonas.

– Elt, vamos brincar! Vamos no parquinho!

– Eu tô tomando cerveja.

– E daí?

– Ainda preciso tomar mais algumas.

– Não precisa nada! – Começou a me empurrar em direção às escadas.

– Éééééé! Vem brincar com a gente – gritou o outro sobrinho, também pequeno.

– Bom, legal, então vamos. Deixa eu só pegar mais uma cerveja que eu já subo. Podem ir em frente.

– Promete?

– Prometo. Agora sumam da minha frente! – brinquei, fingindo que ia dar umas porradas nos dois, dando voadoras no ar.

Esgueirei-me até o freezer e peguei duas latinhas. Coloquei uma delas no bolso da calça. Ficou ridículo, e dava para ver que tinha uma latinha de cerveja dentro dele, mas imaginei que esse fosse o tipo de comportamento que aquela gente devia estar esperando de um churrasqueiro pobre, cachaceiro e fruto de um caso extra-conjugal como eu. Quero dizer, eles estavam se lixando para mim e todo o meu drama de cada dia. Gostaria de também pouco me lixar para os seus dentes bem cuidados e seus tênis e sapatos confortáveis.

Antes de subir, pude ouvir Artur, o rei, comentar com meu tio: “Desembolsa aí dois milhões e uns quebradinhos que eu te vendo esse apartamento, hehehehe…”. Ele soava tão seguro, tão dono do mundo, tão sabedor das coisas, tão milionário, e ao mesmo tempo tão garotinho gorduchinho da vovó que só conhece o próprio quintal ensolarado e cheio de árvores bem podadas e passarinhos que não cagam…

Mesmo assim, continuava parecendo um grande barril laranja. Ou um joão-bobo. Ou aqueles lixeiras boca de palhaço que existem em parques de diversão litorâneos caindo aos pedaços

Se eu fosse uma gostosa com certeza dava pro barril boca de palhaço em troca de dinheiro.

 

Subi um monte de escadas e ladeiras para chegar ao parquinho. A área daquele local era do tamanho de um shopping-center térreo, pode apostar.

Quando me viram, os dois sobrinhos começaram a berrar como uns doidos e a pular feito macacos que tivessem comido fruto de guaraná demais (não que macacos comam frutos de guaraná). Moleques legais. Melhores do que qualquer uma das pessoas por lá.

– Vem pegar a gente! – gritavam. Eu fui. Eles não eram páreo para mim; na época da escola, eu era o corredor mais rápido do pedaço. Pelo jeito, mesmo bêbado e fumante, continuava o sendo. Era sempre bom saber que a vida ainda não havia me derrotado por completo.

– Nossa, como você é rápido!

– Cês ainda não viram nada… Saca só… – Dei duas cambalhotas para frente e então arrisquei um mortal de cima de uma pequena mureta. Infelizmente me estatelei no chão, de bunda. Os garotos mais ficaram preocupados do que deram risadas. Garotos legais, mas eu teria gostado mais se eles tivessem caído no chão de tanto dar risada.

– Não, peraí, vou tentar de novo… – Levantei-me e subi novamente na mureta. Consegui cair de costas dessa vez. Fiquei um pouco sem ar.

– Tio Elt, cê vai acabar se machucando – disse um deles, com cara de quem já sabia que tinha algo de errado comigo.

– É, chega disso.

Pra mim estava tudo bem; nem na época da escola eu consegui o negócio do mortal. Suponho que o problema seja essa minha cabeça grande e pesada. Uma pena ela ter feito de mim o melhor escritor da cena ao invés de um engenheiro muito requisitado ou um advogado de traficantes de drogas. É a vida; decepcionante como sempre.

Fiquei brincando um tempão com os garotos. Enfiava a porrada mesmo, para que eles aprendessem a quebrar os narizes de seus coleguinhas de classe (antes os deles do que os dos meus sobrinhos, sabe como é). Eles gostavam. Eu ficava de olho, vendo se nenhum pai ou mãe chata apareciam no horizonte para dizer que não podia isso e aquilo ou “Vem aqui agora! Tô mandando!”.

Papais e mamães deviam me pagar para ensinar uns truques para os seus filhos, pois eles mesmos sempre são as pessoas mais erradas do mundo para tomar conta deles.

 

 

5.

    Quando voltei para perto da churrasqueira, metade das pessoas jogava algum jogo de tabuleiro, enquanto que a outra apenas olhava para seus pratos vazios e copos descartáveis cheios de refrigerante até a metade. Nenhuma das duas metades parecia muito feliz com o que estava fazendo.

Encontrei o filho de Artur jogando algum jogo imbecil num vídeo-game portátil. Colei perto dele e acendi um cigarro. Parecia não ter me visto ou estar me ignorando por completo só porque tinha tomado leitinho desde criança. Resolvi puxar papo.

