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Oct
26
2011

Rímel borrado

Escritor: Guilherme Sakuma

Sexta-feira, meia noite. Estou na cozinha lavando louça. Tomei umas e outras assistindo um programa imbecil na televisão. O interfone toca. Vou atender.

“Alô?”

“Boa noite. A Fernanda está perguntando se pode subir.”

“Fernanda? Não conheço nenhuma.”

“Ela deu o número do seu apartamento, senhor.”

“Deve ser engano. Ela disse o meu nome?”

“Ela não disse nome nenhum.”

“Então peça pra ela te dar o nome de quem ela quer falar e olhe no cadastro dos moradores o número do apartamento da pessoa.”

“Boa idéia!”

“Tenho meus momentos.”

“Desculpe pelo incômodo, senhor.”

“Imagina, só está fazendo o seu trabalho.”

Coloco o interfone no gancho. Aí, uma idéia me ocorre: Por que não? Disco o ramal da portaria.

“Portaria, boa noite.”

“Oi, sou eu. Você acabou de falar comigo agora.”

“Pois não, senhor?”

“A tal da Fernanda ainda está aí?”

“Está sim.”

“Como é que ela é?”

“Perdão?”

“Não estou entendendo, senhor.”

“Só fala pra mim como ela é.”

“Bem… é branca, loira, na faixa de uns vinte anos.”

“Que mais?”

“Que mais? Deixa eu ver… usa maquiagem, vestido preto de festa, salto alto, carrega uma bolsinha. Parece impaciente e está me fuzilando com os olhos.”

“Hum…”

“Desculpe, não sei onde o senhor quer chegar.”

“Eu é que peço desculpas. Não sei onde eu tava com a cabeça. Na verdade eu conheço essa garota aí! É que fazia tempo que não a via. Trabalhou comigo há uns anos atrás. Faça o favor de mandar ela subir!”

“Tem certeza?”

“Absoluta!”

Boto o interfone no gancho novamente. Vou até o banheiro e me olho no espelho; jogo uma água no rosto, dou uma bagunçada no cabelo. Nada mal. Chuto para trás da latrina uma cueca suja que eu tinha deixado no canto. A campainha toca. Vou até lá. Encolho a barriga e abro a porta.

“Olá.”

“Oi. Posso entrar?”

“Claro, a casa é sua! Não repare na bagunça, a faxineira está de folga.”

“Não vou reparar.”

Fecho a porta.

Deus do céu, que gostosa! Vinte aninhos, cara de anjo, cachinhos loiros, perfume Angel, tatuagem no pezinho! Toda durinha dentro de um vestidinho curto colado no corpo. E que jeito de andar…

“Não quer se sentar?”

“Claro. Tem fogo?”

“Tenho sim.”

“Obrigada. Quer um?”

“Não, parei. Essas coisas estavam me matando.”

“É, também tento parar faz anos.”

“Sabe o que ajuda?”

“O quê?”

“Beber.”

“Beber?”

“É, beber alguma coisa… pode ser água, chá, café. Eu particularmente prefiro cerveja.”

“Também gosto de uma cerveja de vez em quando.”

“Eu tenho umas lá na geladeira. Que tal?”

“Não sei se eu devo.”

“Como não? Sexta-feira à noite e você aí, toda linda, sem aproveitar o que ela tem de melhor?”

“Ela quem?”

“A sexta-feira!”

“Ahn?”

“A sexta feira, o desaguar dos rios, a loucura, o sábado no dia seguinte, um grande foda-se-passar-bem. Saca?”

“Mais ou menos. Bem, acho não faz mal se eu tomar uma.”

“Assim que se fala! Já volto!”

Vou até a cozinha, abro a geladeira e pego uma caixa com quatro Heinekens de garrafa. Pego também uma meia garrafa de Jack Daniel’s e um saquinho de Doritos.

“Nossa! Pra que tudo isso?”

“Ah, a gente não vai viver pra sempre, você sabe.”

“Eu disse que ia tomar só uma.”

“Claro, claro. Só trouxe por precaução. Vai um Doritos?”

“Adoro salgadinho! Mas eu não posso… Tô de regime.”

“Quê? Tá brincando né?”

“Não, por quê?”

“Olha pra você mesma!”

“Qué qui tem?”

“Qué qui tem é que não tem nada fora do lugar aí!”

“Ai, obrigada.”

“Um Doritos não vai te fazer engordar! Além do mais, você faz academia, não?”

