Uma Comédia da Morte
Escritor: Dr. Strangelove
Todos os dias, às 17:30, você podia me ver no ponto de ônibus. Também todos os dias, às 18 horas, você podia me ver no terminal. Mas nunca, jamais, enquando eu estava vivo, você poderia me ver na Rua General Francisco Otávio.
Esse beco gigante, largo como uma avenida, maldito como um voodoo malfeito, escuro como uma toca de ratos. Ninguém passa por alí. Malemá olham o lugar.Ele fica bem próximo ao terminal, mas não está na rota do ônibus. Nem na do carteiro. Nem na de deus, pelo que pude perceber.
Os motoristas preferem perder tempo contornando sua área do que estrar nesse domínio do inferno.
E naquela quarta-feira, que começou brilhante, bonita, radiosa até, deveria ter sido assim.
Se, por um acaso, Tom Burroughs, 34 anos, policial, solteiro, não tivesse decidido matar todo mundo naquela porra.
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Parecia que o Sol havia decidido que merecia uma folga no meio do dia. Fazer a siesta, talvez. E é meio triste pensar que, se não fosse pelas condições climáticas eu ainda estria vibo.
Mas preciso admitir que o céu da tarde estava mesmo deprimente.
Aquelas nuvens pesadas, sufocantes, cor de hematomas. O vento irregular, surgindo à intervalos, levantando poeira. E todos sumiram da rua, foram para suas casinhas tomar um chocolate quente e ler Dickens.
Mas não choveu. E o ônibus não atrasou. E eu não fui embora a pé. Nem eu, nem Tom Burroughs.
Eu estava na parada da Cidade Universitária. Pelo que me importa, ele podia estar na puta que o pariu. Eu até prefeira que ele estivesse lá.
E vocês pensam: “mas como assim, depois de morto ele tem a chance de contar o que aconteceu e ainda reclama do fado que teve?” Olha, eu não sou um grande escritor, um literato. Eu nem gostava muito de ler.Contar o que aocnteceu é quase uma maneira de parar a maldição que me pegou. E contar como eu sou um cara legal.
Gabriel Márques, um cara legal, profissão: defunto, antigo estudante de engenharia elétrica, nunca foi do time de alguma coisa, nunca foi presidente de alguma coisa, nunca ficou com a menina mais bonita da festa, não tinha nem namorada ou amigos normais quando morreu, mas ainda assim preferia estar vivo.
Tanta gente se matando e eu aqui, querendo uma chance. A vida tem dessas coisas meio barrocas.
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