– Da hora esse teu apê, cara. Da hora mesmo.

– Ã?

– Esse teu apê aqui; essa vista…

– Ah. Ahã. – Nem se dignou olhar na minha cara.

– Seria legal trazer umas vinte putas pra cá – comentei, para ver se ele estava prestando atenção.

– Ã. Ahã.

– Já pensou, cara? Um monte de xoxota fresquinha correndo pra lá pra cá e tomando sol de bundinha pra cima nesse lugar?

– Ã. Ahã.

– E que tal se viessem também uns caras? Hein, gosta disso? Um monte de macaco peludo se pegando, se chupando, colocando bananas nos cus um dos outros?… Que me diz?

– Ã. Ahã.

– Toma cerveja? Vou pegar uma lá pra mim.

– Ah. Ahã.

Peguei uma cerveja e voltei para perto do cara. Quando estourei a tampinha, voou um pouco de espuma nele. Precisavam ter visto a cara que ele fez…

– Foi mal – falei.

Ele foi correndo se lavar na pia. Parecia que ia chorar.

Será que nunca tinha comido uma xoxota na vida?, foi o pensamento que me ocorreu no momento.

Também fiquei lembrando das vezes em que  eu almoçara os marmitexes que os outros funcionários da empresa onde eu trabalhava jogavam no lixo – meu horário de almoço quase nunca batia com o deles, pois eu vivia na rua fazendo trabalho de office-boy, daí então, quando não tinha ninguém no refeitório, eu ia até a lixeira, escolhia um marmitex que estivesse mais pesadinho e comia.

– Elton – meu tio chamou.

– Fala, tio Jonas.

– Acho que o pessoal tá a fim de mais carne.

– É pra já.

Sempre gostei de fazer churrasco. É a única coisa que eu sei fazer além de escrever e beber cerveja.

Também sei trepar, minhas namoradas nunca se cansam de trepar comigo. O segredo é simplesmente fodê-las e esquecer da porra do amor na hora do sexo.

 

 

6.

Às cinco da tarde subimos para o apartamento do rei Artur; um monte de carne ficou sobrando sem assar. Por ali, o que era de se esperar: vasos inúteis, quadros inúteis, abajures que nunca eram acesos, tapetes feitos de pelos de algum animal em extinção, sofás caros e desconfortáveis, cozinha do tamanho da minha casa em São Paulo, banheiros  maiores que o meu quarto de dormir, varanda maior que o meu quintal.

Só uma coisa me incomodava bastante ali: a porra do “barzinho” sem bebida. Mas que merda era aquela??

Tratei de surrupiar algumas das poucas cervejas que ainda sobravam, e fui até a varanda. Fiquei torcendo para que um cara que andava de jet-ski batesse em alguma pedra oculta pela água e saísse voando – ele não precisava morrer, apenas fraturar umas costelas e arrebentar o lábio superior. Eu só queria ver um pouco de sangue e aquele jetski aos pedaços. Mas nada aconteceu.

 

Tio Jonas dormia e um pessoal jogava baralho. Outro pessoal comia, e ninguém tomava cerveja.

Qual era o problema com aquela gente?

Fui para perto dos meus sobrinhos, que brincavam de bonequinho.

– E aí, seus cabeças-de-repolho, querem levar porrada?

Não responderam.

– Cês tão brincando de casinha? – provoquei. – Deixa eu ver, o Homem-Aranha é a mamãe e o Wolverine é o papai? Moderninhos eles, hein…

Vieram pra cima. Começamos a tirar uma lutinha lá na sala mesmo. Eu imitava o Bruce Lee, os derrubando apenas com um leve impulso de mão. Eles se divertiam. Até o barril laranja achava graça. Mas logo a mãe de alguém apareceu para estragar o negócio.

“Depois, quando cresce, o moleque não consegue nem ir ao mercado comprar um pacote de bolacha sozinho”, pensei – ou falei para alguém, não me lembro.

Sentei-me ao lado de uma das parentes do dono do apartamento. Ela usava um vestido longo e razoavelmente decotado; tinha muita carne onde pegar; muito peito, muita perna. Uma corrente de prata adornava-lhe um dos tornozelos grossos; logo abaixo, pezinhos gordinhos e perfeitos. O marido sentava-se em outro sofá, assistindo televisão e tendo um copo de refrigerante ou suco numa das mãos.

– Sofá bom – comentei com ela, colocando uma almofada no colo.

– Oi?

– O sofá.  É confortável.

– Ah. É verdade.

– Uma pena a churrascada ter acabado tão cedo. Sobrou tanta carne…

– É mesmo.

– Eu adoro carne. Bastante carne…

– Eu prefiro peixe – disse, puxando a saia para baixo.

– Sério?

– Ahã.

– O que acha de enguia?

– Acho que nunca comi…

– É um peixe longo; parecido com uma cobra.