“Sim, faço.”

“Então, faz vinte segundos de esteira que você queima todas as calorias desse Doritos aí.”

“Hahahaha! Acho que você tá certo. Me dá um aí, vai.”

“Agora sim. Pega a sua cerveja aqui também… Saúde!”

“Saúde!”

“Às sextas feiras!”

“Às sextas feiras.”

Enquanto bebemos, fico de olho naquelas pernas: branquinhas e sem nenhum traço de celulite. Nada de veias verdes nas panturrilhas também. Ela usa um saltos altos daqueles de amarrar; tem pezinhos gordinhos com as unhas pintadas de vermelho – tatuagem de beija flor no esquerdo. A saia sobe cada vez mais. Toda vez que ela leva a garrafa até a boca eu fico imaginando coisas; ela faz isso de um jeito bem insinuante. Pelo menos é o que parece a mim.

“Então, quando é que a gente pode começar?”

“Oi? Começar o que, gata?”

“Ha-ha, muito engraçado.”

“Não tô te entendendo.”

“Primeiro você precisa me pagar. Trezentinhos.”

“Ahn? Quê?”

“Cara, odeio quando vocês se fazem de bobos. O preço é esse. É pegar ou largar.”

“Pegar? Pegar o quê?”

“Escuta aqui ô cara, o tempo tá correndo. O problema é seu, a grana é sua.”

Fico olhando para a cara dela sem entender nada. Trezentos reais? Pegar ou largar?

Ela faz cara de quem está de saco cheio, bate o fundo da garrafa em cima da mesinha de vidro, pega a bolsinha, se levanta e se dirige até a porta.

“Espera!”

Uma garota de programa! Claro, o que mais poderia ser? Algum morador daqui a chamou, houve algum mal entendido com o número do apartamento, e agora esse cara deve estar descascando uma no banheiro ou debaixo do cobertor.

Digo a ela para esperar um minutinho. Vou até o quarto e vasculho nas gavetas. Consigo juntar cento e oitenta reais. Olho na minha carteira, vinte. Merda. Abro o armário e procuro nos bolsos das jaquetas: cinquenta reais em dinheiro trocado e uma bala-chiclete. Ouço o som de uma tampinha de cerveja caindo no chão da sala. Junto o dinheiro e vou para lá.

“Demorei muito?”

“Não. Cobro por hora. Você ainda tem meia.”

“Certo. Olha, isso foi tudo que eu consegui juntar.”

“Puta, fala sério! Faltam cinquenta aqui!”

“Foi mal. Foi o que deu pra fazer, gata.”

“Porra meu. Caralho, viu…”

“Quebra essa vai? Vai ser só meia hora mesmo…”

“Tá bom vai. Você até que foi legal. Conversou comigo, me ofereceu um drink e tudo o mais… A maioria dos caras só quer te comer e gozar na sua cara. Isso quando não te batem ou metem no seu rabo sem avisar, sendo que você deixou claro que não fazia anal, e você não consegue fazer nada porque o cara é um filho de uma puta que pesa duzentos quilos e esse peso está todo em cima de você. Alguns gostam de morder e bater também, os de pau pequeno.”

“Nossa.”

“Ossos do ofício.”

“Deve ser difícil pra você.”

“Não, tô acostumada. É só que às vezes eu…”

“Você?…”

“Eu, é que, eu…. Bem, eu…”

“Ei, tudo bem?”

“Tudo.”

“Não é o que parece. Escuta, termina essa cerveja aí e fuma um cigarro. Eu espero.”

“Mas o seu tempo tá correndo.”

“Foda-se o meu tempo. O que é o tempo?”

“Não sei.”

“Eu também não.”

Abro uma cerveja também. Agora ela tem os olhos úmidos e olha para baixo. E, puta merda, como são lindos esses olhos! Lindos, tristes e vividos. Ainda assim, conservam um quê de céu azul e algodão-doce no parque; há bondade por trás deles, há doçura e o canto dos anjos e alguma coisa que a vida ainda não tratou de aniquilar. Provavelmente tem pai e mãe em algum lugar. Teve infância e um cachorro e um gato chamado Sardinha. Sonhava em ser cantora.

Agora ela não leva mais a garrafa até a boca de um jeito malicioso. Que merda uma garota dessas está fazendo com a própria vida? Tenho vontade de perguntar, mas fico na minha.

