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Nov
08
2011

Briga de Bar

Escritor: Matheus A. Francisco

briga-de-bar

Eu já estava puto naquele dia antes mesmo de acordar, pois tive um sonho, ou melhor, um pesadelo onde minha sogra chegava a minha casa de biquíni e carregando uma mala enorme, pois queria passar férias comigo e minha esposa, já que morávamos próximos à praia. Quando acordei já estava louco!!!

Minha mulher trabalha apenas durante a tarde, por isso tive que fazer meu café da manhã antes de trabalhar. Há apenas poucas coisas que me irritam mais nessa vida do que lavar louça do dia anterior enquanto ainda estou com sono! Não havia sequer uma xícara limpa para que eu pudesse tomar meu café.

Bom, peguei meu carro, fui tranquilamente até o trabalho, cumprimentei alguns colegas, me escondi no banheiro quando meu chefe chegou e depois, lá pelas quatro horas, voltei para casa. Outra coisa que me irrita é visita. Minha mulher fica convidando as amigas dela que eu nem conheço para ficar em casa. Isso durante a hora que quero sossego! Não gosto de visita, perco minha liberdade. Se um homem não puder dar um peido em paz dentro de sua própria casa, o que será da humanidade?

Fui assistir ao jogo no bar, pelo menos lá eu não fico incomodado com as pessoas que dividem o mesmo ambiente comigo. Já estou acostumado a ver gente estranha naquele local. Aos poucos foi chegando alguns amigos.

Até o primeiro tempo, não houve nenhum problema. Jogo no 0×0, nenhuma confusão, eu pude desfrutar em paz o meu refrigerante, já que nunca coloco uma gota de álcool em minha boca. No intervalo aquele sujeito odioso entrou no recindo, sentou-se no balcão e ficou pedindo uma dose de pinga atrás da outra.

Eu nunca gostei de beber, mas acho que se uma pessoa tem esse hábito deveria pelo menos ser chique e tomar uísque (whisky), ou coisa parecida, ao invés de pinga! Até mesmo falar “pinga” é deselegante.

No meio do segundo tempo o idiota tentou convencer o dono do bar a mudar o canal do jogo e colocar no telejornal. Não sei como ele conseguiu, mas o seu Bartolomeu fez o que ele queria. O jornalista estava falando sobre um novo supertelescópio que pôde observar uma sociedade de seres humanoides num planeta distante. Também continuou explicando alguma coisa, falando sobre a distância do planeta, e não sei o que

Quando o noticiário mostrou ao vivo o centro de pesquisa onde o supertelescópio estava instalado (é, ele estava na Terra, e não na orbita dela, como seria de se esperar), o sujeito da pinga tirou do bolso uma caixinha cinza cheia de botões vermelhos. Eu fiquei no canto, com um olho no noticiário, outro no tumulto das pessoas esperando ver um ET e outro no sujeito. E eu não tenho três olhos!

Primeiro ele apertou um botão vermelho na caixinha, e o noticiário mostrou uma explosão, que destruiu uma parte da ala oeste do centro de pesquisa, matando algumas pessoas. Depois ele apertou outro botão, que foi seguido de mais uma explosão. Depois da terceira, eu levantei e comecei e esmurrá-lo, tentando tomar a caixinha. Eu não sou burro, já tinha entendido tudo.

Foi uma briga feia, pois o sujeito sabia lutar. Não lembro muito dos detalhes, por isso não posso descrevê-la, mas sei que saí com a cara roxa e uma dor terrível na costela, e meu oponente numa situação similar. Mas fiquei com a caixinha, e a levei para a casa assim que os outros ocupantes do bar nos separaram.

Após pouco mais de dois meses, quando já havia me esquecido da caixinha, fui surpreendido pela notícia de que cientistas conseguiriam como, com um bom tempo de trabalho e investimento, consertar o supertelescópio que foi danificado pelas explosões. Então, lembrando-me do detonador escondido em casa, tratei de dar um jeito de sumir com ele.

Deixei-o em cima da cozinha quando fui procurar as chaves do carro, esse foi meu pior erro. Levou dez segundos, minha filha, de sete anos, apareceu a o pegou com as duas mãos e com isso apertou vários botões juntos. Logo tirei a caixinha da mão dela, com certa violência. Entrei no meu carro e enterrei aquela coisa bem no fundo de um aterro sanitário antigo, que não mais utilizado pela prefeitura.

No mesmo dia, já tarde da noite, estava em casa olhando as notícias na internet. Lá vi que todo o centro de pesquisa sofreu novas explosões e foi destruído, matando 236 pessoas e arruinando incontáveis projetos científicos, inclusive o supertelescópio, que não se sabe ao certo como funciona, pois o inventor do aparelho anda sumido.

Isso já faz muitos anos, nunca mais foi possível inventar outro telescópio tão avançado, pelo menos até agora. De qualquer forma, ninguém mais se lembra do episódio onde ele foi arruinado. Ah, e nunca contei a minha filha que, de forma um tanto indireta, ela foi a culpada por isso e pela morte de centenas de pessoas.

De tanto que a obriguei hoje ela é cientista, ou melhor, astrônoma e engenheira, para compensar o fato de ter privado o mundo de tantos outros.


Written by Matheus A. Francisco in: Contos,Matheus A. Francisco | Tags: , , , , , ,

13 Comments»

  • Alex Tzimisce says:

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    HAHAHHAHAHHAHAH

    Insano, mas gostei demais. O texto flui bem.

    “E eu não tenho três olhos!” foi engraçado.

  • STW says:

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    Nossa, tem um lance meio Sci-fi muito louco nesse conto. Eu, sinceramente, achei meio abstrato e aleatório, mas curioso da mesma forma.

  • Thaina Gomes says:

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    Ficou bom, eu achei engraçado na hora q a menina aperta os botões, crianças são tão curiosas quanto eu. Eu tenho que controlar essa curiosidade se~não eu vou acabar explodindo algo. E achei injusto, tadinha da menina ter q ser esse tanto de coisa, foi só curiosidade de criança… Mas ficou muito bom o texto.

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    loucura hauihai. mt bem escrito, parabens! curtí o estilo ^^
    -
    “Se um homem não puder dar um peido em paz dentro de sua própria casa, o que será da humanidade?” xD genial euihaui

  • Vinicius Maboni says:

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    Bem engraçado, gostei bastante. Ri muito aqui.

  • Bruno Vox says:

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    hahahahaah boa, gostei. Achei divertido.

  • Andre Alves says:

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    Foi muito bem escrito, de uma forma que deixou o texto com uma leitura rápida. Agora, depois que eu li o começo (achando muito engraçado) esperava que ficasse cada vez mais e mais engraçado… mas acabou perdendo tudo isso. Foi como se tivesse mudado da água pro vinho depois da metade do conto!

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    Gostei do conto, o texto flui muito bem, é cômico. :)

    Curti! :D

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