– Nunca comi.

– E cobra, gosta?

– Cobra, como assim? – Torceu o nariz.

– Já comeu cobra?

– Não, eu não gosto dessas coisas esquisitas.

– Não sabe o que está perdendo… E que tal minhocuçu? Isso você já comeu.

– Não, eu nunca comi nada disso – respondeu, parecendo incomodada, novamente puxando a barra da saia.

– Sabe, eu nem devia te falar isso, mas os lanches de uma certa lanchonete muito famosa são todos feitos de carne de minhocuçu.

– Sei…

– Então você já colocou um minhocuçu dentro da sua boca…

Depois dessa ela pediu licença e saiu com o celular na mão, fingindo que tinha alguma ligação importante para fazer. Pude notar que mancava um pouco, mas mesmo assim continuava tendo um belo de um traseiro… muita carne mesmo, mas tudo muito bem distribuído. Não sei se o marido dela dava conta de tudo aquilo sozinho.

 

 

7.

Uma hora a cerveja acabou, mas não ia pegar bem sair para comprar mais; não no meio daquela gente.

Comecei a ir ao banheiro o tempo todo.

Não demorou muito tempo, Artur arrumou uma maneira de gentilmente nos por para fora. “Bom, pessoal, vamos embora daqui a quinze minutos?” Foi assim que ele disse, na lata.

Não é preciso muito para se perceber que falta de classe não é exclusividade de gente pobre ou miserável. Apresentadores balofos de talkshows de grandes emissoras que o digam…

Ajudei a descer as coisas dentro de um carrinho de supermercado. A roda do negócio estava torta, daí risquei um pouco o batente da porta do apê do Artur e um pouco das paredes do corredor. Ele vinha logo atrás de mim, me olhando com olhos de falcão, talvez achando que eu tivesse feito alguma coisa além de encher o cu de cerveja. A roda do carrinho dele não estava ferrada.

Colocamos as coisas dentro dos carros e nos despedimos com promessas de um dia marcarmos de fazer outro churrasco um dia desses. Eu sabia que não ia acontecer.

Tentei não dormir na volta – sempre achei isso coisa de menininha –, mas não teve jeito, tinha cachaçado demais.

Quando acordei, eu estava mais ou menos perto de casa. A cabeça e as costas doíam muito.

 

    8.

    Lisa estava sentada no sofá da sala, em frente à televisão ligada. Tinha uma garrafa de vinho numa das mãos e um cigarro no canto da boca.

– E aí – falei, tirando e tacando longe a minha camiseta. – Dá um gole disso aí.

– Meu, eu passei o domingo inteiro aqui, sentada – sua voz soava chorosa, reclamona e infeliz. Não olhava nos meus olhos.

– Pelo menos você descansou. Cê tava precisando disso.

– Eu vou sair.

– Pra onde?

– Sei lá, vou sair. Por aí.

Eu sabia que ela iria até o quarto colocar alguma coisa curta e apertada e um salto. Foi o que ela fez.

– Você nem limpou a bosta dos cachorros na garagem – comentei, quando ela passou por mim.

Não respondeu. Abriu a porta e saiu.

Fiquei me sentindo muito deprimido com aquela garrafa de vinho doce, aquelas paredes infiltradas, a luz fraca da lâmpada suspensa pelos fios, os tacos de madeira encardidos, o cheiro de mofo, o sofazão manchado, a televisão ligada no canal 4.

De repente vasos caros que não serviam para colocar plantas, quadros com pinturas abstratas e molduras elegantes, tapetes de peles de animais mortos com requintes de crueldade, jogos de talheres e sofás que custavam mais caro que uma moto pareceram fazer o maior sentido do mundo…

Sentei-me em frente ao notebook e escrevi até o dia raiar.

Lisa ainda não havia chegado.

 

 

Guilherme Sakuma “O Melhor Escritor da Cena” – 11/07/2011

 

Reeescrevi, ampliei e melhorei todos esses “antigos” textos meus, que agora podem ser acessados sem custo nenhum no blog “Guilherme Sakuma regurgitado” (www.guilhermesakuma.blogspot.com). Estou postando aos poucos, pois sei bem como neguinho ama esperar por alguma coisa…

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OBSERVAÇÃO PARA OS CABEÇAS-DE-REPOLHO: Nem todos os textos escritos em primeira pessoa (tipo: “Eu amarrei o filho-da-puta numa cadeira e cortei sua língua, seu nariz, suas orelhas, seus braços, suas pernas e seus testículos; depois levantei vôo que nem o super-homem e assassinei Deus” ou até um simples “Ontem atropelei um mendigo e não prestei socorro”) são sobre a vida do próprio autor que os escreveu ou sobre as coisas nas quais este acredita.


Written by Guilherme Sakuma in: Agenda,Contos,Guilherme Sakuma |

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