Uns dez minutos se passam sem que nenhum de nós dois diga nada. A cerveja acabou. Pego a garrafa de Jack Daniel’s, dou uma boa golada e passo para ela. Ela bebe, faz cara feia, respira fundo e dá um trago mais longo. Eu estou ficando meio bêbado; ela, eu não sei.

“Fernada, olha, eu sinto muito.”

“Sente muito por quê?”

“Sinto muito por querer te comprar por tão pouco, sinto muito por todos os filhos da puta com quem você tem que lidar, sinto muito por não ter nada melhor pra beber, sinto muito porque só agora te olhei com outros olhos, sinto muito por tudo que os homens fizeram e fazem com as mulheres. Nós não merecemos vocês. Nós merecemos o cú peludo um do outro e a sífilis, a gonorréia, a estupidez, a selvageria e a merda toda pro resto das nossas vidas e por todas as nossas próximas encarnações.”

Ela torna a olhar para baixo, lágrimas se juntam nos cantos dos olhos. O rímel borra, as lágrimas começam a cair pretas.

Pego a garrafa e vou me sentar no sofá, ao seu lado. Passo o meu braço em torno dos seus ombros. Falo que está tudo bem, que hoje vou tomar conta dela. Aí ela me abraça, e chora e chora e chora. E eu fico com vontade de chorar também. Bebo mais um pouco e choro junto com ela. Seguro o seu rosto bem forte contra o meu, nossas lágrimas se misturam. Então ela me vem pra cima de mim; mete a língua dentro da minha boca e pega com firmeza no meu pau. Estou curtindo. Tô com ele (o pau) encostando no umbigo. Nunca beijei lábios dão doces e macios. Pego nos peitos dela – pequenos e firmes como eu e o diabo gostamos. Ela dá uma mordida com toda a força no meu lábio inferior; a dor lancinante me faz ver estrelinhas. Viro-lhe um tapa com toda a força. Sinto o gosto salgado de sangue na boca. Cuspo no tapete. Confiro se o meu lábio ainda está lá. Ainda está. Ela também tem sangue na boca, não sei se por causa da mordida que me deu ou do tapa ou dos das duas coisas. Aí essa louca pula em cima de mim de novo, e nós dois vamos para o chão. Desabotoa a minha calça e levanta o vestido, tudo com uma violência tão grande que chega a quebrar algumas das unhas. Baixa minha cueca e afasta a calcinha para o lado, e a gente começa a meter de roupa e tudo. Chorando, gemendo, gritando e sangrando. Metemos com força, metemos devagar, metemos com força de novo e depois devagar… E com força de novo. Aí eu gozo. Parece que nunca vai parar de sair porra. Ela aperta bem a xoxota e vem pra frente e pra trás, me espremendo até a última gota. Quem mulher… Quanta classe… Que puta.

Ela se levanta e baixa o vestido. Está toda descabelada e tem os olhos frios e distantes. Pergunta aonde é o banheiro. Eu digo que é a primeira porta a esquerda. Fico sentado e espero para ver o que acontece. Ouço o barulho da descarga e depois o da torneira.

A porta se abre e ela sai totalmente recomposta, como se nada tivesse acontecido. Retocou a maquiagem e passou perfume. Arrumou os cabelos. Parece mais linda do que antes. Boa demais para ser verdade. Jovem e imaculada. Uma princesa. Vem até o sofá onde eu estou sentado, pega o dinheiro e põe na bolsa. E, sem nem olhar pra mim, se dirige até a porta. Abre e fecha. Ouço o toc-toc dos seus saltinhos ressoando pelo corredor. Ouço o elevador chegando. Ouço o elevador descendo. Então não ouço mais nada.

Na minha boca fica um gosto amargo.

Essa vai ser uma madrugada daquelas…

 

 

Guilherme Sakuma – 15/05/2010

 

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OBSERVAÇÃO PARA OS CABEÇAS-DE-REPOLHO: Nem todos os textos escritos em primeira pessoa (tipo: “Eu amarrei o filho-da-puta numa cadeira e cortei sua língua, seu nariz, suas orelhas, seus braços, suas pernas e seus testículos; depois levantei vôo que nem o super-homem e assassinei Deus” ou até um simples “Ontem atropelei um mendigo e não prestei socorro”) são sobre a vida do próprio autor que os escreveu ou sobre as coisas nas quais este acredita.


Written by Guilherme Sakuma in: Agenda,Contos,Guilherme Sakuma |

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